A quarta-feira de Cinzas começou feliz para Paulo Fonseca. Era 5 de março, seu aniversário, o dia em que completava 41 anos de idade. Naturalmente, recebeu os parabéns dos familiares e amigos.  Mas bastaram algumas horas para que o dia alegre se tornasse, de fato, cinzento. Os telefonemas de felicitações pela passagem de mais um ano de vida tornaram-se mensagens de solidariedade ao recém-desempregado. Paulo Fonseca havia sido demitido do cargo de técnico do Porto.

Em que pese a dramaticidade de a demissão ter ocorrido justamente na data do seu aniversário, era claro para todo mundo (até para ele próprio, que já havia colocado o cargo à disposição duas vezes) que os dias de Paulo Fonseca no banco de reservas dos dragões estavam contados. Com a pífia campanha no Campeonato Português (terceiro colocado, nove pontos atrás do líder Benfica), o vexame na Liga dos Campeões (pela primeira vez na história eliminado na fase de grupos sem vencer nenhum jogo sequer) e o sofrimento para se classificar às fases seguintes na Liga Europa e na Taça da Liga, alguma coisa precisava ser feita.

O estopim da crise veio na rodada passada do campeonato nacional, com o empate por 2 a 2 com o Vitória de Guimarães, fora de casa. No retorno ao estádio do Dragão, o ônibus que trazia a delegação do Porto foi cercado por torcedores, que acertaram chutes no veículo e soltaram todos os tipos de xingamento contra o time e, em especial, contra o técnico.

Embora a violência seja sempre condenável, a revolta dos portistas justifica-se pelos números. Nos nove meses que passou à frente da equipe, Paulo Fonseca obteve 21 vitórias em 37 jogos – foram ainda 9 empates e 7 derrotas –, somando todas as competições. O aproveitamento de 64,8% pode ser considerado bom para uma equipe mediana (como o Paços de Ferreira, em que ele obteve grande sucesso na temporada passada), mas é pouco para um clube do tamanho do Porto.

O desempenho ruim, portanto, praticamente obrigou o presidente Pinto da Costa a fazer algo que ele não está acostumado: mandar embora um técnico no meio da temporada. Desde 1982, quando assumiu a presidência, esta é apenas a quinta vez que Pinto da Costa toma tal atitude – sendo que, ao todo, ele já empregou 21 técnicos.

O 21º da lista é Luís Castro. Aos 52 anos de idade, ele deixa o Porto B – líder da segunda divisão — para assumir interinamente a equipe principal. No posto de técnico-tampão, terá a missão de levar o time a uma campanha digna na Liga Europa e a vencer pelo menos uma das taças (curiosamente, vai encarar o Benfica nas semifinais tanto da Taça da Liga quanto da Taça de Portugal). No Campeonato Português, o título é missão quase impossível, mas vale a luta para roubar a segunda colocação do Sporting, atualmente quatro pontos à frente. Isso porque o vice-campeão nacional garante vaga na fase de grupos da próxima Liga dos Campeões, enquanto o terceiro colocado terá de passar pelos play-offs.

Esta será apenas a terceira temporada de Luís Castro como técnico de uma equipe principal. Ele debutou em 2004/05, quando levou o Penafiel a um surpreendente 11º lugar na primeira divisão. Antes disse, sua carreira restringia-se a times amadores, mas a maneira como ele os dirigia chamava a atenção. No Mealhada, por exemplo, ficou conhecido por reunir informações dos adversários e colar os papéis no vestiário, ao longo da semana, para seus jogadores conhecerem melhor quem enfrentariam.

Em 2005/06, ainda no Penafiel, Castro não conseguiu evitar o rebaixamento. Logo em seguida, foi contratado pelo Porto, onde assumiu o cargo de coordenador das categorias de base. Foi somente na atual temporada, sete anos depois, que voltou ao banco de reservas, para dirigir a equipe B. Em princípio, o novo treinador e velho conhecido dos dragões chega apenas para terminar a temporada. O nome preferido do Porto é Marco Silva, atualmente no Estoril. As negociações com ele, que não andaram agora por causa da multa rescisória, podem evoluir daqui para a frente.

O que esperar de Luís Castro é uma grande incógnita. Os torcedores querem ver as vitórias novamente. Os dirigentes imaginam que possam ter um pouco de paz, confiando em alguém que conhece bem os bastidores do clube. E ele próprio certamente quer se firmar na carreira de treinador, não ter o ônibus agredido pelos adeptos e, claro, não ser demitido no dia do aniversário. Que, a propósito, é em 3 de setembro.