Por Leandro Paulo Bernardo, 31 anos, cirurgião-dentista, viciado em futebol desde os quatro anos, casado com o Santa Cruz que sempre terá a Portuguesa como sua amante

A Portuguesa tinha acabado de se despedir de Edu e Esquerdinha, vendidos, e Éneas, que foi para os céus. Era 1989, e as esperanças dos rubro-verdes pareciam estar nas calorentas tardes da Copa João Jorge Saad, o Campeonato Paulista de Aspirantes. Começava a surgir um moleque habilidoso e veloz, mas, numa época em que o futebol brasileiro ainda vivia com pontas, a Lusa já tinha o Wanks. O jovem da vez era o Bentinho, centroavante, e aquele outro garoto foi sendo “segurado” para ser lançado no time profissional.

Só ficou claro que não fazia mais sentido atrasar a chegada de Dener na Taça São Paulo de 1991. Aquele moleque habilidoso foi o melhor jogador do campeonato, comandando um ataque arrasador com Tico Sinval e Pereira e que usava os conceitos de losangos flutuantes do técnico Écio Pasca. A partir dali, foi tudo muito rápido: virou titular da Portuguesa e em 27 de março (dois meses e dois dias após conquistar a Copinha) estreou pela seleção brasileira contra a Argentina em Buenos Aires.

O problema é que parou por aí. A Seleção dava oportunidade aos novos talentos vindos do Bragantino, Novorizontino, União São João, dava chances para o Luiz Henrique, Djair, Moacir, mas nunca mais ao reizinho do Canindé. A habilidade incomum era ofuscada em muitos momentos pela indisciplina nas quatro linhas e fora delas. Dener se deslumbrou com a fama e com o dinheiro abundante, se envolveu em diversos episódios de rebeldia.

Entre uma e outra notícia extracampo, vinham as grandes jogadas, que poucos craques do mundo eram capaz. Em uma noite de quarta, driblou a cidade de Limeira inteira antes de fazer o único gol da vitória da Portuguesa sobre a Internacional no quadrangular semifinal do Paulista. Em um sábado à tarde, fintou os buracos de um gramado encharcado, driblou a zaga e a alma do Santos para marcar. Ele já parecia grande demais para a Lusa, e especulações sobre sua venda eram cada vez mais constantes.

A primeira saída foi apenas por empréstimo por três meses para ajudar o Grêmio na reta final do Gauchão. No Olímpico conquistou seu único título profissional, mas voltou para São Paulo para o Brasileirão de 1993. Na repescagem, que valia uma vaga na segunda fase, brigou com a diretoria após uma derrota por 5 a 2 contra o Remo no Mangueirão. Houve quem pensasse “que vá embora, não precisamos mais de você”, sem poder imaginar que naquela dura goleada estava o último gol do craque com a camisa rubro-verde.

Alimentando o sonho distante de ir para a Copa do Mundo, ele foi jogar no Vasco por empréstimo em 1994, que pelo papel já dava para ver que seria campeão estadual (seus concorrentes estavam péssimos), arrebentou até em amistosos contra o Newell’s Old Boys, que tinha Diego Maradona em seu elenco.

Em abril, suas chances de Copa já eram praticamente nulas, mas as negociações esquentavam. Ele viajou às pressas para São Paulo, onde tinha uma reunião com dirigentes do Stuttgart. Por US$ 3 milhões ele se juntaria a Dunga e Élber no clube alemão. Voltou para o Rio de Janeiro de carro, durante a madrugada. No banco do carona, inclinou ao máximo seu assento e dormiu. Eis que às 5h15, em 19 de abril de 1994, o carro bateu em uma árvore perto da Lagoa Rodrigo de Freitas. O corpo de Dener foi para frente, e ele acabou enforcado pelo cinto de segurança.

Muitos disseram que a Portuguesa perdia seu maior jogador. Estupidez. Dener da Portuguesa, do Grêmio, do Vasco ou do Stuttgart. Era do futebol mundial. No Esporte Espetacular colocaram seus lances com a genial música do Jorge Benjor na voz do Caetano Veloso: “Olha o menino Ui… Olha o menino ui, ui, ui… Eu sou um homem sincero por que nasci, cresci e vivo livre, Eu sou um homem sincero que quero morrer, nascer e viver livre”.

Tenho certeza que ele ajudou no surgimento da magia de Ronaldinho Gaúcho, da habilidade de Denílson e da leveza do Robinho. Dener fez o futebol chegar o mais próximo possível do sonho ideal, seus dribles ecoavam em um futebol cheio de volantes e apenas de força. Pepe, craque do Santos nos anos 60 e técnico de Dener na Portuguesa em 1993, um dia disse que o Reizinho do Canindé foi o jogador que mais se aproximou do Rei Pelé”.

Como torcedor, só tive noção da sua falta quanto, em abril de 2001, em um simples jogo pelo Campeonato Pernambucano, Sinval marcou um gol pelo Santa Cruz e dedicou ao amigo. Ao ouvir a dedicatória, com meu rádio na arquibancada do Arruda, chorei muito ao notar aquela conexão e percebi o quanto Dener era especial. Ele alegrou os corações do brasileiro que ama o futebol e, por muito tempo, ainda destruirá o meu.