O presidente da Fifa, Gianni Infantino, participou de uma reunião de dirigentes da Fifa em Nouakchott, na Mauritânia. O ítalo-suíço falou sobre expandir os Mundiais da categorias de base, sub-17 e sub-20, de 24 times para 48, como será a Copa do Mundo adulta a partir de 2026. E também falou de uma outra mudança significativa: a criação de uma Liga Mundial Feminina, de forma a ter mais uma boa competição nessa modalidade.

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A escolha da Mauritânia para o encontro da Fifa não é por acaso, claro. É parte da política da entidade de ir até os menores países, que são menos poderosos, esportiva e financeiramente, e mostrar que serão ouvidos. Nada diferente da política criada por João Havelange depois de assumir a Fifa, em 1974, e depois com Joseph Blatter, a partir de 1998.

Infantino tem desenvolvido a mesma estratégia. Isso, por si, não é ruim. As nações menores podem e devem ser ouvidas. O problema é tornar isso uma forma de manutenção do poder, deixando de lado a questão esportiva, como foi a expansão da Copa para 48 times. A escolha da Mauritânia, um país no noroeste africano, foi para ouvir muitas reclamações. E estar lá dá a Infantino uma credibilidade para esses países menores. A próxima será em Lagos, na Nigéria, já um país muito mais forte no continente.

Expansão de Mundiais de base

A Copa do Mundo é a principal competição da Fifa, mas os mundiais de categorias de base costumam ser também um grande instrumento político para países menores sediarem, por exemplo. E um dos pedidos que Infantino ouviu foi de expandir o número de times na competição, uma ideia que ele já quer tornar realidade.

“Eu garanto a você que nós iremos levar mais em conta quando se trata de futebol de jovens garotos e garotas. Nós planejamos ir de um torneio de 24 times no masculino para 48. Para as meninas, nós queremos ir de 16 times para 24. Nós estamos estudando a transição de datas limites bienais para anuais, mas não para todas categorias, apenas para sub-18 e sub-19. O debate segue aberto”, afirmou Infantino.

Liga Mundial Feminina

Um dos pontos que chamou a atenção na fala de Infantino foi a criação de uma nova competição do futebol feminino, que pode empolgar bastante a categoria. “Nós também estamos pensando em criar uma Liga Mundial Feminina, assim todas as federações podem participar porque não podemos perder de vista o fato que 50% da população do mundo é feminina”, afirmou o presidente da Fifa.

Ainda é apenas uma ideia e Infantino não deu detalhes de como funcionaria esse novo torneio. “Não tomamos decisões [na reunião]; o objetivo é ouvir as federações porque eu quero uma Fifa muito mais democrática. Nós iremos tomar as decisões depois, já que temos um Conselho da Fifa em março de 2018 e um Congresso em junho”, disse Infantino.

Combate à corrupção

O Fifagate foi devastador na Fifa e, em última instância, foi o responsável por mudar o poder e tirar Blatter do cargo, além de outras lideranças pelo mundo, especialmente na América do Sul, e também levar Infantino ao poder. E o discurso, ao menos, é de que a nova Fifa combate a corrupção e o enriquecimento ilícito.

“Nós nunca vamos aceitar que as pessoas estão ficando mais ricas. Eu não sei se é uma frase chocante, porque não é a primeira vez que eu disse. Com isso eu quero dizer, tolerância zero para qualquer tipo de corrupção. A Fifa tem que ser honesta. Todo mundo tem que perceber que não pode agir como antes. Não sou eu que digo, são os juízes [do esporte]”, declarou o dirigente máximo da Fifa.

“Nós estamos pedindo que cada federação de futebol assine um contrato com a Fifa que foca em prestação de contas. Nós estamos monitorando e auditando centralmente para garantir que os fundos sejam usados apropriadamente”, continuou Infantino.

Mudanças nas transferências

Com os valores de transferências atingindo patamares inéditos e recordes sendo quebrados seguidamente, há uma grande preocupação com a questão financeira no futebol. Inclusive com pagamento de comissões milionárias para empresários. Ao mesmo tempo, há uma preocupação com o futebol de base, que não tem se beneficiado da movimentação de transferências dos times maiores e mais ricos.

“Nós estamos nos movendo na direção de ter regras mais restritas na transferência de jogadores”, afirmou Infantino. “Nós iremos focar no treinamento e na compensação que o clube que treinou o jogador receba no caso da transferência do jogador. Nesse ponto, nós sabemos que há interesses diferentes em jogo. Mas a Fifa tem que tomar decisões para proteger os jogadores”.

O assunto é particularmente sensível no futebol africano, onde a reunião ocorria, já que muitos jogadores saem ainda adolescentes dos clubes formadores rumo à Europa, mais rica e atraente para os jovens. Segundo pesquisas da FifPro, que representa os jogadores no mundo, mostrou que que os atrasos de pagamentos são mais frequentes na África que em qualquer outro lugar do mundo. A pesquisa é de 2016.

Copa de 2022

“Nós estamos focados na Copa do Mundo da Rússia 2018. Mas eu tenho que admitir que eu estou satisfeito com o progresso no trabalho no Catar. Eles estão adiantados. Nós teremos uma Copa do Mundo 2022 maravilhosa”, disse Infantino, quando perguntado sobre Copa do Mundo.

A Fifa precisa mesmo olhar para os países menores e pensar em regras mais restritas para transferências, de modo a proteger o jogo e os menores times e o futebol nos países menos ricos. Por outro lado, se não fizer um controle bastante forte do dinheiro, o que vimos foi que os países menores, em alguns casos, se tornaram grandes focos de corrupção, como Jack Warner se especializou a fazer nos países do Caribe, onde era presidente da Concacaf. Ou seja: é um trabalho árduo que a Fifa terá e precisa de uma competência enorme. Além de honestidade.

Vale também falar sobre o que a Fifa exige nos países que sediam o seu evento. A Copa do Mundo se tornou um evento caríssimo e que deixa uma herança maldita. As Copas de 2018 e 2022 já estão perdidas nesse sentido, com gastança desmedida em países de pouquíssima transparência. No Brasil, vimos os estragos que as exigências insanas da Fifa causaram. Se a nova Fifa quer mudar, tem que mudar a forma como organiza Copas do Mundo. A começar por 2026, a primeira Copa inteiramente nessa nova gestão. Aparentemente, isso está acontecendo.

A candidatura de Estados Unidos, México e Canadá escolheu lugares onde já existem estádios grandes, onde não sejam necessárias grandes obras, como a construção de estádios gigantes e superfaturados. Seria um começo. Tímido, mas um começo. A Copa do Mundo não precisa de estádios com recursos que nunca mais serão usados. Deveria ser um evento catalizador do futebol, e não algo que drene os recursos e destrua o futebol no país.

A união de uma Fifa parasita e governos corruptos causou o que vemos no Maracanã: um estádio histórico, icônico e o mais importante do futebol brasileiro abandonado em uma concessão absurda de uma empresa afogada em processos de corrupção. A mudança tem que começar com aquilo que depende diretamente da Fifa. E pode começar daí.