A seleção panamenha é composta por decanos. A base do elenco que assegurou a insana classificação à Copa do Mundo de 2018 está recheada de trintões. Blas Pérez, Luis Tejada, Román Torres e outros veteranos que se consolidaram com a equipe nacional, embora não tenham brilhado tanto assim por seus clubes. A trajetória de cada um, no geral, é modesta. Acaba limitada a momentos de brilho em algumas das principais ligas nacionais das Américas, na Libertadores ou na Concachampions, mas nada além disso. A seleção acaba sendo a porta de entrada para que sejam conhecidos e lembrados em diversas partes do mundo.

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O caminho da atual geração panamenha, de qualquer maneira, foi desbravado por uma série de pioneiros. Jogadores que não necessariamente conseguiram desequilibrar com a camisa da Marea Roja, mas elevaram o status do país além das fronteiras. Que serviram de inspiração aos atuais atletas, muitos deles fãs dos antecessores. Abaixo, contamos as histórias de Cascarita Tapia, Rommel Fernández e dos irmãos Dely Valdés – com ênfase a Júlio César, o mais bem-sucedido dos três. Se o histórico do Panamá é incipiente, estreando nas Eliminatórias em 1976 e se firmando entre as principais seleções da Concacaf apenas na última década, o papel destes caras é essencial para entender as etapas da evolução do futebol local.

Cascarita Tapia, o homem que desbravou fronteiras

Em tempos ancestrais do futebol panamenho, triunfar nas ligas dos países vizinhos na América Central, donos de clubes mais tradicionais e representativos, já era mais do que suficiente para se construir a imagem de um ídolo. E assim Luis Ernesto Tapia se eternizou. O Cascarita não teve a chance de cruzar o Atlântico para atuar em um clube da Europa, mas pavimentou sua reputação na própria Concacaf. Mais do que isso, liderou a seleção em tempos nos quais o Panamá engatinhava no cenário internacional. Teve a honra de anotar o primeiro gol da história do país em Eliminatórias. Uma trajetória que chegará ao seu ápice em 2018.

Cascarita nasceu no subúrbio da Cidade do Panamá. Acompanhava o tio, apelidado de Cáscara, em diferentes partidas. Assim, ganhou não apenas a alcunha para o resto da vida, como também alimentou a paixão pelo futebol. Iniciou sua trajetória defendendo as categorias de base do León Cocoliso Tejada, futuro Plaza Amador, enquanto também se dedicava ao beisebol. A partir dos 15 anos, a prioridade do fã de Pelé se tornou apenas uma, passando a defender a equipe principal da Politécnica de El Granillo. Encantava pelas jogadas em velocidade, pelos dribles, pela capacidade com as duas pernas e pelos muitos gols. Era um atacante completo.

Liderando a Politécnica ao acesso, sempre como artilheiro, Cascarita ganhou a primeira oportunidade na seleção quando tinha apenas 17 anos. Já aos 18, fez parte do elenco que disputou a Copa Centroamericana em El Salvador. O Panamá teve um desempenho honroso, sofrendo apenas uma derrota. E aquele garoto imberbe recebeu os aplausos pelo talento que exibia. Entre os torcedores nas arquibancadas, estava um alto funcionário do governo panamenho em San Salvador, que convenceu o atacante a permanecer por lá. Arranjou um teste no Alianza, um dos principais clubes locais. Passaria dois meses treinando com os salvadorenhos. Mas bastou uma semana para que todos se rendessem.

A partir de 1964, Cascarita se firmou no Alianza. Era a referência no time conhecido por ‘Orquestra Alba’, pelo jogo vistoso que exibia. E a qualidade das exibições rendeu o período mais glorioso dos Elefantes Blancos. Treinados pelo chileno Hernán Carrasco Vivanco, os salvadorenhos conquistaram seus dois primeiros títulos nacionais em 1966 e 1967. Além disso, também faturaram a Copa dos Campeões da Concacaf, em sua terceira edição. Pela primeira vez, levavam a taça para El Salvador. Depois de eliminar os rivais de Nicarágua, Honduras e Guatemala na fase de classificação, o Alianza enfrentou os antilhanos do Jong Colombia na decisão. Após uma vitória para cada lado, o título acabaria definido em um jogo-desempate. Atuação mágica de Cascarita, autor de dois gols na vitória por 5 a 3.

