Há noites de Libertadores que servem para fomentar o imaginário de uma torcida. Que servem para moldar uma paixão, para construir a memória coletiva, para compartilhar o êxtase. E nem é preciso chegar à decisão para se viver isto. Estudiantes e Nacional são camisas pesadíssimas, embora combalidas pela fragilidade dos últimos anos. Nesta quinta, ambos jogavam a sua vida em La Plata, num confronto que valia a segunda colocação do Grupo 6, o mesmo do classificado Santos. A vaga estava nas mãos do Bolso, que poderia até sofrer uma derrota por um gol de diferença. Pois os pincharratas fizeram o que parecia impossível, em um clássico daqueles efervescentes. Mesmo perdendo desde os quatro minutos, os alvirrubros buscaram o milagre. Com um gol aos 44 do segundo tempo (com polêmica na arbitragem, pra variar), a virada por 3 a 1 provocou a catarse, assegurando a vaga nas oitavas de final.

O empate por 0 a 0 em Montevidéu, durante a primeira rodada, não dizia muita coisa. Mostrava dois times limitados, algo que não se alterou na sequência da campanha. O Nacional havia sido um pouco mais competente, principalmente ao derrotar o Santos no Parque Central, e estava com a classificação encaminhada. Somando três pontos a mais, precisava apenas fazer o simples para avançar. E o caminho se abriu aos quatro minutos, quando Matías Zunino abriu o placar, completando uma cobrança de escanteio na pequena área. Neste momento, os orientais assumiam a liderança, diante do empate do Santos. Poderiam ter se tranquilizado ainda mais, quando Gonzalo Bergessio quase ampliou logo na sequência, mas bateu por cima do travessão.

O Estudiantes tentou responder na sequência do primeiro tempo, mas tinha dificuldades para arrematar. Quando poderia ter empatado, Facundo Sánchez carimbou a trave. Logo depois, o goleiro Esteban Conde apareceria, com uma grande defesa, em bola na qual Diego Polenta ainda precisou afastar na pequena área. Somente no segundo tempo é que a reação começou. E a entrada de Juan Ferney Otero se mostrou determinante. Aos 15 minutos, o árbitro assinalou um toque de mão de Bergessio. Pênalti, que o próprio colombiano converteu. Já aos 23, seria a vez de Lucas Melano aparecer, ampliando a diferença para os pincharratas.

Neste momento, o Nacional ainda sustentava a vantagem sobre o Estudiantes na tabela. Os dois times somavam os mesmos nove pontos, mas com um gol de vantagem no saldo para os uruguaios. O problema é que o Bolso sentia o baque. E pagou com a expulsão de Bergessio, recebendo o segundo amarelo aos 30. Cinco minutos depois, porém, os pincharratas também ficaram com um a menos, após entrada dura do experiente Rodrigo Braña. Dez contra dez, as esperanças se mantinham. Mas quando os argentinos poderiam ter feito o tento que precisavam, já aos 37, Melano desperdiçou de frente para o gol. Por sorte, haveria tempo.

O gol da vitória do Estudiantes nasceu em meio a uma polêmica. Mariano Pavone recebeu uma enfiada de bola dentro da área, perseguido por Diego Arismendi. O centroavante sofreu um leve contato do uruguaio com o braço esquerdo, mas decidiu se jogar no chão. O árbitro foi na dele e assinalou o pênalti. Então, Otero fez a diferença mais uma vez, convertendo a segunda cobrança. Nos acréscimos, Christian Oliva se tornou o segundo expulso pelo lado uruguaio. Já ao apito final, os tricolores foram para cima da arbitragem, enquanto os alvirrubros comemoravam enlouquecidamente. Graças a um gol a mais no saldo, os argentinos passaram.

Este time do Estudiantes é sofrível. Basta ver o que aconteceu nas duas partidas contra o Santos. Ainda assim, a equipe foi capaz de se recuperar na competição e arrancar uma virada histórica. É o que nutre a devoção pela Libertadores, mesmo que o nível atual esteja muito abaixo dos quatro troféus no museu em La Plata. Ao Nacional, restará disputar a Copa Sul-Americana. A façanha estava do outro lado. E que seja uma pena ver dois gigantes lutando por migalhas, é esse tipo de grande jogo que alimenta a alma das torcidas. A emoção que perdurará entre os pincharratas.