Pausa internacional. Hora de lamentar a ausência do futebol europeu de clubes na nossa televisão, mas também um período apropriado para refletir. Já tivemos sete rodadas na maioria das grandes ligas, o que, querendo ou não, representam quase um quinto do campeonato, e algumas equipes que entraram na temporada cheias de expectativas, por reforços ou pela continuidade do trabalho, decepcionam. Selecionamos três – Everton, Bayern de Munique e Milan – para aprofundar um pouco essas campanhas abaixo do esperado.

Everton
Ronald Koeman, técnico do Everton (Foto: Getty Images)

Ronald Koeman, técnico do Everton (Foto: Getty Images)

O Everton nunca gastou tanto dinheiro antes de uma temporada, e os resultados, até aqui, são muito desproporcionais ao investimento. Após sete rodadas, dois pontos separam-no da zona de rebaixamento. São apenas duas vitórias – Stoke City e Bournemouth – um empate, e quatro derrotas. E a campanha europeia não está muito melhor: vitórias magras sobre o Ruzomberok, da Eslováquia, na fase preliminar da Liga Europa, uma pesada derrota para a Atalanta, por 3 a 0, e um empate por 2 a 2 contra o Apollon, do Chipre.

No total, são apenas duas vitórias nos últimos dez jogos, que incluem o empate por 1 a 1 com o Manchester City, que teve gostinho de derrota. Com 1 a 0 de vantagem e um jogador a mais durante todo o segundo tempo, o Everton não só levou o empate da equipe de Pep Guardiola, como ficou muito próximo de sofrer a virada. A decepção aprofunda-se porque esta deveria ser uma temporada para os Toffees, com acesso aos bolsos do seu novo dono, darem um salto de patamar depois do sétimo lugar na última Premier League.

O diagnóstico do técnico Ronald Koeman, obviamente sob pressão por causa dos maus resultados, é falta de confiança, como ele declarou depois do empate contra os cipriotas – que foi seguido por uma derrota, em casa, para o Burnley. “Eu não posso dizer que eles não estão correndo ou lutando, mas estão com medo de jogar. Está na cabeça dos jogadores. Como treinador, você pode ajudar o time e escolher o time, mas, quando o árbitro apita, não é você que passa a bola”, disse. Michael Keane, uma das contratações do mercado, corrobora essa análise. “Há muitos bons jogadores aqui, mas você consegue confiança vencendo jogos e, especialmente nas últimas semanas, não temos vencido muitos”, disse.

Talvez a principal falha de Koeman tenha sido na montagem do elenco. O Everton apoiava-se muito na capacidade de Lukaku marcar gols: foram 25 na última temporada. O belga foi vendido para o Manchester United e a única reposição para o setor foi Sandro Ramírez. Além de Rooney, que não é o mais goleador dos atacantes e prefere atuar como meio-atacante mais centralizado. Assim como Sigurdsson e Klaassen, outros reforços importantes da última janela. “No fim do dia, nós dois gostamos de jogar mais centralizados”, disse Sigurdsson, segundo o The Times, em referência a Rooney. Ou seja, mesmo gastando quase € 160 milhões, ainda falta um artilheiro para suprir a saída de Lukaku e sobram jogadores para uma mesma faixa de campo.

O principal acionista do Everton, Farhad Moshiri, foi a público oferecer o seu “total apoio” a Koeman, o que tem o costume de ser um mau presságio para o treinador. O que mais preocupou, porém, foram os argumentos do dirigente, que classificou a derrota para o Burnley como a “única inesperada”. É verdade que o começo da tabela era bastante difícil: Manchester City, Manchester United e Chelsea, fora de casa, além do Tottenham, no Goodison Park. Mas que ambição ele demonstra ao dizer que esperava perder essas partidas? Se a ideia é pular do segundo pelotão para o primeiro, e brigar por vaga na Champions League, o Everton precisa ser capaz de enfrentar esses times. Mesmo que perca, precisa querer vencer, precisa pelo menos fazer jogo duro, e não foi isso que se viu: levou 2 a 0 do Chelsea, 3 a 0 do Tottenham e 4 a 0 do Manchester United, além do já citado empate contra o City, com um homem a mais.

Pressionado, Koeman não tem muito tempo para encontrar as respostas. Depois da pausa para partidas internacionais, o Everton encara o Brighton, fora de casa, recebe o Arsenal e viaja para enfrentar o sempre difícil Leicester, no King Power Stadium. Uma sequência que pode muito bem terminar com o clube dentro da zona de rebaixamento, o que certamente ninguém esperava antes do início da temporada.

Bayern de Munique
Robben, do Bayern de Munique (Foto: Getty Images)

Robben, do Bayern de Munique (Foto: Getty Images)

O Bayern de Munique demitiu um treinador pela primeira vez desde 2011. Naquela ocasião, Van Gaal foi encorajado a pegar o boné já em abril e sairia ao fim da temporada de qualquer maneira. A última queda de técnico, no começo da campanha, como essa de Carlo Ancelotti, foi a de Jürgen Klinsmann, em 2009, o que só mostra como o clube bávaro, depois de muitos anos de relativa tranquilidade, de repente está à deriva.