Neste momento, o moral do jovem atacante era imenso. Artilheiro campeonato atrás de campeonato, o camisa 9 chegou a ser chamado de “Pelé da América Central” pelos jornais locais. Eram anos áureos para o futebol salvadorenho, que se classificou à Copa do Mundo de 1970 e atraía alguns dos principais jogadores da região, arrebatando uma torcida sedenta por qualidade. E os amistosos contra clubes tradicionais de outros países se tornaram praxe ao Alianza. Nesta época, os Elefantes Blancos derrotaram o América do México e Flamengo, além de empatarem com o poderoso Peñarol. Os uruguaios chegaram mesmo a fazer uma oferta por Cascarita, mas a relutância do Alianza em liberar seu astro impediu o negócio.

As melhores lembranças, de qualquer forma, se concentram nos embates contra o Santos. Contra o insubstituível Santos de Pelé. Em janeiro de 1966, diante de 45 mil torcedores no Estádio Nacional de la Flor Blanca, o Alianza derrotou o Peixe por 2 a 1. Cascarita não esteve em campo naquela ocasião histórica, na qual os Elefantes Blancos superaram o timaço de Pelé, Pepe, Coutinho, Mauro, Carlos Alberto, Gilmar e outras lendas. Sua chance viria apenas cinco anos depois, em janeiro de 1971, quando os santistas voltaram a excursionar pela América Central. O ídolo panamenho pôde duelar com o Rei em sua terra, reforçando o Atlético Marte durante amistoso disputado na Cidade do Panamá. O empate por 1 a 1 já valeu a honra dos salvadorenhos.

Durante a década de 1970, já fora do Alianza, Cascarita Tapia continuou rodando por outras equipes de El Salvador, até retornar ao Panamá. Seus momentos mais importantes, de qualquer forma, vieram com a seleção panamenha. Extraoficialmente, o atacante soma 77 partidas pela equipe nacional, embora boa parte delas tenha acontecido em amistoso. Mas o tento mais importante da carreira do ídolo está registrado pela Fifa. A seleção panamenha participou pela primeira vez das Eliminatórias rumo à Copa de 1978. E coube ao veterano, já com 32 anos, anotar o primeiro gol na estreia do país, vencendo a Costa Rica por 3 a 2. Aquele foi o único triunfo da equipe, que cairia na fase classificatória.

Cascarita ainda defenderia a seleção até 1979, quando sua carreira já entrava no ocaso. Aposentou-se e, em tempos nos quais os seus compatriotas rompiam mais fronteiras, seguiu aclamado como um pioneiro, especialmente pela inédita conquista continental. Já a maior homenagem veio em 2010, com o batismo do centro de treinamentos anexo ao Estádio Nacional do Panamá, onde a seleção costuma realizar suas atividades. Aos 73 anos, Luis Ernesto Tapia vê seu nome honrado pela atual geração de la Marea Roja.

Rommel Fernández, a primeira grande estrela na Europa

Se o nome de Rommel Fernández parece familiar a você, há uma boa razão: ele foi citado várias vezes ao longo das últimas semanas. E não necessariamente fazendo referência ao jogador. O antigo Estádio de la Revolución, onde o Panamá conquistou a vitória histórica sobre a Costa Rica, homenageia o ex-atacante desde 1993. Naquele ano, o ídolo nacional faleceu em um acidente automobilístico na Espanha. Fernández voltava de um almoço com o elenco do Albacete, quando, por causa de outro veículo na contramão, perdeu o controle de sua Toyota Celica e a bateu contra uma árvore. O panamenho sofreu um traumatismo cranioencefálico e faleceu a caminho do hospital. Deixou milhares de torcedores órfãos, em seu país natal e naquele que adotou em sua carreira.

Rommel Fernández foi o primeiro jogador do Panamá a se firmar em uma grande liga europeia. Entretanto, não havia sido o primeiro no continente, com o pioneirismo a encargo de Roberto Corbin. Descrito como um armador elegante, o meio-campista chegou à Suíça em 1979. Indicado pelo treinador peruano Luis Bidú, se juntou ao Estrella Española, da segunda divisão. Permaneceu por cinco anos no país, com destaque para a sua passagem pelo Urania, com o qual conquistou a terceira divisão local. Voltaria ao Panamá em 1985, encerrando a carreira no Tauro, principal clube do Panamá. Justamente o momento em que Rommel começava a despontar com a camisa do Alianza.

Nascido em El Chorillo, região reconhecida como uma das mais violentas da Cidade do Panamá, Rommel Fernández despontou cedo para o futebol. Pegou gosto quando pelo esporte ainda na infância, se encantando com os jogos no campo de terra que ficava em frente à sua casa. Defendeu Plaza Amador e Atlético Panamá durante sua formação, antes de chegar ao nível principal com o Alianza. Estreou na primeira divisão aos 17 anos. O sucesso do jovem centroavante era tamanho que em 1986, aos 20 anos, ele passou a ser convocado à seleção panamenha. E ganhou a oportunidade de ouro em sua vida durante uma viagem à Espanha. A cidade de Tenerife realizava o Mundialito da Emigração, para celebrar os “oriundos”. E o impacto prodígio foi tamanho que ele acabou atraindo o interesse do Tenerife, então na terceira divisão do Campeonato Espanhol.

