“Vergonha, vergonha, vergonha/Time sem vergonha…” Palavras bastante conhecidas dos estádios brasileiros, com ou sem “padrão FIFA” ou “coxinhização” ou coisa que o valha, elas foram ouvidas pela primeira vez na Copa do Mundo neste domingo passado. E curiosamente, não foi para a Seleção Brasileira, mas para… a Bélgica. Isso, na partida que garantiu a classificação às oitavas de final.

BEL 1X0 RUS: Hazard salva “time sem vergonha” no Maracanã

Pois é: a atuação apenas esforçada, sem muita inspiração, no 1 a 0 contra a Rússia causou muita reclamação. Possivelmente, reclamação de quem se sentiu enganado pelo discurso altamente exagerado da “ótima geração belga”. E talvez agir de modo ranzinza com os Diabos Vermelhos, agora, seja um extremo tão exagerado quanto eram alguns elogios sobre os belgas.

Para começo de conversa, houve avanços em relação à estreia contra a Argélia. Poucos, mas houve. Por exemplo: durante boa parte do primeiro tempo, Mertens causou muitas dores de cabeça aos russos pela direita. Quase todas as jogadas de ataque belgas eram iniciadas pelo camisa 14, que aparecia mais do que De Bruyne. É cada vez mais óbvio que Mertens ganhou de Nacer Chadli a posição no ataque.

De quebra, no meio-campo, Fellaini iniciou a partida num bom ritmo. Não era decisivo como fora contra a Argélia, mas procurava o que fazer e iniciava muitas das jogadas de ataque belgas – que De Bruyne, e até Hazard, tentavam concluir, com boa vontade. Era só isso, na maioria das vezes. Mas já era melhor do que a inatividade aflitiva de Lukaku no meio da área.

Na defesa, a equipe sofreu menos do que contra a Argélia. Claro, a Rússia tentou – principalmente no segundo tempo. Mas os laterais também apresentaram avanço. Alderweireld esteve mais desinibido, e até experimentou cruzamentos para a área. Vermaelen também vinha bem, até voltar a sentir a lesão muscular sofrida no aquecimento, e precisar sair. Mas é necessário que se diga: Vertonghen, o substituto, foi mais comedido do que contra a Argélia. Não temeu os russos, concentrou-se em cumprir o seu papel… e cumpriu bem, passando discretamente.

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Só que o destaque da zaga fica visivelmente para o miolo. Kompany é pouco falado, mas tem tido bom papel nesta Copa. Contra a Rússia, nem pareceu que esteve ameaçado de não jogar, por um leve problema na virilha: com bom tempo de bola e antecipações sempre exatas, evitou que as coisas estourassem mais em Courtois (seguro sempre que acionado). E até sabe dar a chance ao colega Van Buyten, que faz Copa também razoável, ao contrário do que se supunha.

Os problemas vieram no segundo tempo. Claramente, a Bélgica cansou com o calor carioca (já eram 14h, mas o sol ainda tinha lá sua força). A Rússia também aprendeu a segurar Mertens. Fellaini e De Bruyne diminuíram o ritmo. Hazard tentava algmas coisas, mas sem brilho. E Lukaku seguia sendo a grande decepção belga na Copa.

Somente após as mudanças é que a Bélgica voltou a ter alguma rapidez. Mirallas e Origi não foram brilhantes no ataque, é preciso que se diga. Origi, algumas vezes, mais tentava cavar pênaltis do que jogar. Mas trouxeram mais rapidez e vontade de tabelar com os meio-campistas, finalizarem, trazerem o perigo que a equipe já não trazia – e que Lukaku, a bem da verdade, ainda não trouxe no torneio.

Justamente nessa hora apareceu o “time sem vergonha”. Compreensível, mas injusto. A Bélgica novamente jogava mal, é verdade. Mas demonstrava evolução em relação ao jogo contra a Argélia. Evolução que premiou justamente aquele que mais precisava reagir: Hazard, que é de quem mais se espera. Ele tentou aparecer, criou um pouco mais, ajudava De Bruyne, só que… não estava rolando. Mas quando “rolou”, na única boa jogada feita pelo camisa 10, surgiu o gol de Origi – que, de certa forma, “pagava” a aposta de Marc Wilmots no atacante de ascendência queniana, convocado para a Copa em detrimento de gente como Vossen ou Batshuayi.

Mesmo assim, o 1 a 0 não escondeu a grande decepção que se sente em relação a um time que entrega muito menos do que deveria. Sim, os Diabos Vermelhos estão jogando mal, apenas para o gasto. Aceitam muito facilmente a marcação adversária, só crescendo num e noutro lampejo de um jogador. É pouco, para quem esperava uma equipe coesa e insinuante. Talvez, era o esperado para quem não exagerasse, nem do lado dos adoradores da “ótima geração”, nem dos detratores.

Mas… ao fim e ao cabo, é preciso lembrar que a Bélgica já está classificada para as oitavas de final. E com boas perspectivas de terminar na primeira posição do grupo H. É pouco? Pois é bom lembrar que essa seleção já não atuava em um grande torneio havia 12 anos. E já está entre os 16 melhores. Podia ser melhor, mas o perigo de um vexame monstruoso (algo que sempre assombra, seja a seleção uma surpresa ou uma campeã – não é, Espanha?) já não existe mais. O que vier, já é lucro.