Fonte Nova na sua reinauguração, com o clássico Ba-Vi (Portal da Copa/ME)

Destrinchamos os contratos dos clubes com os estádios para saber quem se deu melhor

Os clubes brasileiros ganharam casas novas, bonitinhas, limpinhas, cheirosas e modernas, mas que trazem junto um inquilino. Ou um sócio. Com a instável situação financeira de sempre, em menor ou maior nível, ninguém teve dinheiro vivo para bancar as reformas e construções de seus estádios, na onda de obras que percorreu o Brasil por causa da Copa do Mundo.

Alguns, como o Palmeiras, o Grêmio e o Internacional, donos dos seus próprios estádios, fecharam parcerias com construtoras, que bancaram as reformas – no caso do tricolor gaúcho, a construção de uma nova arena – e garantiram influência nas administrações das receitas comerciais dos estádios. O Corinthians também construiu sua própria casa, mas por meio de empréstimos e tem a renda administrada por um fundo até que a conta seja paga.

Os estádios públicos, todos eles em parcerias público-privadas, foram cedidos por um período de tempo aos clubes, que ganharam participações na venda dos ingressos e, em alguns casos, até das receita comerciais, mas nenhum acordo é igual ao outro. Alguns souberam negociar melhor e podem lucrar mais daqui para frente. Outros poderiam ter sido mais duros nas tratativas. Analisamos os contratos para que você tire suas próprias conclusões.

Atlético Mineiro
O Atlético Mineiro preferiu o Independência ao Mineirão

O Atlético Mineiro preferiu o Independência ao Mineirão

O que prevê: O Atlético Mineiro repassa apenas 10% da receita líquida de bilheteria para a BWA, que divide 10,58% desse valor igualmente entre América-MG, dono do estádio, e o governo de Minas Gerais, que bancou a última reforma. No acordo de dez anos de duração, o Atlético ainda tem direito a 45% do que a empresa fatura com a exploração de bares, restaurantes, acordos comerciais e etc e da receita que a empresa ganha com os jogos do Cruzeiro no Independência.

Pontos positivos: O Galo preferiu o Independência ao Mineirão basicamente por um motivo. No estádio que pertence ao América-MG, conseguiu, em negociação com a BWA, responsável pela administração do estádio, uma boa porcentagem das receitas comerciais. Segundo o presidente Alexandre Kalil, caso queira jogar no Mineirão, como na final da Libertadores, o Galo recebe 54 mil ingressos e assume o estacionamento, mas não tem direito a nada do que for comercializado.

Pontos negativos: O clube não faz parte do grupo gestor do Independência e não tem o poder de tomar decisões. O estádio tem capacidade para apenas 23 mil pessoas, bem inferior à do Mineirão. Há planos de ampliação, com a construção de arquibancadas atrás de um dos gols, fechando os aneis do estádio, mas ainda está no papel.

Fontes: UOL, UOL²Super Esportes, Super Esportes², Folha

Bahia
O Bahia mandou os jogos de 2013 na Arena Fonte Nova

O Bahia mandou os jogos de 2013 na Arena Fonte Nova

O que prevê: O Bahia tem direito a 65% da renda se o público atingir até metade de 50 mil (capacidade máxima da Fonte Nova). Entre 50% e 75% de estádio cheio, o clube leva 75%. Lotado, recebe 85%. O restante é do consórcio, que tem exclusividade na exploração de bares, estacionamentos, publicidade e camarotes.

Pontos positivos: O lucro não depende completamente da presença da torcida porque a Arena Fonte Nova Participações prometeu uma renda mínima de R$ 9 milhões para o Bahia. Se ao fim do ano, a totalidade de todas as porcentagens superar esse valor, o consórcio paga a diferença. Já é um valor que supera a arrecadação anual média do clube com o Pituaçu, que tem capacidade para apenas 32 mil pessoas (R$ 8 milhões em 2011 e R$ 6,2 milhões em 2012).

Pontos negativos: A posição do Bahia na negociação com o consórcio OAS/Odebrecht, que reformou a Arena Fonte Nova, foi muito prejudicada pelo governo baiano. O acordo entre as duas empresas e o Estado da Bahia tem uma cláusula que compromete o poder público a “envidar seus melhores esforços para que as partidas de futebol oficiais dos maiores clubes do estado, notadamente Bahia e Vitória, sejam realizadas no Estádio da Fonte Nova”. Por isso, no início de novembro de 2012, a Superintendência dos Desportos da Bahia emitiu um comunicado à Federação Baiana de Futebol e à CBF dizendo que o Estádio de Pituaçu não estaria disponível para sediar jogos do Brasileiro e do Estadual. O próprio Bobô, ex-jogador que comanda a Sudesb, confirmou que foi apenas “a oficialização de um entendimento contratual antigo”. Enquanto o Vitória tem o Barradão para fazer jogo duro, o Bahia não teve opção. Se resistisse muito, não teria onde mandar as suas partidas como o Atlético Mineiro teve, rejeitando o Mineirão para ficar com o Independência.

