Kenny Dalglish foi criticado pelos jogadores que contratou na sua segunda passagem pelo Liverpool. Com exceção de Luis Suárez, um sucesso estrondoso, o resto da lista não deu certo. Dalglish achava que os Reds precisavam de mais sangue britânico. Abriu a carteira para comprar Andy Carroll, Stewart Downing, Charlie Adam e trouxe Craig Bellamy de volta. Nessa mesma linha de reforços, veio um meia do Sunderland, que atuava aberto pelo lado direito e, segundo Alex Ferguson, não sabia correr direito. Sete anos depois, Jordan Henderson usou a braçadeira de capitão na vitória por 5 a 2 sobre a Roma, em uma das noites europeias mais memoráveis de Anfield. 

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Não foi fácil para Henderson dar a volta por cima em Liverpool. Um ano depois de chegar, o técnico Brendan Rodgers queria mandá-lo para o Fulham, na negociação que levaria Clint Dempsey para Anfield. Henderson bateu o pé para ficar. Foi mais reserva naquela temporada, a primeira de Rodgers nos Reds, antes de se firmar como titular no vice-campeonato de 2013/14. Fez 35 partidas na campanha, sempre atuando 90 minutos. Só perdeu três rodadas na reta final, duas por suspensão, por ter sido expulso contra o Manchester City. 

Havia conseguido superar parte das desconfianças iniciais, confundido com as outras contratações fracassadas de Dalglish, quando precisou assumir uma grande responsabilidade. Recebeu a braçadeira de capitão, após a saída de Steven Gerrard, e as comparações com o eterno ídolo do Liverpool aumentaram. Também era meia, também era inglês, com um biotipo parecido. Mas Henderson nunca poderia igualar Gerrard. Não é tão bom e, principalmente, não era um garoto nascido e criado na cidade. 

As comparações com Gerrard talvez prejudiquem o reconhecimento da importância de Henderson para o Liverpool. Ainda há críticos e incrédulos. Sua liderança é mais discreta. Aceitou confortavelmente o papel de coadjuvante, tanto no time de Rodgers que quase conquistou a Inglaterra, quanto no projeto de Klopp, que faz renascer a chama de um clube gigante. Apesar de não inspirar a mesma identificação do seu antecessor, faz de tudo para ser um capitão digno do Liverpool. 

O seu discurso antes do jogo contra a Roma, nesta terça-feira, foi perfeito, tocando na importância do clube para a cidade e aceitando o fardo de uma história das mais ricas do futebol europeu. “O desejo de jogar e fazer o melhor pelo Liverpool nunca pode ser diminuído. Você está jogando pelas pessoas da cidade e, quando tem essa honra, também tem a responsabilidade que vem com ela”, disse. “Posso assegurar que esse senso de responsabilidade estará conosco. Devemos isso para todos: aos torcedores que nos apoiam com intensidade que vai muito além do senso de dever, às lendas do passado que fizeram do clube o que ele é, e principalmente a nós mesmos. Eu sei que a história muitas vezes pode ser um fardo, mas o que essas lendas conquistaram é uma inspiração para nós”. 

Esse senso de responsabilidade esteve presente em Anfield. Henderson foi uma rocha no meio-campo, setor que, pelo Liverpool não ser um time que controla a posse de bola e sempre faz transições rápidas, muitas vezes não aparece em destaque. Roubou três bolas, uma delas de Dzeko, no início da jogada do primeiro gol do seu time, o que abriu a porteira para os quatro seguintes. Resultado da pressão intensa e incessante que Klopp perde dos seus jogadores e que Henderson executa com maestria. 

Por lesão, Henderson não jogou tanto quanto poderia nesta temporada, mas está em forma para a reta final que pode, enfim, colocá-lo definitivamente no hall de ídolos do Liverpool. Caso a última imagem da campanha seja ele levantando a taça da Champions League, todos os críticos serão convertidos. E isso quem está falando é justamente o homem com quem ele é injustamente comparado. 

“Ele divide opiniões entre alguns torcedores, mas não para mim”, disse Gerrard, na BT Sport, antes da partida contra a Roma. “Eu joguei com Jordan, eu sei o que ele pode fazer. É um garoto humilde, muito altruísta, trabalha sem parar. Ele é um jogador talhado para o estilo do Klopp: aquela energia, aquela pressão, recuperando a bola. E acredito que este time do Liverpool é mais forte com ele. Acho que ele precisa de um momento, daquele troféu que o fará cruzar a linha e fazer com que aqueles torcedores que talvez estejam ao seu lado fiquem definitivamente ao seu lado. Se ele entregar a Champions League, será uma lenda para sempre”.