Já se escreveu aqui que o Feyenoord não perdeu tanto assim a ponto de se fragilizar na disputa do título holandês que certamente virá. E não perdeu mesmo, a despeito dos maus resultados nos dois últimos amistosos (derrota por 1 a 0 para Freiburg, empate sem gols com o Plymouth Argyle). Já se escreveu aqui que o PSV vivia um tempo de reformulações. E o sinal amarelo sobre o resultado delas já foi aceso nesta quinta: afinal de contas, perder para o Osijek, time mediano da Croácia, em pleno Philips Stadion – 1 a 0, na ida da terceira fase preliminar da Liga Europa -, é daqueles vexames injustificáveis. E a defesa do técnico Phillip Cocu na entrevista (“Tivemos 72% de posse de bola, dominamos o jogo”, comentou Cocu à FOX Sports holandesa) só irritou mais a torcida.

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E o Ajax? Era de se esperar um trauma demorado. Afinal de contas, nunca se espera que uma pré-temporada que começou divertida na cidade austríaca de Zillertal termine como terminou: abruptamente, com as imagens dramáticas do atendimento a Abdelhak “Appie” Nouri, após a arritmia cardíaca ocorrida durante o amistoso contra o Werder Bremen, cujos resultados neurológicos perturbarão para sempre o resto da vida do camisa 34 Ajacied (mesmo depois de tudo, Nouri foi inscrito nesta temporada, seguindo com o número que tinha no grupo).

Se em 2016/17, mesmo sem traumas, o clube da estação Bijlmer Arena já fora varrido da Liga dos Campeões pelo Rostov, era de se esperar uma fragilidade grande dos Godenzonen no jogo desta semana, contra o Nice, pela ida da segunda fase preliminar da Champions League. Pois o 1 a 1 entre as duas equipes, no estádio Allianz Riviera, foi daqueles resultados que orgulha uma torcida: mesmo contra um time de nível parecido, até mais entrosado, o Ajax mostrou técnica e coragem para não se abater e sair com um empate que lhe permite jogar mais confortavelmente na Amsterdam Arena.

Aliás, situação emocional à parte, até as próprias atuações do Ajax em campo indicavam uma irregularidade pouco recomendável para quem tinha jogos tão importantes logo no começo da temporada. No amistoso interrompido contra o Werder Bremen – o primeiro da pré-temporada, no dia 8 passado -, a equipe de Marcel Keizer saíra na frente (gol de Mateo Cassierra), mas levara a virada para 2 a 1 antes mesmo da fatalidade com Nouri. De mais a mais, uma das únicas perdas na janela de transferências já era dura o suficiente para causar dúvidas: Davy Klaassen, o capitão e figura central no meio-campo.

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Após Nouri – e o cancelamento altamente justificável do amistoso contra o amador Rijnburgse Boys, no dia 11 -, o nível de atuação dos Amsterdammers ficou bem irregular nos amistosos. Na volta aos campos, dia 15, contra o Racing Genk, até que o ataque funcionou, com três gols. Porém, a defesa (inalterada em relação à temporada passada) também levou três gols. Usando jogadores da equipe B (Jong Ajax) contra o PAOK, no mesmo dia, a equipe adulta conseguiu vencer e até fazer mais gols: 4 a 2.

Mais três dias, e vieram dois amistosos contra o Lyon. No primeiro, empate em 2 a 2 com o time B dos Gones; no segundo, derrota por 2 a 0 para o time principal. Contra outro adversário de ponta no Campeonato Francês, era preocupante, apenas dez dias antes do jogo contra o Nice. De quebra, por mais que o time-base estivesse sem grandes alterações, a janela de transferências causara e causaria ausências confiáveis no banco de reservas. Primeiro, com a saída de Kenny Tete para o próprio Lyon; depois, com a confirmação da já prevista ida de Jaïro Riedewald para o Crystal Palace. Não eram nomes acima de qualquer suspeita, mas já tinham certa experiência.

Além disso, ao preferir não mexer no que deu certo sob Peter Bosz, o técnico Marcel Keizer ganhava duas dúvidas. Para suceder Bertrand Traoré (que voltou ao Chelsea, para de lá seguir rumo ao mesmo Lyon que enfrentou o Ajax), quem escalar: David Neres ou Justin Kluivert? E Donny van de Beek, como se sairia contra o Nice, já no lugar de Klaassen? Não era melhor escalar o novato Frenkie de Jong, promissor nos treinos da pré-temporada? E depois da impotência ofensiva vista na final da Liga Europa contra o Manchester United, como fazer do Ajax um time mais variável? E no ataque: a experiência de Klaas-Jan Huntelaar, mesmo com Kasper Dolberg garantido para mais uma temporada?

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No jogo contra o Nice, as respostas iniciais foram dadas. Keizer apostou em Kluivert (“Ele tem mais profundidade pelos lados do que David Neres”, justificou o técnico à tevê, antes do jogo), Van de Beek foi o previsível titular, Dolberg começou jogando. Porém, o Ajax repetiu os erros de 2016/17: atacou demais, criou chances… mas cedia espaço gigante na defesa. Foi aí que o Nice aproveitou: bela jogada de Jean-Michaël Séri passando por três defensores, cruzamento rasteiro, e Mario Balotelli fez o que dele é esperado: gol. Uma desvantagem assim tinha tudo para ser pesada demais, diante de todas as adversidades pelas quais o Ajax passou neste julho.

Porém, já se vira no primeiro tempo que o time francês da Côte D’Azur tinha um ponto fraco: o goleiro Yoán Cardinale, que rebatera vários chutes de longe. Um cruzamento rebatido aos seis minutos do segundo tempo, Van de Beek aproveitou de primeira a sobra, e fez o 1 a 1 que reanimou o Ajax. E enterneceu ainda mais o coração da torcida, com o meio-campista fazendo com os dedos o “34” para homenagear Nouri, seu amigo pessoal desde as categorias de base. Posteriormente, Keizer colocou David Neres e Frenkie de Jong em campo. E o visitante holandês foi ainda melhor e mais corajoso no ataque, no resto do jogo. Não só fez por merecer a vitória, mas surpreendeu Lucien Favre, técnico do Nice: “Eles tiveram mais chances, e o que me deixou confuso é que não causamos tantos danos a eles quando tivemos a posse de bola”.

No Ajax, as declarações de Van de Beek resumiram tudo: “Meu gol foi para o Ajax, mas acima de tudo para Nouri e a família dele. Eu os amo muito, e nosso time quer apoiá-los”. Marcel Keizer ainda completou: “Ainda podemos melhorar muito, mas isso foi um começo”. De fato. Se, diante de um fato grave e triste, continuar caminhando enquanto secam-se as lágrimas é um caminho, o Ajax seguiu por ele. Para a alegria da torcida. Quem sabe o ânimo aumente na próxima quarta – e no começo do Campeonato Holandês.