Atribuir notas a jogadores após uma partida, em função da atuação deles, é sempre algo temeroso. Sempre se pode cometer injustiças. Só que as notas que o diário francês L’Équipe concedeu aos jogadores da Holanda, após o amistoso contra a França, exibem fielmente como a atuação da Laranja foi pavorosa no Stade de France: apenas Van der Wiel conseguiu alcançar a nota 5, numa escala de 0 a 10. O resto da equipe ficou entre 4 e 3. Mais dados? Durante os 90 minutos, mais acréscimos, a Laranja deu somente quatro chutes, dos quais apenas um a gol. Os franceses arremataram por 16 vezes, sendo quatro na mira de Cillessen.

A postura preguiçosa da Holanda assustou o país, a 99 dias do início da Copa do Mundo. Isso se viu nas manchetes dos jornais, nesta quinta-feira. O De Telegraaf constatou: “Queda dura para a Oranje contra a França”. O “Sportwereld”, caderno de esportes do Algemeen Dagblad, foi ainda mais drástico: “Uma Oranje assustadoramente fraca é superada pela França”. O “De Volkskrant” já foi mais sucinto: “Fácil demais para a França”. Mas talvez poucos tenham sido tão honestos quanto a revista “Voetbal International”: “França esfrega os fatos na cara de uma frágil Oranje”. E os fatos mostraram que a equipe de Louis van Gaal deu muitas voltas, entre o vice-campeonato mundial de 2010 e o momento atual, para chegar ao mesmo ponto fraco: a defesa.

Então, é culpar Vlaar e Martins Indi, a dupla de zaga titular, e ficamos por isso mesmo? Nem pensar. É relativamente injusto com ambos. Martins Indi até mereceu críticas, pois sempre chegava atrasado, mas é dos melhores zagueiros holandeses que há por aí. E Vlaar até salvou gol em cima da linha. Isso para não falar da incompreensível crítica de Louis van Gaal ao goleiro Cillessen (“Benzema chutou rápido, mas a bola foi no meio do gol”). Como se fosse fácil pegar um voleio com a bola em cheio, quase à queima-roupa.

E culpar a defesa é ser restritivo demais e fechar os olhos para o que talvez seja o lugar fundamental da seleção holandesa: o meio-campo. Antes de explicar isso, faz sentido lembrar as notas do L’Équipe. As duas piores da seleção holandesa foram para… Clasie e Sneijder, ambos com 3. Aí, também é justo que se cite um dos personagens mais falados após a derrota: Nigel de Jong, que foi incluído na pré-convocação, mas ficou de fora da lista final.

Tudo para defender a tese de que a Holanda simplesmente precisa de um volante com mais pegada. Obviamente, ele não precisa ser violento, como De Jong é, às vezes. Mas reforçar a marcação no meio é item de primeira necessidade nessa seleção holandesa. A prova veio com a atuação perdida de Clasie: nem o meio-campista do Feyenoord soube carregar a bola até o ataque, como tão bem faz no clube, nem soube marcar a saída adversária. Strootman poderia fazer isso com maestria, mas a lesão no joelho que o tirou do amistoso no primeiro tempo (felizmente para a seleção e para a Roma, nada muito grave a ponto de romper ligamentos) jogou Schaars no meio do furacão. E justamente um minuto após a alteração, Blaise Matuidi fez o belo gol do 2 a 0.

Ou seja, o volante do PSV entrou quando já não faria muita diferença. E foi exatamente pela falta de alguém que marcasse respeitavelmente no meio que De Jong foi bastante lembrado após o jogo. Para a torcida e imprensa holandesas, o volante do Milan seria quem liberaria o armador para se preocupar mais com as jogadas. O problema é que, a julgar pelo amistoso, Sneijder está bem longe de fazer isso.

Van Persie e Sneijder: atacante ficou isolado e o meia foi pouco criativo contra a França

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Pois é: o camisa 10 merece um capítulo à parte. Sneijder parece outro jogador, atualmente: de motor da seleção, o veloz armador que carregou parte da Holanda na Copa de 2010, ele é hoje uma sombra do que já foi. É um meio-campista burocrático, apenas carimbando bolas, sem dar o toque de genialidade que é capaz de dar. Enfim, na gíria do futebol, Sneijder anda sendo um “armandinho”, um armador comum. Há tempos Van Gaal dá leves alfinetadas na suposta preguiça do camisa 10 do Galatasaray. Na situação atual, é de se supor até que a presença de Sneijder na Copa corra sérios riscos. Tudo bem, talvez seja exagerar demais. Mas, hoje, Van der Vaart é o grande favorito para ser o armador titular da Holanda na Copa.

E se o meio-campo não cria, não adianta culpar Van Persie se a bola mal chega a ele. Talvez até seja justo falar mais de Quincy Promes, que tentou coisas quando teve a bola nos pés: nada de se elogiar, mas pelo menos se moveu. Diferente de outro estreante, Boëtius, que nem trouxe perigo, nem marcou a direita dos franceses. Com a má atuação de Daley Blind, estava aberta a avenida que Valbuena aproveitou para criar várias jogadas de perigo. Com o 2 a 0 já estabelecido no segundo tempo, o teste com Davy Klaassen foi perdido.

Claro, é sempre bom relativizar o valor dos amistosos pré-Copa. A pouco mais de três meses do 13 de junho que marca a estreia holandesa no torneio, Van Gaal tem tempo para consertar os defeitos. Só que isso precisará ser feito urgentemente. Pois a quarta-feira de amistosos internacionais mostrou que, se o Chile tem totais condições de eliminar um dos favoritos do grupo B (e tem, a julgar pela ótima atuação contra a Alemanha), este “favorito” parece ser muito mais a Holanda.