De promessa a craque, de novato a líder, Marcelo tornou-se lenda do Real Madrid

Estádio Santiago Bernabéu aberto. Em campo, um só jogador. Com o uniforme branco e uma bola, se apresenta à torcida. Um jogador quase desconhecido. Era 15 de novembro de 2006. Um jogador sendo apresentado no Real Madrid em novembro, fora da janela de transferências, sendo que poderia jogar apenas em janeiro? De fato, algo pouco usual. Marcelo Vieira da Silva Júnior nunca foi um jogador comum. Era apresentado de forma incomum, em um clube que tinha aquele que era, provavelmente, o melhor lateral esquerdo do mundo na época e um dos maiores de todos os tempos.

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“Você quer ir para o Real Madrid?”. Quando ouviu isso, Marcelo era só um garoto de 18 anos. Tinha recém jogado pela Seleção pela primeira vez. Promovido ao time profissional pouco mais de um ano antes. O ano era 2006. Dunga, então técnico, deixou de fora muitos jogadores da Copa de 2006, que tinha sido um fracasso. Marcelo foi um dos chamados para renovar aa lateral esquerda. Se buscava um substituto para Roberto Carlos, que tinha sido injustamente acusado de falhar no gol da França, naquela fatídica partida de quartas de final da Copa, contra a França. A ajeitada no meião se tornou um símbolo de uma Copa muito ruim do Brasil, eliminado precocemente depois de chegar à Alemanha como a grande favorita, tendo alguns dos melhores jogadores do mundo em seu elenco. Roberto Carlos nunca mais jogaria pela Seleção depois daquilo. Abriu espaço para vários nomes. Marcelo foi um deles.

Marcelo tinha assistido a Copa pela TV. Ainda era um garoto. Em 2005, com 17 anos, foi alçado ao time profissional do Fluminense pelo técnico Abel Braga. Um ano depois, fazia parte da renovação da Seleção pensando em outro ciclo de Copa e do fracasso do time de craques de 2006. O então lateral do Fluminense jogou contra Gales, em um amistoso em setembro daquele ano. Marcou um dos gols. Já era considerado dos mais promissores no Brasil. Chamava a atenção de clubes como o CSKA Moscou e o Sevilla, como ele próprio revelou. Na época, o Sevilla estava em alta. Mas o Real Madrid veio antes.

O clube sabia que ia precisar de um lateral esquerdo em um futuro próximo. Raúl Bravo, o reserva na época, não parecia estar à altura – e deixaria o clube ao final da temporada 2006/07, sem nunca ter parecido estar ao nível esperado em um clube como o Real Madrid. Marcelo era uma aposta. Custou cerca de € 6 milhões na época e chegou a Madri ainda como uma incógnita para os europeus. Os brasileiros já sabiam se tratar de alguém especial. Jovem, habilidoso, rápido, ofensivo. Habilidade de meia, técnica apurada, preparo defensivo deficiente. Era um lateral tipicamente brasileiro. Mas este é um dos pontos pontos onde Marcelo pode ser apontado como alguém típico.

O possível substituto de Roberto Carlos na Seleção chegou ao Real Madrid para fazer o mesmo no clube. Aos 33 anos, Roberto Carlos era uma das referências de um time muito vencedor do Real Madrid e se encaminhava para seus últimos anos de carreira. A apresentação foi em novembro, mas ele só podia jogar a partir de janeiro.

“Para mim, é um sonho ser contratado pelo Real Madrid com 18 anos. Já joguei numa outra grande equipe, o Fluminense, e tenho que agradecer ao Real por ter confiado em mim tão cedo. Outros clubes estavam interessados em mim, mas eu queria vir para cá. É um clube com 104 anos, de grande história, muitos títulos, como a Liga dos Campeões. É um clube que impressiona muito”, disse Marcelo.

Raras vezes os grandes clubes europeus fazem contratações de fato relevantes no meio da temporada, o mercado de inverno de lá. Apresentar um jogador em novembro é algo que demonstra o quanto o Real Madrid queria garantir Marcelo no seu elenco. Mesmo que ele ainda fosse jovem demais para ter certeza que ele poderia render. Que seria um jogador capaz de substituir um dos maiores laterais esquerdos de todos os tempos. Mas o clube merengue percebeu uma chance também de fazer com que o veterano brasileiro fosse o mentor do compatriota mais jovem. Ele ainda não estaria pronto, mas era jovem e promissor. E quem estaria pronto para substituir Roberto Carlos? Ninguém seria bom o bastante. Um jovem promissor ao menos poderia se desenvolver. E o dinheiro gasto nem era tanto assim para os padrões merengues.

