Alejandro Burzaco deu um depoimento que causou rebuliço nesta terça-feira. O ex-executivo da Torneos y Competencias, empresa que organizava e vendia os direitos de TV das competições sul-americanas, disse que Globo e Fox Sports pagavam propina para poderem transmitir os torneios da Conmebol. O executivo citou nomes de dirigentes que receberam propina, incluindo Marco Pólo Del Nero, atual presidente da CBF. Outros, como José Maria Marin, que é réu no julgamento que Burzaco depôs, e Ricardo Teixeira, ambos ex-presidentes da entidade, também foram citados.

LEIA TAMBÉM: O poder de Burzaco na AFA o permitia mudar horários dos jogos com aval de Grondona

Executivo comandava direitos de TV na América do Sul

No dia 27 de maio de 2015, Burzaco estava em Zurique, no Congresso da Fifa, mas não foi preso. Escapou de forma cinematográfica, fugindo para a Itália, país do qua possui passaporte. Dias depois, acabaria vendo o seu nome entre os indiciados por corrupção e esquemas de fraude pelos direitos de TV, com suborno de dirigentes. Se entregou às autoridades dos Estados Unidos no dia 10 de junho de 2015.

Burzaco fez um acordo de delação premiada, algo que nos acostumados a ver no Brasil com a operação Lava Jato. É por esse acordo que ele tentou amenizar a sua pena em troca de detalhar as ilegalidades que presenciou. Os advogados dos três réus do processo em que depôs, Marin, Napout e Burga, tentaram tirar a credibilidade de Burzaco ao dizer que ele recebeu um acordo benéfico para confessar os crimes. Os três se declararam inocentes antes do julgamento.

Além da Globo, no Brasil, e Fox Sports, dos Estados Unidos, Televisa, do México, Media Pro, da Espanha, Full Play, da Argentina e a Traffic, também do Brasil, pagaram propinas a dirigentes da Conmebol. Segundo Alejandro Burzaco, só o Grupo Clarín não pagou propina, entre as empresas que fizeram acordos com a Torneos y Competencias.

Quando a operação do FBI com o Departamento de Justiça dos Estados Unidos e deflagrou a operação que ficou conhecida como Fifagate, em maio de 2015, nós dissemos que a prisão de Burzaco poderia abrir a caixa preta da Libertadores na TV. Como principal executivo, ele teria as chances de como os direitos de TV eram negociados e seu depoimento no Tribunal do Brooklin nesta terça-feira, mais de dois anos depois da prisão, coloca luz sobre suspeitas de muitos anos sobre a venda de direitos de TV da Libertadores. E isso fica evidente com o depoimento de Burzaco, que disse que um dos parceiros era informado sobre o pagamento de propina: a Fox Pan American Sports.

A Fox Pan American Sports é a empresa que dirige os canais esportivos em espanhol da Fox nas Américas do Norte, Central e do Sul. É quem dirige a Fox Deportes, nos EUA, além dos canais Fox Sports em toda América Latina. Além de tudo isso, a Fox Pan American Sports comprou 50% da Torneos & Traffic, uma empresa usada para pagar as propinas aos dirigentes. Em 2005, a Fox Pan American Sports aumentou a participação no grupo para 75%. Ficou assim até maio de 2015, quando o Fifagate explodiu.

Os valores pagos por direitos de TV, especialmente da Libertadores, principal competição do continente, são obscuros. Não eram divulgados pela Conmebol e não havia um processo de licitação transparente. Isso contribui para que os clubes recebessem pouco pelas suas participações e como premiação – a ponto do Campeonato Paulista ter pago mais que o torneio sul-americano em alguns anos.

Esquema de propina

O esquema de propinas era pago via Torneos & Traffic, uma empresa formada pela Torneos e Competencias e que tinha a participação, como descrita acima, da Fox Pan American Sports, que se tornou majoritária em 2005. A empresa, com sede na Holanda, era dona dos direitos da Libertadores, Sul-Americana e Copa América.

Segundo documentos do Panama Papers, a Globo e a T&T tiveram contrato por 11 anos, de 2005 a 2016, rompido após o escândalo. A emissora pagou em média US$ 16 milhões por ano para transmitir a Libertadores. Quando a Conmebol rompeu o contrato com a T&T, já com novo presidente em 2016, a Globo entrou com um processo para manter o contrato ativo. O acordo era válido de 2015 a 2018 e a Globo pagaria US$ 10,8 milhões por ano para transmitir a Libertadores. Um valor menos do que a emissora carioca pagava pelo Campeonato Paulista.

CBF no centro da propina, com Grondona no comando

O esquema de corrupção envolvia os dirigentes e empresas abertas em paraísos fiscais para elaboração de contratos e, assim, o dinheiro era pago aos cartolas. Além de José Maria Marin, réu do processo, foram citados também o atual presidente da CBF, Marco Pólo Del Nero, e também Ricardo Teixeira, que presidiu a entidade de 1989 a 2012, quando renunciou.

Questionado pelo promotor sobre para quem pagou propina, Burzaco apontou para os réus, Juan Napout, Manuel Burga e José Maria Marin. Perguntado sobre o período, o ex-executivo especificou: “Para Marin, de 2012 até 2015. Para Burga, de 2010 a 2013. Para Napout, de 2010 e 2015”.

O depoimento de Burzaco aponta um representante da Globo como presença em encontros e inclusive alguém que validou o pagamento das propinas: Marcelo Campos Pinto, ex-executivo da emissora. Era ele que negociava os direitos de transmissões esportivas em nome da Globo até 2015, quando deixou o cargo – justamente o ano que o Fifagate explodiu.