Fontes: A Tarde¹, A Tarde², Correio

Corinthians
O Corinthians já realizou um treino em Itaquera

O Corinthians já realizou um treino em Itaquera

O que prevê:  O Corinthians cedeu estádio, o terreno e os futuros acordos comerciais a um fundo de investimento, que tem o clube – sócio minoritário -, a Odebrecht, parceira na obra, e a gestora BRL Trust Distribuidora de Títulos e Valores Mobiliários S.A. Essa empresa foi criada para intermediar o empréstimo de R$ 420 milhões que o BNDES vai ceder para ajudar a pagar a conta, junto com R$ 400 milhões de incentivos fiscais da prefeitura de São Paulo.

Pontos positivos: O Corinthians é o único responsável pela administração da Arena de Itaquera e, assim que quitar as suas dívidas com o poder público, pode assumir controle de toda a renda.

Pontos negativos: O Corinthians tem 12 anos para quitar as parcelas, com três de carência. Até esse período, parte da renda necessariamente será destinada ao pagamento da dívida.

Fontes: Estadão, Folha, UOL

Cruzeiro
O Mineirão acabou ficando com o Cruzeiro

O Mineirão acabou ficando com o Cruzeiro

O que prevê: O vínculo de 25 anos prevê que o Cruzeiro tem direito a comercializar 54 mil ingressos, é obrigado a mandar os seus jogos no Mineirão e recebe um terço da renda do estacionamento, dos bares e dos restaurantes. O clube ganhou R$ 2 milhões de luvas na assinatura do acordo.

Pontos positivos: O governo de Minas Gerais cedeu uma das quatro datas que o contrato da Parceria Público-Privada prevê para o Atlético Mineiro realizar a final da Copa Libertadores. O Galo não pagou nada para usar o estádio. No acordo com a Minas Arena, o Cruzeiro tem que pagar 70% das despesas, mas tem o direito de exigir as mesmas condições que a empresa apresenta a outro clube. Interpretou a decisão do torneio sul-americano como uma facilidade e suspendeu o repasse. A questão está em negociação.

Pontos negativos: O presidente Gilvan de Pinho Tavares quer o direito de comercializar os 8 mil ingressos referentes a cadeiras VIP, especiais e camarotes, que ficam no anel inferior, na lateral do campo. Esse setor costuma ficar vazio nos jogos do Cruzeiro e também passa uma imagem terrível em partidas televisionadas. Parece que não tem ninguém no estádio, mesmo quando o público real passa de 40 mil.

Fontes: Super Esportes, O Tempo, Globo Esporte, Globo Esporte², Cruzeiro Web

Flamengo
O Flamengo conseguiu um bom acordo para jogar no Maracanã

O Flamengo conseguiu um bom acordo para jogar no Maracanã

O que prevê: O contrato de três anos do Consórcio Maracanã S.A. com o Flamengo prevê uma divisão de toda a renda do estádio em duas partes, com uma porcentagem superior para o clube. A princípio, o Rubro-Negro queria que a empresa, que tem a Odebrecht como uma das parceiras, prometesse construir um estádio próprio para o clube na Gávea. Na última versão do contrato, a empresa comprometeu-se a estudar a viabilidade e construir apenas se valer a pena.

Pontos positivos: O Flamengo pode ficar com até 72%, mas tudo depende da renda. Até R$ 500 mil, a divisão é igualitária. A partir desse número, há uma progressão de porcentagem a favor do Flamengo. Acima dos R$ 3 milhões, o lucro da concessionária é de no máximo R$ 2,5 milhões. De acordo com a equação, a final da Copa do Brasil do ano passado, que arrecadou R$ 7,8 milhões líquidos, renderia R$ 5,3 milhões para o clube. O fato de o contrato ser de apenas três anos também é positivo, pois não amarra o Flamengo a um acordo que pode se mostrar ruim em médio ou longo prazo.

