Fora nove meses de trabalho para Emily Lima ser demitida da seleção brasileira feminina. A técnica, de 36 anos, foi um suspiro de mudança em um time que vinha sendo comandada de forma medíocre por Vadão na Copa do Mundo de 2015 e Olimpíada de 2016. O atrito com o coordenador de futebol da seleção feminina, Marco Aurélio Cunha, é evidente. E só mostra o tamanho do problema.

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 A demissão da técnica acontece depois de uma viagem de 42 horas de volta da Austrália. Oos últimos resultados foram ruins: cinco derrotas e um empate nos últimos seis jogos. Os jogos, porém, foram propositadamente contra seleções fortes. O time perdeu da Alemanha por 3 a 1, empatou com o Japão por 1 a 1, depois perdeu para Estados Unidos por 4 a 3, e três vezes para a Austrália – um deles por goleada de 6 a 1, outra por 2 a 1 e por fim 3 a 2.

É bom lembrar que Emily mesmo disse que a seleção não tinha calendário em 2017 e foi ela e sua comissão técnica que armaram amistosos difíceis para preparar o time. Podia ter escolhido um caminho mais fácil, com amistosos tranquilos contra seleções fracas, mas foi pelo caminho contrário. Sabia que o time precisava evoluir mais. E não quer dizer que tudo no seu trabalho tenha sido bom, mas com o tempo que teve, não faz nenhum sentido a sua demissão.

A treinadora foi contratada em 1º de novembro de 2016, depois da demissão de Vadão. O treinador não conseguia fazer o time feminino jogar o futebol esperado e, mais que os resultados, jogava um futebol muito criticado. A chegada de Emily Lima foi um pedido de Marco Pólo Del Nero, presidente da CBF. Acuado, o dirigente sabia que a treinadora do São José vinha de um ótimo trabalho e teria respaldo da opinião pública e crítica especializada. Foram sete vitórias consecutivas nos sete primeiros jogos.

Não por acaso, quando Emily foi contratada, Marco Aurélio Cunha estava licenciado do cargo de coordenador da seleção feminina. Tinha assumido um cargo no São Paulo, que vinha em má fase (que se repete em 2017). A treinador deixou muito claro que não tinha respaldo do dirigente.

“Eu já imaginava que isso fosse acontecer. Não pelos resultados em si, como alegaram, mas pela falta de respaldo da coordenação técnica. Num tive esse respaldo do Marco Aurélio (Cunha, coordenador de futebol feminino da CBF). Já entrei com ele contra mim. Então, foi complicado. Busquei resultados do Vadão (ex-treinador)… Foram vários negativos…3 a 0…4 a 0… mas no caso dele, isso nunca importou”, disse Emily em entrevista à ESPNW.

“Mas é vida que segue. Saio de cabeça erguida, sabendo que toda a comissão técnica trabalhou e fez um trabalho diferente. Mas isso era errado para o nosso coordenador. O Marco Aurélio me falou várias vezes que eu trabalho demais e que trabalhar demais é errado”, completo a treinadora.

A própria ESPN fez contato com Marco Aurélio Cunha para comentar sobre as declarações de Emily. Cinicamente, ele disse que não sabia da demissão e jogou nas costas de Marco Pólo Del Nero. Segundo o UOL Esporte, as jogadoras, sabendo que Emily Lima estava ameaçada, pediram ao coordenador Marco Aurélio Cunha pela manutenção da treinadora. Não foram ouvidas. Mais do que isso: o dirigente não gostou do pedido e isso contribuiu ainda mais para a demissão.

O mais curioso é que Vadão é o nome mais cotado para assumir novamente a seleção. Um movimento que parece não fazer nenhum sentido, tecnicamente. Mas não podemos nos surpreender. Marco Aurélio Cunha foi o dirigente que falou em valorizar o corpo feminino para atrair mais atenção; que disse que não havia mulheres no cargo que ele ocupa porque ainda não há mulheres capacitadas.

Resta saber, então, se as jogadoras aceitaram mais essa lambança dos dirigentes. Por que alguém como Marco Aurélio Cunha tem tanto poder? Por que ele tem que ficar nessa posição que ocupa? Será mesmo que não temos pessoas mais capacitadas que o ex-dirigente do São Paulo que abandonou o cargo de vereador para assumir essa posição na CBF e que brada ter 36 anos de experiência em futebol, mesmo que siga com erros assim?

Será que o caminho para a melhoria da seleção feminina é a manutenção de Marco Aurélio Cunha e a volta de Vadão, que fez trabalho tão questionável? Como bem disse Leandro Iamin no blog da Central 3, os dirigentes estão fragilizados como nunca e uma força das jogadoras pode ser importante para mudar algo nisso.