Decisão de Zidane de sair do Real Madrid surpreende, mas faz sentido

O anúncio de uma coletiva de imprensa na manhã desta quinta-feira surpreendeu. Zinedine Zidane anunciou a sua saída do Real Madrid, ao lado do presidente Florentino Pérez, em uma situação que parece ter pegado o dirigente de calças curtas. O treinador sai por cima, com a conquista de três Champions League consecutivas, um feito muito difícil de repetir. Ainda deixou a marca de uma liga também. A pergunta que fica é: qual será o destino do treinador e do clube?

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Zidane anunciou a decisão a Florentino Pérez na noite de quarta-feira. A comissão técnica só ficou sabendo uma hora antes do anúncio oficial. Os jogadores receberam uma mensagem com a notícia, exceto Sergio Ramos, a quem Zidane quis comunicar pessoalmente e explicou as razões de colocar fim a um ciclo vitorioso. O camisa 4 do Real Madrid é o capitão desde a chegada de Zidane ao cargo.

“Tomei a decisão de não continuar no próximo ano”, afirmou Zidane, em um comunicado rápido. “É o momento para todos, para mim, para o clube e para o elenco. Sei que é raro, mas tenho que fazer isso. A equipe precisa continuar ganhando e para isso precisa de uma mudança”. Com a calma nas palavras que o caracteriza nas suas entrevistas, Zidane explicou com bastante clareza o que pensa. “Sou ganhador, não gosto de perder. E se eu tenho a sensação que não vou ganhar, é preciso fazer uma mudança. Como jogador, quando vi que não estava ganhando, era eu que dizia: ‘Eu vou sair’. Se não vejo claramente que vamos continuar ganhando e não vejo as coisas claras, como eu quero, é melhor não continuar e não fazer bobagens”.

Um dos grandes trunfos de Zidane nesse time do Real Madrid é a administração do elenco, recheado de estrelas e com gente graúda no banco de reservas. O que vinha se perdendo nos últimos tempos, o que se tornou mais claro com Gareth Bale, que deixou a final da Champions League contra o Liverpool com dois gols e o discurso que quer jogar toda semana, ser titular. Cristiano Ronaldo deixou clara uma insatisfação, embora ainda não saibamos exatamente com o que, ao dizer que FOI muito bonito jogar no Real Madrid, assim mesmo, no passado, e deixando no ar alguma mudança. Tudo isso certamente tem um peso.

“Depois de três anos, o elenco precisa de outro discurso, outra metodologia de trabalho e por isso tomei esta decisão. Gosto muito desse clube, mas é preciso mudar”, disse ainda Zidane. Um discurso que condiz com o que vimos em campo: o Real Madrid desta temporada sofreu no Campeonato Espanhol, longe de acompanhar o ritmo forte do Barcelona e mesmo do Atlético de Madrid, que foi o único a tentar se aproximar minimamente do clube da Catalunha em uma disputa de título que mal pode ser chamada assim, dada a superioridade do time de Lionel Messi na liga. Na Champions League, o time reagiu muito bem nos jogos eliminatórios com uma força mental impressionante.

“É preciso saber quando parar. Eu faço isso pelo bem desta equipe. Comigo seria complicado ganhar no ano que vem. Nós vimos isso, foi complicado este ano na liga, momentos que não esqueço. Se isto se trata de viver outra temporada e que acabe mal, eu não quero. Quero que acabe bem esta etapa no Real Madrid”, afirmou ainda um ponderado Zidane. Questionado se a decisão era por divergências da próxima temporada, o francês negou. “O cargo de treinador tem essa parte, nós já vivemos dois verões, o das contratações, o que seria feito com o elenco. Não é por isso a decisão. Se você gosta de ser treinador, esta é uma parte importante do teu cargo”.

Zidane é um personagem histórico no Real Madrid também como jogador e ele lembrou disso. Afirmou que a sua melhor lembrança foi em 2000, quando Florentino Pérez foi busca-lo na Juventus. Como técnico, ele surpreendeu na resposta. O melhor momento, na opinião de Zidane, foi a conquista da liga espanhola. “Foi o máximo”, afirmou, rindo. Mas houve momentos ruins e ele lembra da eliminação diante do Leganés, na Copa do Rei, em pleno Santiago Bernabéu. “Há momentos duros e momentos muito bonitos, acabamos com um espetacular. Mas há outros complicados e isso te fazer refletir”, contou o treinador.