Durante seus primeiros meses nas Ilhas Canárias, Rommel Fernández defendeu a filial do Tenerife. Mas logo chegaria ao time titular. Em 1988-89, o centroavante liderou os blanquiazules na segunda divisão. Acumulou 17 gols naquela campanha, dois deles contra o Betis nos playoffs de acesso, garantindo o retorno de seu clube à primeira divisão após três décadas. Tornaria-se ídolo absoluto no Estádio Heliodoro Rodríguez López.

Em equipe que contava com o brasileiro Guina (artilheiro do Mundial Sub-20 de 1977, ex-Vasco), Manolo Hierro (irmão mais velho de Fernando) e Albert Ferrer (antes de se transformar em símbolo do Barcelona e da seleção espanhola), o Tenerife fez papel razoável no Campeonato Espanhol de 1989-90, o suficiente para se manter na primeira divisão. Treinado por Xabier Azkargorta a partir da 21ª rodada, a equipe terminou na antepenúltima colocação e disputou os playoffs do rebaixamento contra o Deportivo de La Coruña, derrubando os galegos. Rommel Fernández, mais uma vez, se manteve entre os destaques da campanha.

Centroavante de muita força física, Rommel tinha o sugestivo apelido de ‘Panzer’. Não era dos jogadores mais técnicos, mas apostava no jogo de corpo e nos seus potentes arremates para fazer a diferença, assim como ameaçava bastante no jogo aéreo. E incomodou as defesas da elite espanhola, anotando dez gols naquela temporada, o suficiente para ser o artilheiro do Tenerife no campeonato. Chegou a balançar as redes de clubes tradicionais, como Atlético de Madrid, Athletic Bilbao e Real Sociedad. Além disso, bateu goleiros de fama internacional, como José Luis Chilavert, Luis Islas e Badou Zaki.

“Eu sou da opinião que, no futebol, você precisa entrar forte, porque se não for assim, pode se lesionar. Tem que entrar duro, mas sem maldade. Se em uma jogada eu me vejo com chance de ganhar a bola, entrarei forte na bola, não no jogador”, definiu, em entrevista à Don Balón, em 1989. “Tenho características próprias do futebol britânico: receber a bola na área e lutar por elas. Tenho muita coragem e me considero um lutador que nunca dá uma bola por perdida”.

Na temporada seguinte, em 1990-91, o Tenerife deu um passo à frente, já estabilizado no Campeonato Espanhol. Terminou na 14ª colocação, a salvo da briga contra o rebaixamento. Apostando em argentinos, o time ganhou os acréscimos de Fernando Redondo e Tata Martino, enquanto o técnico Jorge Solari assumiu o comando durante a campanha. Os blanquiazules deram trabalho a Barcelona e Real Madrid, além de roubarem dois empates contra o vice-campeão Atleti. E o ídolo Rommel Fernández conseguiu brilhar ainda mais. Desta vez, acumulou 13 gols, novamente artilheiro da equipe. Dentre as suas vítimas, nos dois turnos, estava o Valencia. Justamente o seu próximo destino. O atacante faturou naquela temporada o Troféu EFE, entregue ao melhor jogador latino-americano de La Liga.

Rommel Fernández foi contratado por 300 milhões pesetas. Ao lado do brasileiro Leonardo, o centroavante chegava como uma das apostas na reformulação dos Ches, sob as ordens de Guus Hiddink. Entretanto, o Panzer não conseguiria se firmar na linha de frente, composta por Lyuboslav Penev e Eloy, dois ídolos locais. O panamenho disputou 21 partidas, titular em apenas 10 destas, e anotou somente dois gols. Curiosamente, um deles seria marcado justamente na visita ao Tenerife, com derrota por 2 a 1. Os argentinos Oscar Dertycia e Juan Antonio Pizzi se tornaram os responsáveis por fazer a torcida do Tenerife se esquecer do Panzer, em equipe assumida por Jorge Valdano.

