Cristina Kirchner transformou o futebol argentino em questão de Estado, e em um péssimo sentido. O esporte mais popular do país é usado largamente como ferramenta de legitimação das políticas da presidente da República. E, no universo da política, sempre é preciso dar algo em troca quando se pede algo.

Por isso, não surpreende quando o Olé publica uma reportagem em que Kirchner é mencionada por um líder de barra brava como alguém que daria suporte político aos Borrachos del Tablón, a torcida organizada do River Plate. E muito menos que Daniel Passarella, ídolo e presidente do River, teve prisão decretada por ceder ingressos de sócios pouco assíduos no estádio para serem renegociados pelos barras bravas. Ninguém está realmente disposto a fazer algo contra elas devido ao poder que conquistaram.

Veja como é grande a relação entre governo argentino e o futebol:

Mídia

A TV estatal comprou os direitos de transmissão das duas principais divisões do Campeonato Argentino. Para isso, estabeleceu um valor acima do mercado e apareceram como salvação de muitos clubes (mesmo os grandes) endividados. O retorno disso se dá pelo monopólio do campeonato, e por uma mudança no esquema de horários. A rodada é toda picotada em diversas faixas de horário, para que praticamente todos os jogos sejam transmitidos ao vivo pela TV.

Clubes

A compra dos direitos Campeonato Argentino por valores acima do mercado foram muito apreciados pelos clubes. Mas o governo ainda tem usado o futebol como forma de reforçar a política de descentralização do país (historicamente muito focado na Grande Buenos Aires). Estádios de cidades provinciais foram reformados e ampliados, e ainda receberam eventos como a Copa América e o Desafio das Américas.

Barras bravas

Em certo aspecto, as organizadas funcionam como uma polícia política alternativa. O governo reconhece a força de mobilização, articulação e intimidação dos barras bravas. Tê-los como opositores poderia causar dores de cabeça em momentos de crise, sobrretudo nesse projeto de poder que usa o futebol. A saída foi realizar uma aliança. O próprio Olé denunciou, em 2010, que o governo pagou a viagem de torcedores organizados para a Copa na África do Sul e, depois, para que eles protagonizassem uma festa na recepção da seleção eliminada nas quartas de final pela Alemanha.

O repórter Gustavo Grabia, especialista de barras bravas do Olé e responsável pelas reportagens conta Kirchner e Passarella, concedeu uma entrevista à Trivela em 2012 e contou como é difícil quebrar esse poder das organizadas no futebol argentino. Confira.