Pontos negativos: Se por um lado a projeção de lucro é maior, também há mais riscos. O Fluminense, por exemplo, não precisa dividir o lucro dos ingressos que vender. Não depende de todos os setores do Maracanã para arrecadar. O Flamengo pode enfrentar dificuldades em jogos pequenos, mas aposta nos grandes confrontos. Por isso, o contrato obriga que todos os jogos a partir das quartas de final sejam no estádio. Há a possibilidade de realizar até dez partidas anuais em outros campos, no máximo seis do Campeonato Brasileiro.

Fontes: LANCE!, Globo Esporte, O Globo

Fluminense
O Fluminense tem 43 mil ingressos para comercializar

O Fluminense tem 43 mil ingressos para comercializar

O que prevê: A última – esperamos – reforma do Maracanã foi realizada pelo Consórcio Maracanã S.A, que fechou um contrato de 35 anos para o Fluminense mandar os seus jogos no estádio, sem precisar pagar nada, como acontecia nos anos passados. O clube tem direito a comercializar 43 mil cadeiras, nas áreas atrás dos gols e dos escanteios. A renda dos outros assentos, que correspondem aos locais mais nobres, serão da empresa.

Pontos positivos: O consórcio prometeu um valor mínimo de arrecadação para o clube de Laranjeiras, que terá uma boa fonte de renda com a comercialização das cadeiras. O Fluminense ainda terá um vestiário exclusivo e personalizado no estádio e pode construir uma loja oficial, cujo faturamento será todo dele. Esse estabelecimento comercial deve ficar pronto apenas em 2015.

Pontos negativos: Todo o dinheiro que entrar em bares, outras lojas, restaurantes e estacionamentos será do consórcio. O programa de sócio-torcedor do clube também sofreu um abalo. Os inscritos continuarão com prioridade e desconto nos 43 mil lugares que pertencem ao Fluminense, mas, no restante, podem apenas comprar antes de todo mundo, sem abatimento de preço.

Fontes: O Globo, UOL, ESPN Brasil

Grêmio
A Arena Grêmio foi construída, e o clube deixou o Estádio Olímpico

A Arena Grêmio foi construída, e o clube deixou o Estádio Olímpico

O que prevê: O contrato do Grêmio com a construtora OAS, responsável pelo pagamento das obras da nova Arena, foi renegociado no final do ano passado. O acordo vale por 20 anos, divide o lucro em 65% para o tricolor gaúcho e 35% para a empresa e cedeu o terreno do Estádio Olímpico para a empresa construir imóveis.

Pontos positivos: A renegociação melhorou a situação do Grêmio, pelo menos a curto prazo. Antes dela, o clube teria de pagar R$ 43 milhões para a construtora em 2013. O valor caiu para R$ 12 milhões, atinge R$ 15 milhões em 2015, e R$ 18 milhões a partir de 2016 até o fim da parceria. O Grêmio adiou uma dívida de R$ 30 milhões com a construtora e passa a receber 2% das vendas dos empreendimentos imobiliários que a OAS pretende realizar no entorno do estádio, como shoppings centers, hotéis, etc.

Pontos negativos: O clube aceitou dividir os lucros do Quadro Social e assumiu a responsabilidade por metade de eventuais prejuízos. Esse valor será descontado do lucro fixo de R$ 8,8 milhões ao qual o clube tem direito anualmente. Ainda há outros detalhes, como o financiamento de R$ 12 milhões para as construções do Memorial do Grêmio, o CT de Humaitá, bairro onde fica o estádio, e instalações administrativas na Arena. O contrato foi herdado da gestão de Paulo Odone e, antes da renegociação, não animava muito o presidente Fabio Koff, que havia dito que o Grêmio “passaria 20 anos pagando” o estádio. Ele previa mais lucro a partir do quarto ou quinto ano da parceria.

Fontes: Zero Hora, Zero Hora²Folha, Estadão

Internacional
O Internacional abriu o Beira-Rio em um jogo contra o Caxias (Foto: Gabriel Heusi)

O Internacional abriu o Beira-Rio em um jogo contra o Caxias (Foto: Gabriel Heusi)

O que prevê: Pelos próximos 20 anos, a construtora Andrade Gutierrez tem o direito de explorar as áreas que construiu: camarotes, lojas, garantes, suítes e cadeiras VIPs. Também pode usar o estádio para eventos, como shows, e explorar os naming rights e a publicidade estática, menos as placas que ficam ao redor do gramado.