Quarto colocado no Espanhol de 1991-92, o Valencia conquistaria a vaga para a Copa da Uefa, mas Rommel Fernández não ficaria para disputá-la. Os Ches cederam o centroavante ao Albacete, por empréstimo. E o Panzer reencontraria o seu melhor futebol com os manchegos. Na temporada anterior, por seu estilo intenso e fluído, os Blancos ganharam o apelido de “Queijo Mecânico” – em referência à Laranja Mecânica de Rinus Michels. O técnico Benito Floro não seguiu no Estádio Carlos Belmonte, contratado pelo Real Madrid. E por mais que o Alba tenha mantido os seus protagonistas (Geli, Coco, José Luis Zalazar, dentre outros), não conseguiu repetir a sétima colocação ou o bom futebol. Ao menos, o novo centroavante auxiliou na manutenção do time na elite.

Rommel Fernández marcou sete gols em 18 partidas na Liga 1992-93. Ajudou o Albacete a vencer o Tenerife e o Atlético de Madrid, além de registrar uma tripleta contra o Cádiz – com direito a um gol anotado após 10 segundos de bola rolando. Em 2 de maio, o panamenho atuou durante os 90 minutos na derrota para o Logroñés. Quatro dias depois, aconteceu o acidente automobilístico que tirou a sua vida. Brigando contra o rebaixamento, o Albacete se safaria nos playoffs, superando o Mallorca. Uma conquista dedicada a Rommel.

A seleção panamenha ainda lamentaria a ausência do Panzer na Copa Ouro de 1993. O país conquistou a classificação inédita à competição, e que permaneceria como feito único até 2005. Não teriam a maior estrela do país. Rommel Fernández permaneceu defendendo a equipe nacional enquanto atuava na Espanha. Disputou as Eliminatórias para as Copas de 1990 e 1994, mas, em tempos nos quais os Canaleros eram meros coadjuvantes no cenário continental, não teve grande sucesso. O que não impedia de dizerem que o centroavante era mais popular que o próprio presidente em sua terra-natal. Além da fama, a humildade do artilheiro também o ajudou a conquistar uma legião de fãs.

“No Panamá, sou como Butragueño aqui na Espanha. O país conta com cinco canais de televisão para apenas dois milhões de habitantes. Como sou o único panamenho na Europa, as partidas do Tenerife são transmitidas e as pessoas se interessam bastante por minhas atuações”, contou à Don Balón, declarando seu interesse em investir no futebol de seu país quando se aposentasse. Infelizmente, não aconteceu.

Enquanto o Panamá rebatizou o Estádio de la Revolución, Rommel Fernández também passou a ser homenageado por torcidas organizadas de Tenerife e Albacete, nomeadas para preservar a memória do artilheiro. As lembranças ao longo das últimas décadas foram constantes. Inclusive em um amistoso disputado em 2012, entre as seleções do Panamá e da Espanha. Os países onde o Panzer construiu sua história.

Julio César, o maior expoente dos Dely Valdés

Um ano antes de Rommel Fernández chegar à Europa, os panamenhos fincavam a sua bandeira também na América do Sul. Armando Dely Valdés era um atacante que combinava habilidade e potência. Nascido na cidade de Colón, começou a carreira no pequenino Técnica y Deportes. Destacou-se nos campeonatos nacionais de base e chamou a atenção da federação, que tratou de arranjar uma oportunidade para o seu prodígio. Através da embaixada argentina, o jovem de 19 anos conseguiu uma bolsa de estudos para se graduar em Educação Física em Buenos Aires. Mas ele limitou a viagem aos livros. Conseguiu um teste no Argentinos Juniors e agradou, fazendo parte do maior time da história dos colorados.

Outro apelidado de ‘Pelé’, Armando estreou no Argentinos Juniors em 1985, quando tinha 21 anos. Era reserva, mas disputou diversas partidas como titular no Campeonato Argentino. Afinal, seu clube vivia um momento histórico, concentrando todas as forças na Copa Libertadores. E, além da conquista do título nacional em setembro, a façanha se completaria em outubro, com a vitória nos pênaltis sobre América de Cali, que valeu a inédita taça continental. O garoto panamenho entrou em três partidas ao longo daquela campanha, inclusive saindo do banco no primeiro jogo contra os colombianos. Também faria parte do elenco no vice do Mundial Interclubes contra a Juventus.

A venda de Claudio Borghi ao Milan abriu espaço para Armando Dely Valdés no ataque. E, por mais que o sucesso nacional não tenha se mantido, o panamenho manteve sua reputação no Argentinos Juniors, permanecendo no elenco até 1988. Naquele ano, Pelé seguiu ao Instituto de Córdoba, como parte do pagamento pela transferência de Oscar Dertycia. Sem se firmar, acabou se mudando ao futebol israelense, onde defendeu o Maccabi Tel-Aviv e o Beitar Tel-Aviv. Já em 1991, retornou à América do Sul. Vestiria a camisa aurinegra do Peñarol, em um momento no qual o sobrenome Dely Valdés estava em alta no Uruguai.