Os relatos da Alemanha indicam que alguns dos principais jogadores do elenco não estavam satisfeitos com os métodos do italiano, mal acostumados por sessões de treinamento detalhadas e diferentes que eram ministradas pelo antecessor Pep Guardiola. Segundo a Kicker, chegaram ao ponto de organizar treinos secretos, sem o conhecimento da comissão técnica. O presidente do Bayern, Uli Hoeness, disse que havia cinco atletas contra Ancelotti, no elenco. A Kicker publicou que Robben teria dito que “meu filho recebe treinamentos melhores”, mas o jogador holandês negou essa declaração.

Parece um pouco injusto colocar todos os problemas do Bayern de Munique nas costas de Ancelotti. Pouco tempo atrás, o italiano era campeão europeu com o Real Madrid passando o trator em cima dos bávaros nas semifinais. O futebol evolui rápido, mas tão rápido a ponto de tornar um excelente profissional ultrapassado em três anos? Para não dizer que, na última temporada, com Ancelotti, o Bayern foi campeão alemão pela quinta vez seguida, com 15 pontos de vantagem para o segundo colocado.

O elenco, porém, sofreu baixas importantes. Philipp Lahm e Xabi Alonso aposentaram-se. Eram líderes de vestiário: o ex-lateral direito estava há mais de 15 anos no clube, e o espanhol havia sido campeão com Ancelotti no Real Madrid. Além dos gargalos técnicos e de liderança que foram criados, o italiano perdeu dois jogadores influentes que poderiam ajudá-lo a reconquistar o vestiário, o que muitas vezes é tido como uma das suas principais qualidades como treinador.

O cheirinho que emana do Bayern de Munique é de fim de ciclo. Abaixo de 25 anos, temos algumas peças cruciais, como David Alaba e Joshua Kimmich, mas outros que ainda precisam se firmar, como o recém-chegado Tolisso, mais cara contratação da história do clube, Niklas Süle e Kingsley Coman. No entanto, a maioria dos principais jogadores já está na segunda metade da carreira: Müller, Hummels, Boateng, Javi Martínez, Lewandowski, Vidal, Neuer, Robben e Ribéry, todos tem mais de 28 anos – e esses últimos dois, os melhores do time, convivem frequentemente com lesões.

Willy Sagnol assumiu o comando técnico interinamente, enquanto se fala de Luis Enrique ou Thomas Tuchel. Essa é uma decisão importante para o futuro do clube, naturalmente, mas a principal é como tocar uma renovação profunda do elenco, sem deixar escapar a hegemonia no âmbito doméstico e a competitividade no futebol europeu.

Milan
Vincenzo Montella, técnico do Milan (Foto: Getty Images)

Vincenzo Montella, técnico do Milan (Foto: Getty Images)

Desde 2011, o único troféu que o Milan conquistou foi uma Supercopa da Itália, título de menor importância. A mera participação na Champions League parece um sonho distante, e até jogar a Liga Europa não é uma certeza. A última temporada foi razoável: esboçou uma briga pelas primeiras três posições, acabou em sexto e venceu a Juventus na Supercopa. Vincenzo Montella recebeu dos novos donos chineses, que finalmente concluíram a transação para comprar o clube das mãos de Silvio Berlusconi, uma série de novos e interessantes jogadores.

Os cofres foram defasados em quase € 200 milhões, com mais € 46 milhões de compromissos para os anos posteriores, com destaque para as chegadas de Leonardo Bonucci, Franck Kessié, André Silva, Hakan Calhanoglu, Ricardo Rodríguez e Lucas Biglia. Algumas promessas, alguns jogadores experientes, alguns muito interessantes. Há um compreensível período de adaptação para um elenco que passa por uma quase revolução. Mas o desempenho anda deixando a desejar.

O começo até foi promissor. As fases preliminares da Liga Europa ficaram para trás sem grandes sustos, e o Milan venceu as duas primeiras rodadas da Serie A. Mas a goleada sofrida para a Lazio foi um baque duro, especialmente pela maneira como ela ocorreu. Foi o primeiro grande teste do novo time, que levou quatro gols entre os 38 minutos do primeiro tempo e os quatro do segundo. Após triunfos magros sobre Udinese e Spal, vieram duas derrotas seguidas para Sampdoria e Roma. O líder Napoli já está a nove pontos.

A defesa tem sido um problema. O Milan sofreu gols em cinco das sete rodadas e, com dez, tem a segunda pior defesa da metade de cima da tabela. Bonucci, o principal reforço do setor e um dos melhores zagueiros do mundo, foi facilmente batido em muitos deles, ainda precisando se adaptar a um sistema defensivo menos protegido do que o que ele tinha na Juventus.

Montella já usou duas formações: com dois zagueiros e um trio de ataque – Suso, Borini e o jovem Cutrone – até a goleada para a Lazio; desde então, colocou um trio na defesa, outro no meio-campo, liberando os laterais e com uma dupla na frente, com Kalinic ao lado de Suso ou de André Silva. Ainda não embalou.

O jovem treinador rossonero não faz um trabalho ruim na frente do Milan – a temporada passada foi a melhor em alguns anos -, mas sofre com a pressão por resultados imediatos, geralmente inerente a grandes investimentos. Não ajuda a sombra de Carlo Ancelotti, repentinamente disponível no mercado depois de ser demitido do Bayern de Munique. Não tem muito tempo para melhorar.