Cassano e Donadoni são os líderes do Parma no Italiano

Dentro e fora do campo, por que o Parma é um dos times mais interessantes da Serie A

Times médios que já tiveram dias gloriosos resolveram aprontar este ano na Serie A italiana. Primeiro, o Verona, que voltou à elite após 11 anos, virou sensação ao fazer um ótimo primeiro turno, com apenas uma derrota em seus domínios. Depois, foi o Torino que deu uma arrancada e ensaiou brigar por uma vaga na Liga Europa. Hoje, essas duas equipes se encontram em posições intermediárias na tabela, mas podem se dar por satisfeitas em fazer um campeonato positivo. Porém, é outro time, que brilhou muito nos anos 90, que é a verdadeira surpresa deste campeonato: o Parma, treinado pelo ex-jogador Roberto Donadoni e comandado pelo atacante Antonio Cassano.

Hoje, a equipe azul e amarela ocupa a 6ª posição na Serie A, com 46 pontos, um jogo a menos e uma sequência de 16 partidas de invencibilidade – nove vitórias e sete empates; oito vitórias nos últimos dez encontros. O crescimento parmense só poderia fazer os amantes do futebol italiano relembrarem aquela equipe que, com forte investimento da Parmalat, antiga gigante dos latícinios, brilhou duas décadas atrás, e que entre 1991 e 2004 ficou entre os seis primeiros colocados do campeonato em todas as edições, com exceção de 2001-02, quando bateu a Juventus na final da Coppa Italia.

Antes de analisar o que acontece em campo, é preciso marcar uma diferença: na versão remodelada deste Parma, não há Parmalat ou qualquer investidor de alto calibre. Ao contrário, ao invés do investimento irresponsável que culminou na falência da sociedade, em 2004, há um grande rigor nos gastos como um dos pilares da equipe. Primeiro, porque o novo clube, que foi fundado em 2004 sob a alcunha de Parma FC, ao invés do antigo Parma AC, herdou, além das glórias, as dívidas do clube. E, também, porque o seu presidente desde 2007, o industrial Tommaso Ghirardi, de 38 anos, não é dos homens mais ricos do mundo.

Amarrando os cintos o máximo que pode – afinal, Ghirardi é um senhor, digamos, bem robusto –, o dirigente conduz a equipe com uma linha de pensamento clara, após os primeiros percalços como dono do Parma, cuja desorganização acabou levando-o à segunda divisão. Depois de um mau início na própria Serie B, Ghirardi apontou Francesco Guidolin como técnico do time. Os gialloblù cresceram de produção e retornaram à elite com o vice-campeonato.

No ano seguinte, conseguiram um excelente 8º lugar na elite, graças a um time muito organizado, que partia em velocidade e explorava os flancos, mas mantendo muita força física e garra no centro do campo. O esquema tático alternava entre o 3-5-2 e o 4-3-3, graças à versatilidade das peças. Isso acabou se tornando praticamente um pré-requisito filosófico para ser treinador do Parma e, na única temporada em que o treinador – no caso, Pasquale Marino, em 2010-11 –, ousou mudar um pouco, o time caiu um pouco de rendimento. Desde que voltou à Serie A, em quatro temporadas o Parma ficou entre os 10 primeiros colocados em três – em 2010-11, caso Franco Colomba tivesse assumido antes, a história poderia registrar algo além do 12º posto.

Em 2009, quando o Parma voltava à elite, outro responsável pela boa fase que estava por vir chegou ao clube. Naquele momento, o presidente contratou Pietro Leonardi, de boa passagem como responsável pelas categorias de base da Juventus e como diretor da Udinese para assumir o futebol da equipe. Com boa rede de olheiros e um bom networking, Leonardi levou à Emília-Romanha alguns bons talentos, e também costurou parcerias importantes com Juventus e Inter, além de times menores, como Gubbio e Nova Gorica, que recebem alguns talentos parmenses, que lá amadurecem e, como de grão em grão a galinha enche o papo, dão retorno financeiro a uma equipe que, hoje, tem quase 150 atletas sob contrato, girando por times de todo o mundo.

Toda esta reorganização interna passa ainda por certa austeridade nos gastos da equipe, como mencionamos anteriormente. Para a construção do atual elenco parmense, Ghirardi gasta “apenas” 29,5 milhões de euros por ano, o que corresponde apenas à décima maior folha salarial do país. O técnico Donadoni fatura 900 mil/ano e Cassano, destaque do time, é o único jogador da equipe que fatura mais de 1 milhão anuais (na verdade, ele ganha apenas 100 mil a mais que o teto). Números condizentes com a realidade de uma equipe de meio de tabela. Com apenas um ponto a mais, a Inter gasta quase 70 milhões de euros a mais por temporada; e a Fiorentina, 30. O Milan, que está abaixo dos gialloblù, gasta quase 80 milhões a mais.