O trajeto rumo à América do Sul foi repetido por Julio César Dely Valdés, irmão de Armando, três anos mais jovem. Atacante como Pelé, o rapaz de 20 anos desembarcou inicialmente em Buenos Aires, para fazer testes com o próprio Argentinos Juniors. Não foi aprovado. Para não voltar de mãos abanando ao Panamá, permaneceu na capital, onde se juntou ao Deportivo Paraguayo, que disputava a quinta divisão do Campeonato Argentino. Por lá, começou a empilhar gols.

A verdade é que Julio César deu muita sorte. Em meados de 1988, o presidente do Nacional de Montevidéu, Don Roberto Recalt, lia a revista ‘Solo Fútbol’. No meio das tabelas, chamou atenção os números do tal Dely Valdés. Então, o dirigente foi até Buenos Aires conversar com o panamenho e ofereceu o desafio para se provar com o Bolso. Aposta mais do que certeira. Em janeiro de 1989, o rapaz de 21 anos estreava pelo gigante uruguaio, então campeão continental e mundial. Em março, anotou seu primeiro tento. E não pararia mais, apelidado de ‘Panagol’.

Apesar do impacto inicial, Julio César demoraria a ser campeão com o Nacional. Em tempos nos quais a influência dos empresários se alastrava pelo futebol uruguaio, a sangria de talentos era enorme e impactava no topo da tabela. Por três anos consecutivos, o Bolso foi vice-campeão nacional. E, acredite, o algoz sequer era o Peñarol: Progreso, Bella Vista e Defensor acabaram com a taça. Em 1991, o respaldo do panamenho era tão grande que os tricolores acabaram contratando seu irmão gêmeo, Jorge, também atacante. Ficou um ano no Parque Central, até ser repassado aos chilenos da Unión Española. Já os carboneros, como dito acima, buscaram Armando Dely Valdés em Israel.

Também em 1991, Julio César Dely Valdés foi artilheiro do Campeonato Uruguaio e disputou a Copa Libertadores pela primeira vez. Enfrentou Flamengo e Corinthians na fase de grupos, anotando um gol no empate com os alvinegros no Centenario. Também lideraria a classificação sobre o Bolívar nas oitavas de final, somando três tentos nos dois jogos, até a queda contra o futuro campeão Colo-Colo. Já o ano de glória para o atacante seria 1992. A campanha na Libertadores não seria tão boa, parando para o São Paulo nas oitavas. Em compensação, finalmente o panamenho faturava o Campeonato Uruguaio.

Dely Valdés foi a estrela daquela conquista. Anotou 13 gols na campanha, terminando novamente como artilheiro da competição. E, mais importante, garantiu o título justamente no clássico contra o Peñarol. O camisa 9 permitiu a vitória por 1 a 0 graças a um golaço: fez o que quis contra três defensores carboneros, antes de driblar o goleiro e tocar para as redes vazias. Consagrava um time do Nacional que misturava jovens e veteranos. Treinados por Roberto Fleitas, os tricolores contavam em suas fileiras com Hugo de León, Jorge Seré, Gustavo Méndez, Marcelo Saralegui e Javier Wanchope – este, outro centroamericano, nascido na Costa Rica e irmão mais velho de Paulo Wanchope, considerado um dos melhores jogadores da história de sua seleção.

Dely Valdés permaneceu no Nacional até meados de 1993. Disputou sua terceira Copa Libertadores, somando cinco gols em oito jogos, mas caindo diante do Olimpia nas oitavas de final. Naquele momento, sua transferência ao futebol europeu parecia inevitável. E os torcedores tricolores já eram gratos por tudo o que havia proporcionado. O camisa 9 balançou as redes 110 vezes pelo clube, 65 deles no Centenario. Muitos deles inesquecíveis, especialmente por sua capacidade em acertar bicicletas e voleios. Alto, forte, rápido e com um faro de gol apuradíssimo, parecia mesmo moldado a voos mais altos.

Em agosto de 1993, Dely Valdés rumou à fortíssima Serie A, melhor liga do mundo naquele momento. Meses antes, em 1992, tinha sido sondado pelo esquadrão do Olympique de Marseille, mas a transferência ao futebol francês foi barrada pelos dirigentes do Nacional. Acabaria por se juntar ao “uruguaio” Cagliari, que nos anos anteriores tinha concentrado suas vagas para estrangeiros entre jogadores charruas – como Enzo Francescoli, Daniel Fonseca, Marcelo Tejera e José Herrera. Quando o panamenho desembarcou na Sardenha, Herrera era o único uruguaio. A outra vaga para estrangeiros estava ocupada por Luis Olivera, maranhense naturalizado belga que se destacara no Anderlecht. Formariam uma dupla letal.

