Não, o Grêmio não fez a sua melhor partida nesta quarta-feira. Não foi o time de triangulações, de transições em velocidade, de muitas chances de gol. Teve que lidar com o sofrimento em diversos momentos do jogo e dependeu das bolas paradas para criar suas melhores oportunidades. Mas, afinal, qual é o gremista que se importa com isso? Que vai reclamar dos pesares quando o time jogou com tanto brio? Que encontrará os poréns quando viu a equipe superar um cenário que não parecia favorável? Que contará as unhas roídas quando a vibração a cada bola afastada nos minutos derradeiros será bem mais lembrada? Ao final, o que fica não são os 90 minutos tensos na Arena, e sim o alívio eufórico pela classificação. O Botafogo foi um adversário valente. O Grêmio, como conta sua história, foi copeiro. O diabo velho que – isso sim, essencial – venceu por 1 a 0 e estará nas semifinais do torneio continental. Já com suas veias abertas, onde corre o sangue de América.

O primeiro encontro pelas quartas de final da Libertadores foi intenso, mas os times não assumiram riscos o suficiente para tirar o zero do placar. Nesta quarta, pareciam mais dispostos a isso, buscando o gol que pudesse decidir. E o Grêmio tinha uma excelente notícia no 11 inicial. Geromel era a segurança de milhões de tricolores, voltando a compor a adorada dupla de zaga com Kannemann, enquanto Michel entrava na cabeça de área. Além disso, Luan era uma opção a mais no banco de reservas, mesmo sem estar 100% fisicamente. Do outro lado, os botafoguenses vinham com Victor Luis e Rodrigo Lindoso como novidades.

Ao redor do campo, a Arena do Grêmio pulsava. Os torcedores da casa fizeram uma festa digna de Libertadores, com serpentinas chovendo das arquibancadas. Lembravam os momentos monumentais de Olímpico. E a força dos tricolores seria importante para manter a fé. Afinal, o Botafogo iniciou o jogo com muito mais sucesso em seus planos. Apesar de um chute de longe de Bruno Cortez que assustou, os alvinegros tinham um controle maior da partida. Não se acuavam, marcando forte a saída de bola gremista e tentando forçar os erros dos anfitriões. Ao contrário do time que se fechou em boa parte dos jogos da campanha, os cariocas eram agressivos no campo de ataque, com e sem a bola. Claramente superiores nos 45 minutos iniciais.

O primeiro susto do Botafogo aconteceu aos nove minutos, após cobrança de escanteio. A bola sobrou com Bruno Silva e o meio-campista tentou emendar de calcanhar. Marcelo Grohe salvou. Já no rebote, Igor Rabello foi bloqueado pela zaga. A pegada dos meio-campistas alvinegros era excelente. Ao contrário do que acontecia com o Grêmio. Arthur esteve longe de repetir a grande noite do Rio de Janeiro, um tanto quanto desligado. Além disso, Léo Moura e Ramiro não ofereciam muita dinâmica aos gaúchos. As melhores tentativas vinham com Fernandinho, na marra, outra vez o mais perigoso de sua equipe.

arena

A tensão era evidente na atmosfera da Arena, com os dois times mais uma vez tentando imprimir sua intensidade. A solidez do Botafogo preponderava. O Grêmio precisava se limitar aos tiros de média distância, sem conseguir penetrar na área. Quando conseguiu, foi apenas em uma cobrança longa de lateral, aos 21 minutos. E o gol quase saiu daí. Pouco acionado, Barrios ajeitou e, mesmo em uma posição difícil, Fernandinho foi rápido o suficiente para soltar o canhão. Gatito Fernández só pôde ver a bola estremecer seu travessão. Em compensação, o lance acordou os alvinegros, que foram excelentes na metade final do primeiro tempo. Faltou o gol.

Aos 23, um primeiro aviso com Pimpão, que roubou a bola e partiu em velocidade, mas finalizou sem força, com Grohe fazendo a defesa. Logo na sequência, Bruno Silva teria liberdade para um chute rasante de fora da área, que se estatelou no poste tricolor. O camisa 8, aliás, resumia o espírito dos visitantes na Arena. Jogava em ritmo forte. Pior, o sistema defensivo do Grêmio não se acertava. Os volantes falhavam na proteção e mesmo Geromel por vezes demonstrava certa falta de ritmo, recuperando-se aos poucos. Aos 33, Grohe apareceu novamente para espalmar cobrança de falta potente de Victor Luis. E o momento tricolor era tão difícil que Renato queimou sua primeira substituição antes do intervalo, trocando Léo Moura por Everton. Buscava mais velocidade, mas o efeito imediato foi nulo.