Para Ghirardi, os dois grandes artífices deste Parma são Leonardi, já citado, e para o qual o dirigente procura renovar-lhe o contrato por mais três temporada, e Donadoni, contratado em janeiro de 2012 e com contrato chegando ao fim. O presidente ducale já declarou que gostaria de renovar o contrato com o treinador, mas também admitiu que não lhe “cortará as asas”, porque ele “merece ter uma carreira como treinador tão brilhante como a que teve como jogador”.

Donadoni, não é de hoje, é cotado para assumir o Milan, clube em que foi ídolo no meio-campo. Como Seedorf está pressionado, as especulações ressurgem, sobretudo depois da vitória do Parma sobre o Diavolo em pleno San Siro, por sonoros 4 a 2. Uma vitória que, como o próprio Donadoni ressaltou, não foi a melhor partida do Parma na temporada – é bom lembrar que os ducali fizeram jogos duros contra Inter, Fiorentina, Juventus e ainda venceram o Milan outra vez e também passaram por cima de Napoli e Verona.

Os méritos são, claro, de Roberto Donadoni, que assumiu a equipe em janeiro de 2012 e desde então faz seu trabalho mais convincente na carreira, juntamente com o que realizou no pequeno Livorno, em 2004 e 2005. Donadoni fracassou na seleção da Itália e no Napoli, logo depois de sair da Toscana, e teve um parêntese positivo no Cagliari entre o primeiro bom trabalho e o atual. Não à toa é cobiçado pelo Milan.

Afinal, é um feito levar este Parma à zona de classificação europeia, recuperando Cassano, Amauri, Biabiany, Schelotto, Marchionni, Palladino, Cassani e contando com um elenco mediano, com jogadores que se esforçam muito – casos de Mirante, Paletta, Parolo e Lucarelli, os quatro, assim como Cassano, cotados para a seleção italiana. Sob o comando de Donadoni, que usa o 4-3-3 como base, alternando para o 3-5-2, o Parma atingiu números que o colocam com o quinto melhor ataque e a quinta melhor defesa do torneio. Alguns jogadores atingiram o auge da carreira, e lideram estatísticas em seus setores – caso de Lucarelli, um dos mais hábeis defensores em roubadas de bola e interceptações de jogadas.

Cassano é um caso à parte. Donadoni talvez tenha sido um dos treinadores que melhor o conseguiu domar, seja na seleção italiana, entre 2006 e 2008, quando o técnico reabriu as portas ao jogador, que acabou sendo deixado de fora da Copa de 2006 por não jogar muito pelo Real Madrid. Donadoni diz que para gerir Cassano basta que os dois entrem um pacto: “ele joga onde eu o coloco, é simples”, disse o treinador. Jogando muitas vezes mais próximo ao gol, como falso 9, Cassano parece adaptado, porque consegue dar mais vazão a seu vasto repertório técnico. “E ainda corro menos”, regozijou-se um preguiçoso Cassano, em entrevista à Gazzetta dello Sport.

Os números de Cassano neste ano são, de fato, ótimos. É o jogador que criou mais ocasiões de gol, segundo dados do Corriere dello Sport – 71, 15 a mais que o segundo colocado, Pjanic –, além de ter marcado 11 gols e ter sido responsável por cinco assistências – lidera os dois quesitos entre os jogadores do Parma. Além disso, alguns dos gols e assistências são verdadeiras obras-primas.

Por isso, já se pede Cassano na seleção de Prandelli, e até mesmo ele, que nunca teve a oportunidade de jogar uma Copa do Mundo, engrossou o coro da campanha e pediu que Prandelli considere trazê-lo ao Brasil. O técnico não fechou as portas e disse que ele está entre os jogadores que podem, sim, serem convocados para o Mundial.

Antes, porém, Cassano e toda a equipe precisam continuar na mesma toada. Ou superá-la. Afinal, dificilmente Fantantonio voltará a jogar em um time grande e poderá renovar seu contrato com o Parma, onde se sente bem. E, uma vez que seu time tem um jogo a menos (uma parada dura, é verdade, contra a vice-líder Roma, fora de casa), as chances de continuar no grupo de equipes que se classificam à Liga Europa são grandes – hoje, são cinco pontos à frente da Lazio, 7ª colocada. Sonhar com a Liga dos Campeões pode ser muito (inclusive para Fiorentina e Inter, que também perseguem o Napoli, terceiro colocado), mas os parmenses tem o direito de cogitar voos mais altos.