Comparado com Van Basten por seu estilo de jogo, Dely Valdés tinha a dura missão de preencher a lacuna deixada por Francescoli. E apesar das expectativas elevadas, pautadas em dois craques incontestáveis, o novo camisa 9 cumpriu bem o seu papel, ganhando até mesmo o apelido de ‘Delyrio’. Os anos de rodagem adquiridos com o Nacional auxiliaram o atacante a se adaptar ao jogo mais defensivo praticado na Itália. E ele não demorou a causar impacto. Marcou dois gols logo em sua estreia, na derrota por 5 a 2 para a Atalanta de Francesco Guidolin. Balançou as redes 13 vezes naquela campanha, artilheiro da equipe que terminou no 12° lugar. Além disso, deu sua contribuição para que os rossoblù alcançassem as semifinais da Copa da Uefa, anotando um dos tentos que ajudaram a eliminar a Juventus de Giovanni Trapattoni nas quartas de final. Na fase seguinte, porém, a equipe não conseguiria superar a Internazionale.

Em seu segundo ano na Sardenha, sob as ordens do recém-contratado Óscar Tabárez, Dely Valdés foi menos efetivo. Anotou oito gols nas 32 partidas que disputou pela Serie A, embora tenha brilhado principalmente em jogos grandes. Auxiliou em vitórias sobre Inter e Juventus, além do empate com o Milan. E com o acréscimo de Roberto Muzzi à linha de frente, o Cagliari encerrou o campeonato na nona colocação, beirando a zona de classificação à Copa da Uefa. De qualquer maneira, o panamenho não acompanharia a evolução do time. Neste momento, sua notabilidade era enorme. Acabou levado pelo Paris Saint-Germain, semifinalista da Liga dos Campeões na temporada anterior. Os parisienses buscavam um atacante rápido e letal, após a venda de George Weah para o Milan. Confiavam em Júlio César para a missão, assim como em Patrice Loko, campeão nacional em um time fascinante do Nantes.

No Parc des Princes, Dely Valdés encontrava um ambiente propício para triunfar. Por mais que o PSG tivesse perdido jogadores importantes, como David Ginola e o próprio Weah, ainda assim contava com um dos elencos mais fortes da França: Bernard Lama, Bruno N’Gotty, Paul Le Guen, Raí e Youri Djorkaeff compunham a coluna vertebral do time. Não demorou para que o panamenho também emplacasse em Paris, referência no ataque ao lado de Loko. Autor de 15 gols, o atacante terminou como artilheiro da equipe na Ligue 1, chegando a balançar as redes oito vezes nas primeiras dez rodadas. Contudo, os parisienses não conseguiram acompanhar o Auxerre de Guy Roux, campeão com quatro pontos de vantagem. A glória ficaria reservada à Recopa Europeia de 1995-96.

Apesar do sucesso na Champions anterior, o PSG precisou se contentar com a vaga na competição secundária da Uefa. E não desperdiçou a oportunidade. A equipe fez uma campanha contundente. Eliminou Molde, Celtic, Parma e Deportivo de La Coruña para alcançar a decisão, diante do Rapid Viena. Diante de 37,5 mil torcedores em Bruxelas, o favoritismo era dos franceses, por mais que os austríacos contassem com um elenco renomado – estrelado por Michael Konsel, Carsten Jancker e Trifon Ivanov. Deixado no banco pelo técnico Luis Fernández, Dely Valdés precisou entrar logo aos 12 minutos, depois que Raí se lesionou. Do campo, viu N’Gotty acertar um petardo de muito longe em cobrança de falta, assegurando a vitória por 1 a 0 e o primeiro título continental do clube.

Na temporada seguinte, em 1996-97, o PSG manteve o seu patamar. Mais uma vez terminou com o vice-campeonato da Ligue 1, abaixo apenas do jovem Monaco. E, apesar das derrotas acachapantes para a Juventus na Supercopa da Europa, o time voltou a brilhar na Recopa Europeia. Eliminou Vaduz, Galatasaray, AEK Atenas e Liverpool, até alcançar a sua segunda final consecutiva. Desta vez, porém, os parisienses acabaram derrotados pelo Barcelona, com a vitória por 1 a 0 em Roterdã, gol de Ronaldo. Uma partida que também encerraria a passagem de Dely Valdés pela França. O desempenho do panamenho já não era tão bom, balançando as redes apenas oito vezes na Ligue 1. Não era mais titular absoluto, especialmente depois da contratação de Leonardo. Assim, aos 30 anos de idade, a transferência soava como natural.