A convivência entre Roberto Carlos e Marcelo no Real Madrid nem durou tanto assim. Marcelo estreou no dia 7 de janeiro de 2007. Em uma derrota por 2 a 0 para o Deportivo La Coruña. Naquela temporada, o time tinha um elenco repleto de craques. Iker Casillas, Sergio Ramos, Fabio Cannavaro, Raúl, Emerson, Ronaldo, Robinho, Cicinho, Van Nistelrooy, David Beckham. Entrar naquele elenco não era fácil. Assim como substituir Roberto Carlos. E foi preciso crescer rápido, porque ao final da temporada 2006/07, Roberto Carlos deixou o Real Madrid, depois de 11 anos, para jogar pelo Fenerbahçe, na Turquia.

A vida no Real Madrid nem sempre foi só com flores. Sua característica é de um jogador ofensivo, que chega muitas vezes à frente, mas defensivamente Marcelo nunca foi um primor. E isso é um problema em um time que exige que ele seja, antes de tudo, um defensor. Nesses 11 anos, houve momentos que técnicos quiseram isso e, assim, Marcelo sofreu, especialmente nos seus dois primeiros anos. Com Juande Ramos, Marcelo foi muitas vezes reserva de Gabriel Heinze, um zagueiro que atuava pela lateral, equilibrava o time defensivamente em meio a tantos craques no ataque. Justamente por ser defensivo. Depois, com José Mourinho, ficou no banco algumas vezes pela presença de Fábio Coentrão. Era, porém, titular na maioria das vezes. É difícil abrir mão de um potencial ofensivo tão criativo quando se tem um jogador assim.

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Quando se fala em lateral esquerdo, Paolo Maldini é alguém que conhece como poucos. Em 2011, o ex-jogador do Milan e da seleção italiana elogiou Marcelo. Para ele, um dos poucos jogadores que sabe como atacar e defender nessa posição. Naquela época, ele falava sobre jogadores que eram originalmente meio-campistas que eram adaptados para jogar como laterais e, por isso, tinham mentalidade mais atacante. Marcelo foi ponta esquerda no Real Madrid mais de uma vez, por muitos períodos. Mas é na lateral que ele é um dos melhores do mundo.

“Todos já o viram e parece óbvio. Marcelo é um grande jogador ofensivo, mas não defende”, afirmou esta semana o técnico Jürgen Klopp, do Liverpool, adversário da final da Champions League neste sábado. Mas ele mesmo reconhece que esse é só um lado da moeda. “O futebol não é tão simples ao ponto de se dizer que se o Marcelo subir pela ala, vai deixar espaço para o Salah. Ele ainda vai ter o Sergio Ramos pela frente”. A resposta é simples e verdadeira. E isso fica claro pelas palavras do próprio Marcelo. A sua entrevista no Players’ Tribune, de setembro de 2017, chama-se “Primeiro nós atacamos”. E lá ele explica como o seu sucesso como o craque que é atacante tem a ver com o time, com os companheiros e também com a forma como ele foi recebido e aprendeu ao chegar no Real Madrid.

“Eu me inspirei muito no Roberto Carlos dentro de campo também. Roberto Carlos ia pra cima e pra baixo como uma animal na ala esquerda. Se você me ama ou me odeia, você sabe do que sou capaz quando estou lá. Eu adoro atacar. Não, é atacar como todos os laterais fazem. É A-ta- car como se eu fosse um ponta mesmo, entende?”, disse Marcelo. “E depois, na defesa? A gente tenta consertar o problema. A gente dá um jeito. Mas primeiro a gente gostava de atacar”, contou o brasileiro.

O atual Real Madrid tem várias formações possíveis. Em algumas delas, traz Isco como um meio-campista aberto pelo lado esquerdo. Isco tem sua característica de armar o time pelo meio, não é um ponta, um jogador de linha de fundo. Abre o espaço pelo lado do campo. Abre o campo para Marcelo. Com ele, o Real Madrid ganha um camisa 10 que joga com a camisa 12. E o trabalho defensivo para equilibrar o time existe e não é por acaso.

“Você só pode jogar desse jeito se você tiver um bom entendimento com os seus companheiros de equipe. Fabio Cannavaro jogava do meu lado, e ele me dizia: ‘Você pode atacar, Marcelo. Fica à vontade. Pode ir, que eu sou o Cannavaro. Você pode ir’. É como o Casemiro faz comigo hoje. ‘Vai pra cima, Marcelo. A gente dá conta do resto depois’. Ahhhhh, Casemiro. Ele salvou a minha vida. Eu poderia jogar até os 45 anos de idade com esse cara do meu lado”, conta Marcelo.

“Quando eu cheguei em Madrid, Cannavaro me ajudou a ficar mais solto. A regra era, eu podia atacar desde que eu voltasse correndo pra defesa. Mas e quando eu estava atrasado para voltar para a nossa metade do campo? Hahahahahah. Ah, cara. Aí ficava sério. O cara sabia gritar. Ele pegava no meu pé. Cannavaro pegava pesado comigo com razão, e eu amo ele por isso”, contou ainda o lateral esquerdo.

