Um time que ganha a sua liga nacional pela sexta vez consecutiva e a copa do país não pode ser considerado um fracasso, certo? Mesmo assim, Massimiliano Allegri, da Juventus, sentiu o gosto amargo do fracasso após ver o time perder a final da Champions League para o Real Madrid, no dia 3 de junho. A segunda derrota nessa fase da competição em três anos. O técnico confessou ter ponderado se era o fim da linha para ele na Juventus. E, em uma comparação interessante do futebol com a ópera, decidiu continuar, depois de lembrar da razão que o fez virar técnico de futebol.

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O relato está no Players’ Tribune, onde o técnico conta as agruras que sentiu após aquela derrota. Como o gol de Mario Manduzkic o fez sonhar que, desta vez, o time ganharia o título, ao contrário do que aconteceu contra o Barcelona dois anos antes. Não aconteceu. Curiosamente, ele diz, deixou o campo aquele dia tranquilo.

“Foi uma magnífica sequência técnica dos nossos jogadores na construção da jogada e uma finalização bonita de Mandzukic. Na minha mente, é um gol que não irá se repetir. Mostra a diferença que leva um clube a chegar à final da Champions League. Você não pode apenas ser ótimo. Você tem que ser especial”, escreveu o treinador italiano.

“Nós temos jogadores especiais. Infelizmente, o Real Madrid tem muitos deles. No segundo tempo, eu sabia que nós simplesmente não tínhamos as ferramentas ou as peças necessárias que precisávamos. Nós tínhamos dois jogadores que mal podiam ficar de pé por causa de lesões e os jogadores do Real Madrid jogou uma partida muito inteligente. Eles estavam relaxados. Eles estavam confortáveis”, contou o jogador.

“Para chegar à final, você precisa de talento e sorte. Para vencê-la, você precisa ser o melhor time. E isso pode soar estranho, mas eu na verdade caminhei para fora do campo naquela noite com paz na minha mente. Porque eu sabia que nós não fomos o melhor time. Era simples assim”, disse. “Eu deixei Cardiff com o time e voltei à Itália. Na noite seguinte, quando eu fui para casa, eu tive que me fazer uma pergunta muito difícil: é o fim do caminho? Esse é o mais longe que eu posso levar esse time?”, relatou o treinador. “Eu pensei se eu deveria escrever o meu capítulo final da minha história na Juventus. Parte de mim pensava em caminhar na segunda e respeitosamente pedir demissão”.

Allegri, então, diz que se lembrou da razão que se tornou técnico: ele queria ser professor. Mais do que isso: queria ser o diretor. Il preside. E lembrou de uma passagem que o técnico considera a mais importante da sua carreira. Não é uma vitória marcante, um título, sequer um momento alegre.

“Foi o dia que eu entrei nos escritórios do Milan e fui demitido. Não foi uma surpresa, de modo algum. Eu sabia que seria demitido. Eles foram respeitosos. Eles me disseram, cara a cara, que eu não poderia mais ser o técnico. Mas isso não tirou a minha decepção. Você sabe, na sua cabeça, que ser demitido é parte da vida como técnico, mas isso não te impede de sentir, no seu coração, que você falhou”, contou Allegri. “Quando eu deixei o Milan, eu vi isso como um fracasso do meu trabalho”.

“Quando cheguei à Juventus há três anos, eu não mudei muito no começo. O clube teve muito sucesso com Conte. Mas lentamente, com novos jogadores chegando, eu mexi nas coisas, construí o time como eu vi – áreas onde jogadores poderiam trabalhar juntos, como podíamos ser mais fortes no ataque, como poderíamos ser mais flexíveis taticamente”, contou o treinador.

“Naquela temporada, nós chegamos à final da Champions League juntos. Eu senti como a noite de abertura em La Scala [uma famosa casa de ópera, em Milão]. O trabalho que vai nela. O número de pessoas assistindo. A atmosfera, a emoção. A ansiedade. Não há nada como isso. Foi como uma ópera”, descreveu Allegri. “Se não tivesse terminado em derrota para o Barcelona. Eu estava muito decepcionado, mas eu pensei ter aprendido as lições daquela derrota”.

“Quando chegamos em outra final de Champions League contra o Real Madrid nesta temporada, eu realmente pensei que nós tínhamos resolvido o que faltava e o que precisávamos fazer, tecnicamente e taticamente. Especialmente quando Mario marcou seu brilhante gol, eu pensei: ‘talvez seja o nosso momento’. Claramente, não foi o caso”.

“Há valores que tenho em mim. Há muita pressão nesse nível de futebol, e tem que ter. Mas eu tento lembrar por que eu faço isso. Eu não penso em mim mesmo como um técnico. Eu penso em mim mesmo como um treinador de categorias de base. Eu faço isso porque eu amo ensinar. É verdadeiramente o prazer da minha vida. Eu gosto de tornar os jogadores melhores e mais inteligentes”, contou Allegri.

“Então, quando eu pensei sobre esse elenco da Juventus, minha decisão se tornou pessoal. Eu sei que ainda tenho muito a provar. E eu ainda tenho muito a ensinar. Então, aquela noite, antes de ir para a cama, eu decidi que se o clube estivesse comigo na minha estratégia e nós pudéssemos seguir juntos, então eu continuaria”, afirmou.

“Na manhã seguinte, estava claro na minha cabeça. Eu fui para o meu escritório às 7 da manhã e tomei o meu café expresso. Era uma nova temporada, com novas oportunidades. Muito foi dito na imprensa sobre este time e os jogadores. O que podemos fazer, o que não podemos fazer. Para mim, eu olho para Paulo Dybala e Gigi Buffon. De certa forma, eles são o símbolo deste time”, analisou o treinador.

“Eu vejo Dybala como um garoto brilhante a ponto de começar o seu primeiro ano na escola. Buffon, com uma Copa do Mundo, está para obter o seu mestrado. Um com a sua carreira toda à frente, e um perto do final. Um que quer mostrar que ele pode ser um dos grandes na Europa. Outro que já é um dos grandes, mas quer terminar o seu legado no topo”.

“Eu sei que podemos reconstruir dos escombros de Cardiff. Eu sei que podemos ter uma grande temporada. Eu sei que podemos fazer uma grande campanha na Champions League. Eu sei o que será amanhã de manhã. E a próxima manhã. E a manhã seguinte. Então, nós temos apenas que continuar trabalhando. Nós iremos tentar iremos tentar chegar novamente à noite de abertura em La Scala mais uma vez. A coisa boa de ópera é que há um novo espetáculo todo ano”.