Esteghlal e Persepolis fazem um dos clássicos mais calorosos da Ásia. O Dérbi de Teerã completa 50 anos em 2018 e coloca com frequência 80 mil pessoas no Estádio Azadi, com as arquibancadas rigorosamente divididas entre o azul e o vermelho. Nesta quinta, os alviazuis do Esteghlal comemoraram a vitória por 1 a 0, gol de Vouria Ghafouri, que serviu mais para o moral do que para a corrida pelo título. O Persepolis, afinal, lidera o Campeonato Iraniano com respeitáveis 15 pontos de vantagem após 25 rodadas. Mas antes tudo fosse festa no Irã. Ao todo, 35 torcedores foram detidos no clássico. O crime? Serem mulheres e tentarem entrar em um estádio de futebol.

A proibição a mulheres nas arquibancadas não é uma exclusividade no Irã. No entanto, em nenhum outro lugar se trava uma luta mais intensa pela busca da liberdade. Desde 1982, as mulheres iranianas são proibidas de entrar nos estádios locais. Não podiam sequer ver os jogos pela televisão até 1987, quando ganharam a “permissão” do aiatolá. Ainda assim, repetidamente desafiam as leis locais.  O primeiro momento emblemático aconteceu em 1997, quando os persas asseguraram o retorno ao Mundial após duas décadas de ausência. Milhares de mulheres saíram às ruas na comemoração, quebrando as orientações das autoridades religiosas. Além disso, diante da pressão, três mil torcedoras ganharam a permissão de entrar no Estádio Azadi na recepção do time de volta ao país, enquanto outras centenas romperam as barreiras e furaram os bloqueios policiais.

A cada classificação do Irã à Copa do Mundo, o debate volta à tona. E não seria diferente neste momento. Capitão da seleção persa, Masoud Shojaei defendeu publicamente o fim do banimento e intercedeu junto ao presidente Hassan Rouhani. Contudo, entre breves aberturas e retrocessos nos últimos anos, a imposição continua em vigor. O que não impede, de fato, as mulheres de forçarem sua passagem rumo às arquibancadas. Muitas delas costumam se fantasiar como homens para se camuflar no meio da multidão – atitude que serviu de gancho para o filme ‘Offside’, de Jafar Panahi, lançado em 2006 e que discute a questão amplamente. Nos últimos anos, porém, a repressão ao “crime” aumentou. Gera cada vez mais protestos por algo que deveria ser um direito básico.

Não está claro se as 35 mulheres se camuflaram ou usaram outro artifício para tentar entrar no Estádio Azadi nesta quinta. Fato é que o absurdo aconteceu em uma partida assistida in loco justamente por Gianni Infantino, presidente da Fifa, acompanhado pelo Ministro dos Esportes iraniano. Segundo um porta-voz do Ministério do Interior, as mulheres não foram presas, mas “transferidas a um lugar apropriado pela polícia” e teriam sido soltas ao final do dérbi. Eufemismo barato diante de um debate antigo, que superou as fronteiras há anos. Fora do estádio, aproveitando a presença de Infantino, ocorreram focos de protesto em prol da causa feminina.

Curiosamente, nesta sexta Infantino participou de uma conferência realizada na sede da Fifa sobre igualdade e inclusão. Questionado sobre as prisões, falou com o tom de demagogia óbvio a qualquer dirigente: “Minha visita pode ajudar muitas mulheres ao redor do mundo. Eu tenho esperanças. Estou confiante. Prometi que as mulheres no Irã terão acesso aos estádios em breve”. Já um porta-voz da Fifa garantiu que um dos intuitos da viagem a Teerã foi colocar a pauta em discussão. A ação, de qualquer maneira, parece longe de ser concretizada.

Vale lembrar que um dos principais palanques na luta pelos direitos das mulheres no Irã são as competições internacionais. É comum que cartazes e outras manifestações apareçam nos jogos da seleção fora do país, sobretudo na Copa da Ásia e na Copa do Mundo. Não deverá ser diferente nos próximos meses, quando o Mundial tiver o seu pontapé inicial na Rússia. A ver qual será a postura de Infantino nos próximos meses.