Quando Zinedine Zidane assumiu o comando como técnico do Real Madrid, um dos seus desafios foi justamente encontrar um equilíbrio defensivo. Foi com Zizou que Casemiro se tornou uma peça crucial para este time, tantas vezes campeão. Em 2014, La Décima, Casemiro era um reserva pouco utilizado. Marcelo era um jogador importante, embora tenha perdido a posição na final. Mesmo assim, entrou na prorrogação contra o Atlético do Madrid e ajudou decisivamente o time a levantar aquela taça, esperada ansiosamente desde 2002.

O time campeão europeu em 2015/16 já tinha Casemiro equilibrando o time, tornando a presença de Marcelo ainda mais importante, decisiva, algo que se repetiu na temporada seguinte, 2016/17. Estamos na temporada 2017/18. Na semifinal contra o Bayern de Munique, Marcelo foi decisivo ao aparecer para marcar o gol de empate na vitória por 2 a 1, de virada, em Munique.

Esta já é a temporada que Marcelo mais marcou gols pelo Real Madrid, com cinco. Três deles na Champions League, contra PSG, Juventus e Bayern de Munique. Em um time que tem tantos jogadores importantes, ele é um dos armadores do time, mesmo atuando pela latera. Tem um papel fundamental na construção ofensiva.

“O bom é que somos nós que o temos. No entanto, mais do que os gols que tem feito, é um jogador importante para o que queremos propor, sobretudo ofensivamente. Em qualquer momento, pode fazer a diferença”, descreveu o técnico Zinedine Zidane, depois do jogo de alto nível que Marcelo apresentou em Munique.

“Marcelo é o melhor lateral-esquerdo do mundo, tenho o prazer de falar isso dele. É um prazer jogar com ele, um prazer ter ele na seleção também. Temos que desfrutar do melhor futebol dele e aplaudir. É o melhor lateral-esquerdo há muito tempo e ainda tem muito para jogar”, disse Casemiro sobre o companheiro de clube e de Seleção.

O papel de construtor de jogo de Marcelo fica mais clara quando olhamos os maiores passadores do Real Madrid, em dados apenas da Champions League. Toni Kroos é quem mais faz passes (780), seguido por Sergio Ramos (633), que é quem faz a saída de bola. Luka Modric vem em seguida (620) e então aparece Marcelo (620). O dado por si pode enganar, mas há outros pontos que reforçam o papel do camisa 12. Ele é o terceiro jogador que mais faz os passes-chave, que são passes para finalizações. Toni Kroos lidera o quesito (24), seguido por Isco (18) e Marcelo (17).

Na final contra o Liverpool, Marcelo tem um papel decisivo defendendo e atacando. Pelo seu lado, Mohamed Salah tem causado estragos enormes aos adversários. Muito mais do que Marcelo estar posicionado, será preciso que o equilíbrio proporcionado por Casemiro e por todo o time do Real Madrid não deixa Salah com liberdade para avançar sobre Marcelo ou qualquer outro. Defender-se de um jogador como Salah nunca pode depender do individual. Além disso, ele pode causar estragos no lado direito da defesa do Liverpool, onde atua um jogador que é jovem, Alexander-Arnold. O Liverpool também precisará de equilíbrio para não deixar que o brasileiro pinte e borde daquele lado e siga sendo decisivo.

“Marcelo é o melhor do mundo, faz um futebol mais real. Só espero que ele não seja melhor do que eu fui, mas ele está jogando muito bem. No momento, é o melhor lateral esquerdo que tem no mundo. Tecnicamente, o melhor é ele. Eu era mais potência e chute”. As palavras são de Roberto Carlos, um dos maiores laterais brasileiros da história. Foram proferidas quando Marcelo completou 10 anos como jogador do Real Madrid. E já superou os 10 anos. Em novembro de 2018, a sua incomum apresentação completará 12 anos. E nada indica que ele não possa ir além disso. É o segundo capitão do time, depois de Sergio Ramos, que chegou ao clube em 2005. A braçadeira fica com o brasileiro quando o zagueiro não está em campo. Cristiano Ronaldo só vem depois dos dois na hierarquia.

Poucos jogadores são apresentados pelo Real Madrid em novembro. Poucos jogadores ficam 10 anos no Real Madrid. Marcelo já completou 11 anos com a camisa dos blancos. Tem 30 anos. É o titular da Seleção. É um dos líderes, dos jogadores mais importantes do Brasil. Quando se fala nos melhores laterais esquerdos de todos os tempos, imediatamente se pensa em Nilton Santos e Roberto Carlos. Marcelo tem tudo para estar nesse mesmo grupo quando encerrar a carreira, daqui a alguns anos. Ele espera que com o título da Champions League 2017/18 no currículo.

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