Entretanto, o que poderia soar como o declínio de Júlio César Dely Valdés marcou justamente os seus momentos mais inspirados na Europa. O atacante se encontrou na mesma Espanha onde brilhara Rommel Fernández. Seu destino era modesto, arrumando as malas para o Real Oviedo, clube que se contentava meramente em permanecer na primeira divisão. A relação com Óscar Tabárez, então trabalhando nas Asturias, facilitou os trâmites. Apesar de suas pretensões contidas, o time possuía vários jogadores notáveis, como Fernando Gamboa, Abel Xavier, Viktor Onopko, Paulo Bento e Peter Dubovsky. Ainda assim, quem ascendeu ao posto de referência ofensiva foi logo Dely Valdés. O Panagol dividiu a artilharia da equipe em La Liga, somando nove tentos em 1997-98. Chegou inclusive a marcar contra o Real Madrid, apesar da goleada por 5 a 1. Ajudou a salvar os Azules da queda à segundona, fazendo um dos gols nos playoffs contra o rebaixamento diante do Las Palmas.

Já no segundo ano, treinado por Fernando Vázquez, Dely Valdés deslanchou nas Asturias. Viveu sua temporada mais goleadora na Europa, brigando até mesmo pela artilharia de La Liga, com 19 tentos. Fome de gols fundamental para afastar o Real Oviedo dos riscos de degola, responsável por quase metade das anotações do time ao longo da campanha. Era difícil o jogo em casa no qual o atacante passasse em branco. Além disso, balançou as redes de quase todas as potências do país na época: Real Madrid, Barcelona, Valencia, Deportivo La Coruña. O suficiente para arrebatar de vez o coração dos oviedistas como um dos maiores ídolos do clube.

Por fim, a história de Dely Valdés no Real Oviedo duraria mais uma temporada, agora sob o comando do lendário Luis Aragonés. Apesar do treinador excelente, o time mantinha as ambições reduzidas. E o Panagol continuou desequilibrando para manter os asturianos na elite. Foram 11 tentos ao longo do campeonato, que renderam o 16° lugar, três pontos acima do Z-3. Um dos resultados fundamentais para assegurar a permanência contou com o brilhantismo do artilheiro. Diante do Barcelona de Rivaldo e Figo, o panamenho balançou as redes duas vezes e acertou a trave outras duas, possibilitando o triunfo por 3 a 0. Neste momento, outros clubes almejavam os seus serviços. Acertou em 2000 a transferência para o Málaga. Aos 33 anos, teria tempo para se transformar também em símbolo dos andaluzes, apesar do fardo de substituir o artilheiro Catanha.

Que o Málaga não fosse um time de ponta, de volta à primeira divisão em 1999, mantinha um elenco interessante para almejar a metade de cima da tabela no Espanhol. Fernando Sanz, Kiki Musampa e Francisco Rufete estavam entre as apostas dos boquerones, treinados por Joaquín Peiró, célebre jogador da seleção nos anos 1960. A grande arma dos andaluzes, de qualquer maneira, estava em sua dupla de ataque. Dely Valdés compôs uma parceria famosa com o uruguaio Darío Silva. Juntos, foram vitais para levar o clube às competições europeias.

“La Doble D”, como era conhecida a dupla, anotou 30 gols no Campeonato Espanhol 2000-01 – 17 deles do centro-americano. Combinavam mobilidade, presença de área e uma capacidade enorme nas finalizações. Com eles, o Málaga chegou a arrancar pontos de Real Madrid e Barcelona, além de derrotar o Valencia. Os 3 a 0 sobre os Ches em La Rosaleda, aliás, eternizou o gol mais lembrado do panamenho na Espanha. Em meio à tripleta da tarde, ele acertou uma bicicleta fulminante em Santiago Cañizares.

A oitava colocação representava bastante os boquerones, que tiveram seu melhor desempenho na liga desde a década de 1970. Pois dava para esperar mais. Dely Valdés e Darío Silva continuaram arrebentando, acompanhados pela ascensão de Kiki Musampa. O panamenho acumulou 11 tentos, com nove do uruguaio e outros nove do holandês. Levaram os andaluzes à décima colocação no Espanhol 2001-02, mais uma vez dando trabalho aos grandes em quase todos os jogos. Além disso, o clube levou uma das vagas à Copa Intertoto na temporada seguinte.