Pontos positivos: O Beira-Rio não precisou ser demolido e levantado novamente. Apenas reformado. Então, o invesimento da Andrade Gutierrez foi menor, assim como a sua influência na administração do estádio. O clube pagou apenas R$ 26 milhões, referentes ao valor da venda do estádio dos Eucaliptos, e manteve controle sobre a renda e os estabelecimentos comerciais antigos. Seus jogos têm prioridade na agenda em relação aos eventos da AG.

Pontos negativos: O clube perde a chance de lucrar com a venda de naming rights e, se quiser lucrar com shows, precisa encaixar na agenda dos eventos previstos pela Andrade Gutierrez. Por duas décadas, não vai poder lucrar nas áreas que foram feitas pela construtora.

Fontes: Zero Hora, Globo Esporte, Estadão

Náutico
O primeiro jogo da Arena Pernambuco foi entre Náutico e Sporting (Foto: Dani Neves)

O primeiro jogo da Arena Pernambuco foi entre Náutico e Sporting (Foto: Dani Neves)

O que prevê: O Náutico tem direito a 67% da renda dos 15 mil ingressos que fazem parte do programa Todos com Nota, do governo estadual, que incentiva as pessoas a irem ao estádio, e 80% da renda de outros 15 mil, que o clube comercializa (após 12 anos, a porcentagem desses ingressos sobe para 90%). Os outros 16 mil ingressos são todos do consórcio que administra o estádio, formado pelas construtoras OAS e Odebrecht. O clube não paga as despesas.

Pontos positivos: O clube conseguiu junto ao consórcio um aporte de R$ 5 milhões para reformar o Centro de Treinamentos e recebeu, mensalmente, R$ 350 mil nos últimos meses de 2011, quando estava na Série B, e R$ 500 mil a partir do momento em que garantiu vaga na elite até a inauguração do estádio, em maio de 2013.

Pontos negativos: A Arena Pernambuco não fica em Recife, mas em São Lourenço da Mata, a 30 quilômetros da capital, com acesso ruim por transporte público. Além disso, não é um alçapão como o Aflitos. Ter um estádio central e pequeno ajudava o Náutico a ter arquibancadas cheias, que criavam um clima hostil ao visitanta e rendia ao Timbu pontos preciosos em campo. Em 2013, o time jogou quase todo o Brasileirão na Arena, o que influenciou na péssima campanha, que acabou em rebaixamento. O novo presidente Glauber Vasconcelos, eleito em dezembro do ano passado, também reclama que parte da renda do Todos Com Nota fica com o consórcio e que esse dinheiro está sendo usado na reforma do CT. “Parecia um presente”, disse, em entrevista ao Diário de Pernambuco.

Fontes: Diário de Pernambuco, Portal 2014, Globo Esporte¹, Globo Esporte²

Palmeiras
As arquibancadas do Allianz Parque terão vários tons de verde

As arquibancadas do Allianz Parque terão vários tons de verde

O que prevê: Tem direito ao valor integral da bilheteria e ainda uma porcentagem progressiva em relação a outras rendas do estádio, como naming rights, shows e ventos. O valor a que o Palmeiras tem direito sobre esse tipo de receita aumenta 5% a cada cinco anos, até que o contrato com a WTorre termine, depois de 30 anos. Ou seja, entre os primeiros cinco e dez anos, o clube recebe 10%, entre os dez e os 15 anos, 15%, e assim sucessivamente.

Pontos positivos: O clube não gastou um centavo com a reforma do antigo Palestra Itália e pode lucrar com a bilheteria e as porcentagens das negociações da WTorre. Por exemplo, o contrato para batizar o Palestra Itália de Allianz Parque foi de R$ 300 milhões por 20 anos. Nesse período, de acordo com a progressão, o Palmeiras vai embolsar R$ 50 milhões.

Pontos negativos: A cláusula que fala sobre o número de cadeiras que a WTorre tem direito a comercializar é ambíguo. O clube entende que são apenas 10 mil assentos, mas a construtora interpreta que pode vender até todos os 45 mil. Esses assentos seriam fixos para quem os comprasse, e a empresa teria que pagar ao Palmeiras o valor do ingresso mais baixo da temporada passada por cada cadeira, todos os jogos. Daria uma receita mínima, mas atrapalharia o programa de sócio-torcedor do Palmeiras, que já tem mais de 30 mil inscritos. Esse ponto do acordo ainda está em negociação.

Fontes: Estadão, Folha¹, Folha² e Blog do PVC

VEJA AS OUTRAS MATÉRIAS DO ESPECIAL SOBRE OS NOVOS ESTÁDIOS BRASILEIROS