Oberdan Cattani (Divulgação)

Depois de glórias e decepções, Oberdan morreu antes da última homenagem

Era uma casa simples, entre ladeiras e paralelepípedos, com um portão de metal separando a rua do morador ilustre, daqueles bigodes tão negros e bem alinhados quanto o cabelo, das mãos grandes demais para um ser humano comum, mas de um tamanho muito conveniente para quem ganhou a vida colocando-as entre a bola e o gol. Oberdan Cattani comprou-a quando a sua missão ainda era defender as metas do Palmeiras. E morou nela até a noite da última sexta-feira, quando morreu, aos 95 anos.

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“Comprei com o dinheiro da seleção”, contava Oberdan. Referia-se à seleção brasileira e à paulista, orgulhoso particularmente por defender o seu povo, na época em que o Campeonato Brasileiro era disputado por times estaduais. Em segundo lugar na lista de orgulhos do ex-goleiro, logo depois de ser palestrino, estava ser paulista. Não permitia que falassem mal da terra onde nasceu, cresceu dirigindo caminhões e virou lenda frustrando atacantes. Uma das histórias que conta com o peito mais estufado versa sobre a vez em que quase terminou nas vias de fato uma discussão com o ponta direita Nestor, falastrão, sempre com algo de ruim para falar de São Paulo na ponta da língua. Bairrismo típico daquela época, que não era exclusividade de Oberdan. “Você está em São Paulo, comendo e bebendo em São Paulo, ganhando dinheiro de São Paulo. Tem que falar bem de São Paulo”, disse ao ex-jogador de Vasco e Flamengo, segundo ele, antes da conversa se tornar mais violenta.

O orgulho transbordava de Oberdan a cada frase. Principalmente ao lembrar que defendeu o Palmeiras por 14 anos, sob dois nomes diferentes. Estreou quando o clube ainda se chamava Palestra Itália e entrou em campo junto a uma bandeira do Brasil para conquistar a torcida que vaiava o time que, aos seus olhos, representava o inimigo, sob o discurso minimalista do ditador Getúlio Vargas e no contexto da Segunda Guerra Mundial. E também para conquistar o Campeonato Paulista de 1942, da arrancada heroica, nome de viaduto nas cercanias do Parque Antártica. Aposentou-se com a missão cumprida de transformar o clube em um dos maiores do país.

Justamente por causa daquele período em que o mundo estava mais preocupado em trocar tiros e bombas do que passes e chutes, Oberdan nunca teve a chance de disputar uma Copa do Mundo. Foi titular no Campeonato Sul-Americano de 1945 e talvez fosse no Mundial que nunca aconteceu, no ano seguinte, mas sua história como goleiro nacional não chegou a dez partidas. Como goleiro palestrino, chegou a 351 jogos e teve 11 títulos, inclusive as cinco coroas do início dos anos 1950, que culminou com a conquista da Copa Rio de 1951, o título mais importante daquela equipe. Foi nela que a série de decepções de Oberdan Cattani começou. O Palmeiras foi goleado por 4 a 0 pela Juventus, no fim da primeira fase, e Fábio Crippa assumiu a posição. Fechou o gol contra o Vasco, nas semifinais, e terminou o torneio como titular.

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Oberdan não conta essa história com a mesma mágoa que reserva para os acontecimentos que levaram à sua saída do Palmeiras. Recebeu propostas do Chile e do México para ganhar uma fortuna. Mas ouviu do então conselheiro Paschoal Giuliano que “era filho da casa” e que encerraria a carreira no clube. Aos 36 anos, e com Paschoal na presidência, foi dispensado sem cerimônia. Disse que recebeu uma carta dizendo que “o Palmeiras não se interessa mais por você”. Um golpe no coração de quem nunca deixou de se interessar pelo Palmeiras, nem quando precisou enfrentá-lo, com a camisa de um rival.

E por jogar contra o Palmeiras, defendendo o Juventus, pelo qual acabou se aposentando, muitos conselheiros passaram décadas e décadas de intransigência opondo-se a um busto do ex-goleiro no Palestra Itália, ao lado de Junqueira, Ademir da Guia e Waldemar Fiúme. A teimosia terminou apenas no ano passado, quando o conselho fiscal finalmente aprovou a homenagem.

Só que Oberdan, que viveu quase o mesmo número de anos que o próprio Palmeiras, não sobreviveu o bastante para ver a homenagem pela qual tanto brigou. Não estará presente na inauguração do busto que representa os seus 14 anos de serviços prestados ao clube que deve tanto a ele quanto ele ao clube. Seu orgulho estará restrito ao pequeno santuário que manteve no andar superior da sua casa, com troféus, medalhas, capas de jornais e fotos de quando andava pela Barra Funda e pela Pompeia sem nenhum risco de não ser reconhecido. Nas histórias que contou para todos os curiosos que recebeu na sua casa simples, entre ladeiras e paralelepípedos, o mais próximo possível de onde mais foi feliz, com um copo de guaraná Convenção light para oferecer educadamente a quem passasse por aquele portão de metal.

O refrigerante era terrível, mas as histórias do homem de bigode negro como os cabelos compensavam qualquer coisa. E não se recusa uma bebida de uma lenda. Obrigado pelo guaraná, senhor Oberdan.