O torcedor português que não esteve atento ao noticiário dos últimos dias poderá levar um susto ao ligar a TV para assistir à final da Taça de Portugal, neste domingo (18), entre Benfica e Rio Ave. Isso porque a RTP, que detém os direitos de transmissão do torneio, anunciou que mostrará os primeiros minutos do jogo em preto e branco.

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A “volta ao passado” na telinha é uma homenagem aos 75 anos de existência da segunda competição mais importante do futebol português. Por extensão, homenageará também o centenário da Federação Portuguesa de Futebol, que é quem promove a competição (ao contrário do campeonato nacional, organizada pela Liga de Clubes).

A transmissão em preto e branco é um dos ingredientes da festa preparada no mítico Estádio Nacional, o Jamor, para a decisão. A começar pelo próprio palco do jogo, que é utilizado poucas vezes por ano – uma delas, sempre na final da Taça de Portugal. Além das arquibancadas lotadas e do clima de nostalgia causado pelo próprio estádio, ainda haverá as cerimônias de praxe e uma homenagem ao ex-jogador Fábio Faria, que defendeu tanto o Benfica quanto o Rio Ave e teve de encerrar a carreira aos 23 anos de idade, em 2013, por conta de problemas cardíacos.

Mas quando o árbitro Carlos Xistra apitar o início da partida, tudo o que compõe o entorno do jogo terá de ser esquecido pelas equipes. Mais do que um clichê, isso é uma enorme realidade para os dois times, que precisam muito levar o troféu para casa, por razões distintas.

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O Benfica ainda se redime da perda do título da Liga Europa para o Sevilla, na decisão por pênaltis. Vice-campeão pela segunda temporada consecutiva (ano passado havia perdido para o Chelsea), o time saiu da competição invicto e, pode-se dizer, de cabeça erguida. Tanto que algumas centenas de torcedores foram ao estádio da Luz para aguardar a chegada da delegação e entoar cânticos de apoio ao time.

Mas o turbilhão de emoções não é algo fácil de se administrar e as águias estão no meio dele. Basta ver como foi o calendário benfiquista no último mês, a começar em 20 de abril, quando derrotou o Olhanense por 2 a 0, conquistou seu 33º título português e provocou uma festa gigantesca em Lisboa. Quatro dias depois, os encarnados já recebiam a Juventus para o primeiro jogo da semifinal da Liga Europa, que terminou com a vitória benfiquista por 2 a 1. Depois, vieram a classificação nos pênaltis, contra o Porto, para a final da Taça da Liga; a partida épica em Turim (quando segurou o 0 a 0 com a Juventus e se garantiu na decisão da Liga Europa); o título da Taça da Liga (curiosamente, contra o mesmo Rio Ave) e o citado vice da LE.

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Tamanha maratona não deixa apenas marcas psicológicas, mas também físicas. O meio-campista Sulejmani, por exemplo, precisou ser substituído na partida contra o Sevilla por causa de um problema no ombro e terá de ser operado. O desgaste físico do elenco é evidente, ainda mais depois de disputar o jogo decisivo da Liga Europa com intensidade até o final da prorrogação.

Por sua vez, o Rio Ave certamente pensa em se aproveitar dos problemas físicos do adversário. Sem qualquer desfalque e com a situação definida no Campeonato Português há muito tempo (ficou em 11º lugar, sem grandes aspirações, mas também sem correr risco de rebaixamento), o time teve tempo de se preparar para esta final.

Mas uma eventual conquista da Liga Europa pelo Benfica talvez tivesse sido melhor para os vila-condenses. Se não parasse nas mãos – e nas adiantadas – do goleiro Beto na decisão por pênaltis, a equipe encarnada novamente provocaria uma enorme festa, o que causaria ainda mais desgaste físico e, principalmente, um inevitável relaxamento

Ocorre que, com a perda do troféu continental, o discurso benfiquista passou a ser aquele do “nada como um novo amor para superar a perda do antigo”. Ou seja: custe o que custar, o time quer conquistar a Taça de Portugal (feito que não consegue há dez anos) para ao menos amenizar a dor pelo revés em Turim.

Curiosamente, o “aquecimento” para a final deste domingo ocorreu na decisão da Taça da Liga, vencida pelo Benfica por 2 a 0, com gols de Rodrigo e Luisão. Apesar da vitória, os encarnados perceberam naquele dia que o adversário não é tão simples como pode parecer. E os vila-condenses saíram de campo com a sensação de que dá para fazer mais e brigar pelo título da Taça de Portugal.

Há ainda a inevitável piada da briga de Jesus com o Espírito Santo. Mas, brincadeiras à parte, Jorge Jesus e Nuno Espírito Santo, os respectivos técnicos de Benfica e Rio Ave, estão na lista dos melhores treinadores da temporada e têm a capacidade de proporcionar um grande duelo tático no domingo. Não à toa, as diretorias dos dois clubes já trabalham com a hipótese de substituí-los, já que ambos são cotados para voos maiores na próxima temporada.

Para o Rio Ave, conquistar o troféu agora seria preencher a sua galeria com a primeira conquista importante em nível nacional – o time tem dois títulos da segunda divisão. Para o Benfica, é a chance de diminuir a dor pela perda da Liga Europa e, fechar a temporada com o terceiro título, algo muito digno de elogios e comemorações.