O São Paulo anunciou na manhã desta sexta-feira, 9 de março, a demissão do técnico Dorival Junior, poucas horas depois da derrota para o Palmeiras por 2 a 0 no Allianz Parque. A saída do treinador é um alívio momentâneo para os torcedores, insatisfeitos com o desempenho, e para a diretoria, que tira parte da pressão. A grande questão a partir de agora para o departamento de futebol comandado por Raí e que tem Ricardo Rocha e Lugano é: qual rumo dar ao time a partir de agora? Esta é a grande questão para o clube do Morumbi neste momento. Alguns dirigentes, quando perguntados, dizem que “querem ganhar”. Esse é o primeiro passo para o fracasso. Ganhar todos querem, a grande questão é se você sabe como quer chegar lá. E sabe fazer a escolha que te possibilite isso.

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Desempenho sofrível

Dorival Júnior teve pouco para ser defendido no seu trabalho recentemente. O ano de 2018 deveria ser uma página em branco para ser escrita, mas é impossível dissociar dos anos recentes ruins. A luta contra o rebaixamento em 2017 ainda está na memória do torcedor. Natural. De qualquer forma, o novo ano é também uma nova chance de fazer melhor.

A perda de dois jogadores cruciais para a equipe pesa. Hernanes e Lucas Pratto sem dúvida fazem falta. O clube contratou jogadores que podem não ser os que Dorival queria – estamos falando aqui de Santiago Trellez e Nenê, especificamente, já que Diego Souza ele queria. Ainda assim, o técnico tinha que fazer o time render mais. Os resultados foram ruins, mas pior ainda era o futebol. Os jogos que o time atuava melhor ainda era longe de passar perto de bater rivais fortes, como nos clássicos.

Em 11 jogos, são cinco derrotas. A última para o Palmeiras. O jogo no Campeonato Paulista nem valia muito, mas foi mais um clássico que o time perdeu e a quinta derrota em cinco jogos do time do Morumbi jogando na nova casa palmeirense. O resultado foi ruim, mas o desempenho foi pior ainda. O time foi massacrado pelo Palmeiras, que poderia ter ganhado por 3 ou 4 a 0 sem qualquer exagero.

O papel de Dorival no jogo reforçou sua falta de capacidade de tirar o melhor do time. Fez três alterações no intervalo, algo muito incomum, e que já indicava uma dose de desespero. Pior ainda para o técnico que as alterações não funcionaram. Um dia antes do jogo do São Paulo, na quarta-feira, Massimiliano Allegri, da Juventus, fez duas mudanças no intervalo do jogo contra o Tottenham. As duas alterações tiveram impacto intenso no jogo e ajudaram o time a conseguir uma virada contra os ingleses. Não aconteceu o mesmo com Dorival. Não foi um fato isolado. Foi a cereja de um bolo mal feito e de gosto ruim.

Nos jogos contra os times menores, o São Paulo se salva com um ou outro lance. Contra o Linense, um dos piores times do Paulista, o São Paulo venceu na bacia das almas, em um gol de Rodrigo Caio, de cabeça, nos acréscimos. Uma vitória exaltada por jogadores, mas muito pouco para fazer o time respirar. Antes, a vitória que veio foi contra o CRB, um bom time do Nordeste, mas bem abaixo – em folha salarial, especialmente – ao São Paulo. A vitória por 2 a 0 não poderia indicar muitas coisas.

O futuro

A demissão de Dorival pareceu inevitável diante do cenário que se criou. A grande questão a partir da saída do técnico é qual o rumo que o clube quer tomar a partir de agora. Primeiro de tudo, a decisão deveria ser do departamento de futebol, ou seja, da equipe comandada por Raí, que ainda conta com Ricardo Rocha e Diego Lugano. Mas sabemos que é inevitável que o presidente queira, de alguma forma, participar, já que a política dos clubes influencia. Afinal, conselheiros podem apoiar ou se opor ao presidente e a escolha do técnico é um dos pontos que pode fazer com que ele ganha ou perca pontos – normalmente as duas coisas, em uma equação que os dirigentes fazem.

Do ponto de vista técnico, o São Paulo precisa saber o que o time tem de bom para trazer um técnico que possa maximizar isso. Qual será o perfil do técnico? Alguém capaz de montar boas defesas, tornando o time mais seguro? Alguém que goste de um futebol de posse de bola e mais ofensivo, como Dorival? Um técnico que goste de trabalhar com transições rápidas? O que é melhor? Os clubes, em geral, não pensam nisso. Ou, se pensam, não é a prioridade.

A característica deste time do São Paulo, desde Rogério Ceni e passando por Dorival, é de um time de muita posse de bola, mas muita dificuldade em finalizar. Um time que tem problemas defensivos grandes. E que tem jogadores experientes e lentos, como Diego Souza, Nenê e Tréllez. Cueva é o mais rápido deles e, mesmo assim, não tem a velocidade como a maior qualidade. Ou seja, seria difícil fazer um time com transição rápida usando esses jogadores. Foi o que Dorival percebeu e colocou Nenê e Diego Souza no banco, além de mantém Trellez por lá.

André Jardine sobe do time sub-20 para assumir, interinamente, o time principal. Na base, ele se caracterizou por montar times que prezavam pela posse de bola, ficando no campo de ataque a maior parte do tempo. O que ele terá em menor quantidade será a velocidade, mas poderá trabalhar com muitos jogadores que ele mesmo desenvolveu. Por tudo isso, larga como favorito.

O mais importante será saber qual será o caminho que o clube vai tomar. E saber que algumas escolhas, como um técnico que gosta de muita velocidade, serão mais arriscadas, pelas características do elenco. Não há problema em ir por esse caminho, desde que os dirigentes estejam convictos que é a melhor opção e assim se mantenha. Se o time for mal e, daqui três ou quatro meses, um novo técnico chegar com estilo diferente, a chance das coisas se complicarem no Campeonato Brasileiro e o time passar por novos sustos em 2018 aumenta.

A partir de agora, qualquer escolha ruim terá grande participação do departamento de futebol comandado por Raí. E, consequentemente, de Leco. Uma escolha ruim agora, que resulte em fracasso do contratado, será também um imenso fracasso para o ídolo são-paulino como diretor de futebol.