Há noites que servem para lavar a alma do torcedor. Para expurgar a dor por amar um clube que maltratou seu coração. Para abrandar aquele ódio que um dia brotou justamente por não abandonar a paixão. E então, resplandecer toda a glória que um verdadeiro fanático, apegado às cores, proclamará aos quatro cantos durante anos. A torcida do Ferroviário atravessou este caminho pedregoso de provações. Nas últimas décadas, os Ferrão passou longe das competições nacionais e dos títulos estaduais, como se acostumou em períodos de sua história. Muito pior, sequer figurava na elite do Campeonato Cearense há dois anos. Mas a recuperação foi meteórica. E nesta quinta, os corais protagonizaram uma epopeia digna de figurar nas páginas mais nobres do livro de ouro do clube. Dentro da Ilha do Retiro, perdendo por três gols de diferença contra o Sport, o Tubarão arrancou o empate. Anotou três tentos nos últimos 15 minutos e decretou a igualdade em 3 a 3. Já nos pênaltis, se consumou a inimaginável classificação dos cearenses, rumo à terceira fase da Copa do Brasil. A apoteose.

Antes de começar a contar o episódio desta quinta, entretanto, um prólogo se faz necessário. Afinal, há um quê de acaso no sucesso do Ferroviário. Em 2016, os corais não conquistaram o acesso à primeira divisão do Campeonato Cearense. Contudo, terceiro colocado na segundona, o Ferrão acabou resgatado à elite graças à desistência do Alto Santo. Dono do famoso “Coliseu do Sertão”, o clube abriu mão da oportunidade justamente por problemas em seu elefante branco. Foi a brecha que os donos de nove títulos estaduais precisavam. E, uma vez no nível principal, o Tubarão fez bonito. Eliminou o Horizonte nas quartas e surpreendeu o Fortaleza na semifinal, alcançando a decisão do Cearense 2017. Os azarões não foram páreos ao Ceará, mas a campanha valeu demais. Garantiu um lugar na Copa do Brasil e da Série D na temporada seguinte.

Depois de 14 anos, o Ferroviário estava de volta à Copa do Brasil, para a sua sexta participação no torneio nacional. Na primeira fase, os corais já conquistaram um ótimo resultado, derrotando o Confiança por 2 a 1 no Presidente Vargas. O desafio, de qualquer maneira, seria consideravelmente maior na etapa seguinte. Sem sequer poder atuar dentro de sua casa, o Tubarão precisaria aguentar a pressão na Ilha do Retiro, enfrentando um adversário de Série A. Ninguém questionava o favoritismo do Sport no duelo. A classificação, porém, se restringe a uma noite. E, nesta noite, a garra dos cearenses fez toda a diferença.

Durante o primeiro tempo, o Ferroviário não se conteve a ser mero espectador em Recife. Tomou a iniciativa e ameaçou o gol rubro-negro, exigindo boas defesas de Magrão. Apesar disso, o Sport foi mais contundente e seguiu para o intervalo em vantagem. Após uma grande defesa de Bruno Colaço, Anselmo apareceu para emendar às redes e abrir o placar. O Leão, ainda assim, tinha as suas preocupações. Antes mesmo do primeiro tento, os pernambucanos perderam o centroavante Leandro Pereira, que se lesionou ao se chocar com uma placa de publicidade.

No início do segundo tempo, o Ferroviário ficou a um triz do empate. Valdeci carimbou o travessão. E no minuto seguinte, o imponderável parecia pesar contra os cearenses, quando Fabrício ampliou de cabeça. O Sport esboçava uma goleada e, depois de duas boas chances, uma delas brilhantemente defendida por Colaço, anotou o terceiro gol aos 26. Marlone tentava determinar uma vitória protocolar. Mas não foi a diferença no placar, o renome dos jogadores ou a festa da torcida pernambucana que faria o Tubarão desistir. O milagre estava guardado para os instantes finais.

A partir dos 30, surgiu o sopro de esperança. A postura agressiva do time, impulsionada pelo técnico Ademir Fonseca, surtiu efeito. Mazinho anotou o primeiro de cabeça, mas sequer comemorou, diante do foco na reação. Sete minutos depois, o volante apareceria de novo na área para soltar a bomba. Magrão tentou fazer a defesa, mas a bola, matreira, acabou entrando. Era só questão de acreditar. E aos 41, a partir de uma saída de bola errada do Sport, o Tubarão roubou a bola. Sávio acelerou, avançou pela esquerda e cruzou para Valdeci definir dentro da área. Entre os xingamentos nas arquibancadas e os gritos exultantes dos jogadores corais, a atmosfera indicava uma hecatombe na Ilha do Retiro. Mesmo assim, o Leão tinha a chance de sobreviver nos pênaltis.

Nem mesmo Magrão, uma lenda capaz de intimidar os batedores adversários, conseguiu resgatar o Sport. Uma atrás da outra, as cobranças eram convertidas. No quarto chute dos rubro-negros, então, Bruno Colaço apareceu. O goleiro do Ferroviário voou para espalmar o arremate de Rogério. Magrão arrancou gritos da torcida ao manter os pernambucanos vivos na penalidade seguinte, negando o tento ao veteraníssimo Mota – que voltou ao clube onde iniciou a carreira, após uma trajetória nomádica com passagens marcantes por Ceará e Cruzeiro. Mas não caberia a ele o papel de vilão. Quem brilharia seria um herói, defendendo a meta coral. Marlone tinha todo o peso da responsabilidade em suas costas e sucumbiu diante de Bruno Colaço, que mudou o canto e defendeu mais um chute. Desta vez, valendo a vitória por 4 a 3 e a classificação inesperada do Ferrão à terceira fase da Copa do Brasil, na qual aguardam o vencedor do duelo entre Vila Nova e Joinville.

As imagens da comemoração são emblemáticas. Colaço festeja muito e é abraçado pelos companheiros. Enquanto isso, alguns jogadores corais derramam lágrimas pelo feito. Em campo e nas arquibancadas, o Sport lamenta a eliminação que soava impossível até poucos minutos atrás. Mas entre vencedores e vencidos, esta é uma história para se exaltar o lado que se superou. Que confiou até os últimos instantes e reverteu uma situação completamente adversa. Que concretizou uma das classificações mais fantásticas já vistas na Copa do Brasil. No atual formato das fases iniciais da competição, talvez a mais fantástica.

Com boa campanha no Cearense 2018, ocupando a segunda colocação, mas ainda sem vencer na Copa do Nordeste, o Ferroviário mira um ano grandioso. Avança à próxima etapa da Copa do Brasil, de olho não apenas em uma campanha histórica, mas também na bolada que o torneio oferece. Algo importante para fortalecer o planejamento e também se preparar à Serie D a partir de abril. As perspectivas são boas, e dignas da grandeza do Tubarão. Dignas da façanha ocorrida na Ilha do Retiro, que se impregnará na mente dos torcedores corais por muito tempo. A provação dos anos anteriores, agora, ganha sentido. Serviu para elevar o épico transcorrido naqueles 11 minutos estrondosos, que valeram por anos de sofrimento à torcida coral.