De Rossi foi o grande jogador, o líder e o símbolo que a Roma precisava para alcançar a glória

Ser ídolo de um clube de futebol é algo que foge às definições. Não é fácil, não é simples e vai muito, mas muito além de jogar bem, conquistar títulos, de ser bom jogador, de ter grandes momentos. Vai muito além de números, de estatísticas, de dados. Daniele De Rossi é um dos grandes ídolos da história da Roma, um clube pelo qual ele sempre jogou. Um jogador formado nas categorias de base, que nunca deixou de vestir a camisa giallorossa e, aos 34 anos, viveu uma das maiores noites da sua vida e da história dessa instituição que defende. Na épica reviravolta da Roma contra o Barcelona, o volante foi um dos melhores em campo. Decisivo em diversos aspectos, dos técnicos aos de liderança, dos mentais aos emocionais, do grito ao coração, do campo à arquibancada. O símbolo romanista que fez os sonhos ganharem vida no Estádio Olímpico.

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De Rossi nasceu em 1983, ano do segundo scudetto da Roma na história. Era uma criança muito pequena quando o time liderado por Roberto Falcão fez a melhor campanha da história do clube na então Copa Europeia, a predecessora da Champions League. Foi em 1984 que a Roma tinha chegado, pela última vez até esta noite, a uma semifinal de Champions League. Daquela vez, com um dos melhores times da sua história, a Roma sucumbiu na final diante do Liverpool, mesmo jogando no Estádio Olímpico, nos pênaltis. O mesmo palco, que há pouco menos de 34 anos tinha esse capítulo glorioso e ao mesmo tempo triste, seria também o local de algo para torcedores da idade de De Rossi, ou menos, terem guardados no coração e nas mentes.

Quando De Rossi subiu ao time profissional, o time era campeão italiano. Era 2001, quando Fabio Capello conduziu o time à glória, com Francesco Totti como a grande estrela. Totti seria o grande companheiro de De Rossi, no clube e na seleção, durante alguns anos. Estiveram juntos no último grande momento da seleção italiana, em 2006, quando o país conquistou o seu último título mundial. Na Roma, ganhou o seu espaço aos poucos, com a técnica acima da média e a raça que o caracteriza. É um jogador inteligente em campo, inclusive aparecendo pouco em alguns jogos, atuando mais sem bola que com a bola. Dono da camisa 26 quando chegou ao time profissional, vestiu também a 27 e até a camisa 4, mas queria mesmo a 16. É esse seu número e foi também na seleção, em boa parte do tempo.

Na partida desta terça-feira contra o Barcelona, ele esteve presente o tempo todo, no jogo todo. Atuando no centro do meio-campo, era o equilíbrio de um time montado com três zagueiros atrás dele. Permitia, assim, que Kevin Strootman e especialmente Radja Nainggolan chegassem com força à frente. Mas foi o próprio De Rossi, porém, quem apareceu, lá do meio-campo, para colocar uma bola perfeita nas costas da defesa do Barcelona, perfeita para que Dzeko aproveitasse e abrisse o placar. Ainda eram seis minutos, mas ali o sonho começou a sair da mente e ir para o campo. Os suspiros de ansiedade ganharam sabor de esperança.

Seria o próprio De Rossi o responsável por continuar alimentando o sonho, quando um pênalti foi marcado em cima de Dzeko. Com a braçadeira de capitão, sendo o líder que é, esteve presente para a cobrança. Bateu com força e precisão no canto, sem chances de defesa para Marc-André Ter Stegen, que foi muito bem na bola e fez uma excelente partida. Era o segundo ato daquela remontada que, a essa altura, já era vista como possível pelo mundo inteiro que assistia ao jogo.

Entre os jogadores que mais tocaram na bola ao longo do jogo, De Rossi foi o quinto, com 67, atrás de Piqué (85), Rakitic (74), Kolarov (73) e Semedo (71). Nenhum deles teve a influência no jogo que De Rossi teve. Em número de passes, ele foi o terceiro, com 59, atrás de Piqué (67) e Rakitic (61). De novo: De Rossi foi mais influente na partida que ambos. Foi decisivo, como se esperava que um jogador do seu nível seja. Números excelentes de um jogador muito acima da média. Mas, novamente, os números são apenas uma parte da história. E não são esses números que aquecem os corações romanistas nesta inesquecível noite europeia. O futebol tem alma e, em alguns momentos, vira uma constelação de almas alinhadas e corações pulsantes, batendo juntos. Às vezes nas dolorosas derrotas. Outras vezes nas inesquecíveis glórias.

De Rossi já teve momentos difíceis na Roma e passou por questionamentos. Alguns já acreditavam que o jogador já tinha passado do seu tempo no clube. O técnico Eusebio Di Francesco sabe que De Rossi, embora um animal em alma e suor, não tem o mesmo físico do prodígio garoto que energiza o meio-campo da Roma há tantos anos. De Rossi, porém, mostrou o futebol que o consagrou na sua imensa carreira mais uma vez. Técnico com a bola, líder o tempo todo, inteligente nos espaços. Como a Roma comandava as ações com a bola, De Rossi era crucial para começar as jogadas, para articular, para criar os espaços para o time jogar.

Foi o capitão que quase marcou o terceiro gol, o da classificação, quando deu uma cabeçada na segunda trave. O terceiro gol viria sem a sua participação, com um escanteio que Manolas cabeceou para a rede. Mas a história estava escrita. A espetacular história de De Rossi com a Roma segue tendo capítulos maravilhosos. Em um time que ficará na memória dos torcedores para sempre, De Rossi estava lá. Capitão, ídolo, craque. Sim, craque. De Rossi não marca gols ao estilo Messi, nem ao estilo Cristiano Ronaldo. Não é mágico como Totti, nem elegante como Falcão. Mas é um líder que leva a cada jogada todos os corações romanistas.

De Rossi ganhou fama, no Brasil, de ser um jogador que é violento, que é um volante de muitas faltas. Claro, a imagem da sua tatuagem ajuda a aumentar esse mito. De Rossi é um jogador duro, às vezes excessivamente duro, que já foi expulso mais do que deveria. Mas ele também tem muitos, muitos episódios como esse, em que foi um grande em campo e que lidera o time em direção a momentos gloriosos. Seja quem for o adversário nas semifinais, não irá subestimar o que esse time pode fazer. E nem o que esse capitão da Roma, já veterano, é capaz de decidir. A história de De Rossi na Roma é imensa, eterna e gloriosa. Mas ainda há algumas páginas. E que ninguém menospreze a capacidade do camisa 16 de eternizar momentos.