Na volta para o segundo tempo, o Grêmio mostrou que estava mais disposto a atacar. Logo no primeiro lance, após cobrança de falta de Fernandinho, Michel forçaria Gatito Fernández a um milagre. Os tricolores não encontravam a mesma marcação adiantada e se soltavam um pouco mais no campo de ataque. O problema é que os erros aconteciam em frequência inaceitável. Já o Botafogo perdeu ímpeto ofensivo, embora não passasse por novos apuros na defesa. Era evidente que o jogo seria resolvido em uma bola. Grohe quase entregou o ouro em um cruzamento, fazendo sua torcida prender a respiração. Mas o grito de gol da noite também seria dos anfitriões, logo depois.

Aos 17 minutos do segundo tempo, o Grêmio arrancou a sua vitória. Uma bola longa vinda da defesa proporcionou a falta de Igor Rabello sobre Fernandinho. Na cobrança, Edilson mandou a bola na segunda trave. E o artilheiro Lucas Barrios, apagado até então, fez o que se espera. Matheus Fernandes permaneceu desatento na marcação e o paraguaio se antecipou ao meio-campista, cabeceando com firmeza. Gatito tocou na bola, mas não salvou. Era o que o Tricolor precisava para assumir de vez sua veia copeira.

renato

O Botafogo, melhor na maior parte do tempo, se perdeu totalmente depois do gol. Não conseguia colocar a bola no chão e pensar o jogo, considerando as características de seus meio-campistas. Tinha extrema dificuldade para superar a barreira montada pelo Grêmio, que sabia esfriar o jogo e gastar o tempo. As oportunidades alvinegras se limitavam às bolas alçadas, sem grande sucesso. Tanto que os tricolores estiveram bem mais próximos de marcar o segundo antes, aos 28, com outra defesaça de Gatito em cabeçada de Kannemann.

Os 15 minutos finais foram angustiantes. O Botafogo era todo ataque e Jair Ventura queimou suas três alterações colocando o time para frente. Faltavam ideias mais claras. Faltava precisão nas conclusões. Enquanto isso, o Grêmio não se sentia incomodado em rifar cada bola que se aproximava de sua área. Neste aspecto, os tricolores foram muito bem. Quando erraram, Igor Rabello cabeceou sem direção. Os gremistas poderiam até ter aproveitado melhor os contra-ataques que surgiram, mas se enroscaram com a bola. A concentração naquele momento estava em se defender até a última gota de suor. E enquanto os alvinegros apostavam nos chuveirinhos ou nos chutes longos a esmo, não houve o que ameaçasse a soberania do Grêmio. O apito final confirmou a passagem às semifinais.

O Botafogo deixa a Libertadores com uma campanha que será lembrada por um bom tempo. No entanto, insuficiente. Os alvinegros derrubaram gigantes, fizeram grandes partidas. E quando tinham o jogo decisivo a seu favor, faltou mais qualidade no ataque. Dá para reclamar um bocado da sorte, talvez pelos centímetros que vetaram o chute de Bruno Silva. De qualquer maneira, individualmente, os botafoguenses estão distantes de contar com um time brilhante, por mais que o coletivo ajude. Isso pesou nesta quarta. Despedem-se de cabeça erguida, mas um inegável gosto amargo.

O Grêmio, por sua vez, vive intensamente o seu sonho de Libertadores. Sabe que este não é o melhor momento do time, até pela lesão de Luan e pela transferência de Pedro Rocha. Mas tem um grupo que já mostrou seus predicados ao longo dos últimos meses, e de diferentes formas. Contra o Barcelona de Guayaquil, nas semifinais, os tricolores precisam da consciência e da cautela. Pegam um time que não é um primor técnico, mas que costuma jogar na base de sua potência física e dificilmente passa um jogo sem marcar gols. Renato Gaúcho necessitará se adaptar à situação. Independentemente disso, depois dos 180 minutos contra o Botafogo, os gremistas saem do confronto com seu espírito revigorado. Um espírito sedento por fazer história na Libertadores.