Perguntado se outro resultado na final da Champions League mudaria a sua decisão, ele deixou no ar. “Não sei. Pode ser que se tivéssemos perdido… Pode ser”, disse Zidane. O técnico sabe que sem ganhar a Champions League, talvez o próprio Florentino Pérez considerasse essa decisão, dado que o time não conseguiu ser competitivo em outras competições e isso é sempre um peso grande em um clube do gigantismo do Real Madrid.

“Tenho um carinho especial por esta torcida e eu quero lhes agradecer mais uma vez por seu apoio. Pode ser que não entendam a decisão e que muitos acreditem que a decisão não tem sentido. Mas para mim, é o momento de mudar”, declarou o agora ex-técnico do Real Madrid. Ele deixa o Real Madrid, mas não é algo para sempre. “Isto é um até logo”, afirmou. “O Real Madrid me deu tudo e estarei perto do clube toda a minha vida. Não tem que ser um dia triste. Claro que não é bonito, é complicado, mas é um até logo. Minha relação não vai mudar”.

Foram 887 dias, nove títulos e uma linda história escrita. Um início de carreira fantástico de um técnico que foi um gênio em campo. A pergunta que fica agora é qual será o destino de cada um dos dois. Para onde pode ir Zidane? O técnico tem uma relação importante com a Juventus, adversária nesta Champions League, mas o clube italiano tem um técnico por lá que não parece que deixará o cargo tão cedo, o vencedor Massimiliano Allegri.

O Paris Saint-Germain, por exemplo, seria um candidato natural a ter o ídolo francês, mas já escolheu o alemão Thomas Tuchel. Talvez, então, um retorno à sua cidade natal? O Olympique de Marseille tem Rudi Garcia como técnico e terminou a Ligue 1 em quarto lugar, fora da Champions League e depois de perder a final da Liga Europa para o Atlético de Madrid. A seleção francesa é certamente um trabalho que atrairia o ídolo, campeão do mundo em 1998 e da Eurocopa em 2000. Poderia tentar repetir o sucesso de fazer um time coletivo e mentalmente forte na França, algo que o atual técnico Didier Deschamps ainda não conseguiu. Um mau resultado dos Bleus na Copa poderia tornar a situação de Deschamps difícil de ser mantida e a pedida por Zidane muito forte. Difícil saber o que é possível. Talvez até possa tirar um ano sabático, como outros técnicos já fizeram. Será preciso esperar para ver.

O Real Madrid, por sua vez, precisará encontrar uma solução rapidamente. Sem Zidane, quem poderia levar o time ao próximo nível? Isso é crucial para também determinar as mudanças no elenco. O nome mais especulado no momento é o argentino Mauricio Pochettino, do Tottenham, que lidera as apostas. Mas há outros nomes, como Guti, técnico das categorias de base, como era Zidane. Outro nome falado, pensando em manter a linha madridista, é Santiago Solari, outro ex-jogador do clube, atualmente técnico do Real Madrid Castilla, o time B dos merengues. Aos 41 anos, seria uma aposta no mesmo modelo que levou Zidane ao cargo.

Seja quem for o técnico, o Real Madrid precisa acertar alguns rumos. Talvez seja preciso mais um zagueiro, já que Raphäel Varane e Sergio Ramos são titulares indiscutíveis, mas a reserva tem Nacho e Jesus Vallejo. Enquanto o primeiro foi muito bem quando acionado, o segundo ainda não pareceu pronto. Há também a situação de Bale e Cristiano. O novo técnico, se quiser contar com ambos, precisará convencê-los que serão importantes. Decisões importantes que o técnico terá que tomar. Dirigir um elenco como o do Real Madrid, ainda mais depois de três títulos de Champions League, é um desafio monstruoso.

Há outro ponto que o novo técnico precisa lidar: as ânsias de contratações do Real Madrid. Porque mais do que mexer no elenco, tecnicamente, contratar no Real Madrid é uma ferramenta de marketing, é uma forma de ganhar ainda mais mídia, de demonstração de força. Quando se fala em Neymar, a contratação é mais do que trazer um craque de nível mundial, é também virar manchete no mundo todo, ganhar mais força de patrocínios que o brasileiro pode trazer. Como foi antes também, com James Rodríguez, por exemplo, que veio após a Copa do Mundo, ou mesmo Toni Kroos, que chegou na mesma época.

Zidane deixa o Real Madrid como um técnico de elite, um dos melhores da Europa. O Real Madrid é um dos melhores times da Europa, campeão três vezes e é também, por isso, um cargo muito atraente e de muita pressão também. Quais os caminhos para os dois a partir de agora?