Segundo o depoimento de Burzaco, Ricardo Teixeira recebeu US$ 600 mil por ano pelos contratos da Libertadores de 2006 a 2012, quando renunciou. “De 2006 a 2012, pagamos US$ 600 mil por ano, em contas bancárias indicadas por ele ou seu secretário pessoal, Alexandre [Silveira]”, afirmou Burzaco.

O grande articulador da propina no futebol sul-americano era Julio Grondona. Segundo o depoimento de Burzaco, era o ex-presidente da AFA que decidia quem recebia mais dinheiro e quem recebia menos. O executivo diz que subornou Grondona de 2005 até sua morte em julho de 2014.

A saída de Teixeira trouxe toda uma articulação de passagem de bastão, segundo o depoimento prestado à justiça americana, para os pagamentos passarem de Teixeira para seus sucessores, Marin e Del Nero. “Depois que Grondona morreu, em julho de 2014, as pessoas que conheciam todo o esquema de pagamento de propinas eram Juan Angel Napout e Marco Polo Del Nero”.

Burzaco disse que Marcelo Campos Pinto, representando a Globo, participou dessa passagem de bastão. Ele presenciou a reunião em que Teixeira pede para que o dinheiro que recebia passe a Marin e Del Nero. Perguntado como foi a distribuição do dinheiro para os dirigentes brasileiros após a renúncia de Teixeira, Burzaco detalhou.

“José Maria Marin virou presidente da CBF e Marco Polo Del Nero assumiu o lugar de Teixeira no Comitê Executivo da Fifa. Na Conmebol eu não lembro quem estava, porque eles eram como gêmeos siameses, estavam sempre juntos, recebiam o mesmo tratamento”, contou o depoente.

“Em abril de 2012, houve uma reunião em Buenos Aires com Del Nero, Marin, Julio Grondona (então presidente da AFA) e Alexandre da Silveira, secretário da CBF e eu. Ricardo Teixeira não estava, mas falou por telefone com Grondona para explicar que havia renunciado, que Marin e Del Nero o substituiriam e que deveriam ter o mesmo poder que ele tinha na Conmebol. Disse que os US$ 600 mil deveriam ser pagos a eles”, revelou Burzaco em depoimento.

Dois ou três meses depois, Grondona, Marin, Del Nero, Alexandre Silveira (representantes de Ricardo Teixeira) se reuniram em Buenos Aires, o restaurante Tomo 1. Estavam também Burzaco e Marcelo Campos Pinto, que teria dado a bênção ao acordo. Havia propina da Copa América, na época, ainda a ser paga, porque Teixeira não recebeu, cerca de US$ 2 milhões. Marin e Del Nero dividiram o dinheiro.

O promotor perguntou como Marin e Del Nero foram pagos. “O primeiro pagamento, em 2012, foi da mesma maneira que fazíamos para Ricardo Teixeira: em contas bancárias em lugares distantes (como Ásia e Oriente Médio), em nome de pessoas que nunca tínhamos ouvido falar. O dinheiro inicialmente saía de contas da própria Conmebol. Depois isso mudou. Criamos empresas que transferiam o dinheiro para eles”, contou.

Em dezembro de 2012, seis meses depois da renúncia de Teixeira, houve um novo encontro com Burzaco. O motivo? O Brasil queria mais dinheiro de propina. A reunião aconteceu em Assunção, no Paraguai, durante um evento da Conmebol, e teve como presentes Grondona, Marin e Del Nero.

“Grondona me disse que o Brasil é poderoso, que eles [Marin e Del Nero] são dois e que os US$ 600 mil já não eram suficientes, pois tinham que dividir o dinheiro. Então me pediu para aumentar o valor da propina para US$ 900 mil, ou US$ 450 mil para cada um. E eu concordei. Nós criamos empresas e começamos a transferir o dinheiro”, explicou Burzaco.

Nota da Globo sobre o ocorrido

Em nota, Marco Pólo Del Nero negou todas as acusações. Assim como fez também Ricardo Teixeira, questionado pelo site Globoesporte.com. José Maria Marin não se manifestou, como esperado, já que está em pleno julgamento. Marcelo Campos Pinto também não se manifestou a respeito do caso.

A Globo negou qualquer pagamento de propina e diz que já conduziu uma investigação interna sobre o assunto. Veja a nota da TV Globo:

” Sobre o depoimento ocorrido em Nova York, no julgamento do caso FIFA pela justiça dos Estados Unidos, o Grupo Globo afirma veementemente que não pratica nem tolera qualquer pagamento de propina. Esclarece que, após mais de dois anos de investigação, não é parte nos processos que correm na justiça americana. Em suas amplas investigações internas, apurou que jamais realizou pagamentos que não os previstos nos contratos. O Grupo Globo se surpreende com o relato envolvendo o ex-diretor da Globo Marcelo Campos Pinto. O Grupo Globo deseja esclarecer que Marcelo Campos Pinto, em apuração interna, assegurou que jamais negociou ou pagou propinas a quaisquer pessoas. O Grupo Globo se colocará plenamente à disposição das autoridades americanas para que tudo seja esclarecido. Para a Globo, isso é uma questão de honra. Os nossos princípios editoriais nem permitiriam que seja diferente. Mas o Grupo Globo considera fundamental garantir aos leitores, aos ouvintes e aos espectadores que o noticiário a respeito será divulgado com a transparência que o jornalismo exige”.