Criada para ocupar as lacunas da loteria esportiva na Europa, a Intertoto não representava muito às potências do continente, mas poderia oferecer uma chance de ouro aos clubes menores. E assim o Málaga a agarrou. Os blanquiazules passaram por Gent, Willem II e Villarreal, sendo um dos três “vencedores” da competição, que carimbaram o passaporte à Copa da Uefa. Dely Valdés anotou cinco gols nas seis partidas disputadas, vital para o feito histórico. Pela primeira vez, os andaluzes disputariam as copas europeias – algo que só repetiriam em 2012-13, quando o dinheiro catariano os impulsionou à Champions.

Apesar da parca experiência, o Málaga faria bonito na Copa da Uefa 2002-03. Nas primeiras etapas, eliminou Zeljeznicar e Amica Wronki, antes de encarar seu primeiro grande desafio nos 16-avos de final: o Leeds United, que mantinha um time de investimento considerável sob as ordens de Terry Venables. Em La Rosaleda, o empate por 0 a 0 tirava um pouco as esperanças dos espanhóis. Pois os boquerones conseguiram buscar a vitória em Elland Road por 2 a 1. Cortesia de Dely Valdés, que, às vésperas de completar 36 anos, marcou ambos os gols na Inglaterra. O Málaga ainda derrubaria o AEK Atenas, eliminado apenas nas quartas de final. O Panagol garantiu a vitória por 1 a 0 sobre o Boavista na Andaluzia, mas o lusitanos deram o troco em Portugal e avançaram nos pênaltis, com o goleiro Ricardo (herói da seleção portuguesa pouco depois) pegando uma das cobranças.

Já no Espanhol de 2002-03, a dobradinha entre Dely Valdés e Darío Silva garantiu gols importantes ao Málaga, mas desta vez a equipe não passou do 13° lugar. Ao panamenho, restou se sacramentar como o maior artilheiro do clube na história da primeira divisão do Campeonato Espanhol. Com os 10 gols acumulados naquela temporada, chegou a 38 no total, marca ainda hoje inalcançada em La Rosaleda. Era hora de se despedir. O Panagol continua tendo o seu nome cantado pelos blanquiazules. Aos 36 anos, todavia, chegara a hora de se preparar ao final da carreira. Retornou a Montevidéu, ao Nacional que tanto representou à sua ascensão.

A segunda passagem de Júlio César Dely Valdés pelo Parque Central durou pouco. Defendeu os tricolores apenas no segundo semestre de 2003, ao lado do irmão gêmeo Jorge, de volta após longa jornada pelo futebol japonês. Em 2004, enfim, o Panagol voltou para casa. Atuaria pelo Árabe Unido, de sua cidade-natal, Colón. E não ficou de mãos abanando, ajudando o clube tradicional a conquistar os títulos do Apertura e do Clausura naquele ano. Desfecho glorioso bastante pertinente a uma trajetória tão brilhante por clubes.

Já pela seleção, quando parecia pronto à aposentadoria, Júlio César disputou a sua principal competição. O craque do país figurava nas convocações da Marea Roja desde 1991. Reforçava o time basicamente em algumas edições da Copa Centroamericana e nas Eliminatórias. Entretanto, em tempos nos quais os panamenhos estavam limitados ao coadjuvantismo, o faro de gol do artilheiro não adiantou muito. Sua redenção aconteceu a partir de 2005. Semifinalista da Copa Centroamericana, o Panamá conquistou a vaga na Copa Ouro, encerrando um hiato de 12 anos no torneio.

Capitão, embora tenha permanecido no banco, Júlio César Dely Valdés era um dos líderes do elenco que chegaria ao vice-campeonato, derrotado pelos Estados Unidos nos pênaltis. Curiosamente, seu irmão Jorge, à sombra do Panagol durante toda a carreira, é que acabou sendo decisivo na competição. Além disso, o velho ídolo também participaria de parte do hexagonal final das Eliminatórias da Copa de 2006, a primeira vez que os panamenhos alcançavam a fase principal. Em outubro de 2005, durante uma derrota contra os Estados Unidos, o veterano encerrou sua passagem de 44 jogos e 18 gols pela seleção.

Naquele momento, o Panamá começava a preparar uma geração bem mais sólida. Jaime Penedo, Román Torres, Felipe Baloy, Gabriel Gómez, Blas Pérez, Luis Tejada e outros nomes referendados do futebol local já conquistavam o seu espaço. Os mesmos jogadores que, 12 anos depois, conquistariam a vaga inédita à Copa do Mundo. Júlio César Dely Valdés deu sua contribuição nesta caminhada, técnico na frustrante queda rumo ao Mundial de 2014. Agora, serve de inspiração aos antigos companheiros e comandados que o veem como ídolo, rumo à Rússia em 2018. Aos 50 anos, é técnico das categorias de base do Málaga, preparando novos talentos aos boquerones.