Direto e reto: toda manhã pós-rodada do Campeonato Brasileiro vou passar o café listando dez pitacos sobre os jogos ou o que disseram deles, sem a pretensão de assistir todas as dez partidas inteiras nem a intenção de reforçar polêmicas ou devaneios clubistas de redes sociais da internet. Bom dia!

1
Há precedentes sobre uma liga nacional com jogadores poupados na primeira rodada? Impressionante como o futebol brasileiro se auto boicota. Termina o jogo, e os repórteres perguntam sobre terça, quarta, quinta. Não jogou por quê? Preocupa? Terá condições de jogar? Praticamente se joga no reflexo do jogo anterior ou na expectativa do próximo. O calendário, ou o jogo seguinte, é sempre protagonista.

2
Público vergonhoso, especialmente o Cruzeiro levando só 15 mil para pegar um favorito ao título e o São Paulo com 11 mil no Morumbi; Botafogo e Vasco na casa dos 7 mil. Pífio. Torcedor é a principal vítima – parabéns aos clubes e à promotora do campeonato, que se acostumaram a decolar o avião com assentos vazios.

3
“Votou contra o VAR” é o mais novo não-assunto do futebol brasileiro, aquele que nivela tudo ao GC do programa do Neto na hora do almoço. A gente é péssimo para trocar ideias sobre futebol. No fim, teu time é mais feio (ou mais sacana) que o meu. Pobreza.

4
Arthur joga muita bola. Tenho a impressão que ainda não jogou mal desde que ficou conhecido. Ou vai ver esse tipo de jogo não é bem ou mal, ele controla e pronto. É quase impossível marcar, ou anular, alguém nessa função de organização discreta e ligeira. Curioso como esses caras têm o dom de contaminar quem está em volta, e todo mundo começa a querer tocar a bola, inclusive os rivais. Quando você joga bola contra um cara muito bom, você fica com vergonha de fazer grosseria. Coisas do jogo mental em campo. Classe.

5
Paquetá fez 50 minutos impressionantes no Barradão, da expulsão do Éverton Ribeiro até sair, morto, no segundo tempo. Foi Paquetá contra a rapa, num time com um a menos e sem centroavante, seja para roubar bolas improváveis ou para ganhar, na agilidade, lances em que a defesa estava em maior número. Vinicius Jr. e Diego não deram conta de acompanhar, nem no físico, nem na técnica, nem na cabeça.

6
Como diz meu amigo Gabriel Brito, o Corinthians tem método. Ponto. Você vê os melhores momentos e já sabe o tom do jogo. Briga, se impõe, torcida em cima e acha o gol no decisivo da vez. Vacilou é caixa, e os jogos com cara de empate terminam sempre com coluna um em Itaquera. Rodriguinho é ótimo finalizador.

7
Me diverti muito vendo os jogos do Atlético Paranaense na semana, amassando os rivais como pouco se vê no Brasil. Num campeonato sem craques, um técnico acima da média faz toda diferença. Menos jogos, mais tempo para treinar e analisar os adversários e o que se tem jogado por aí. Que teria pensado Gilson Kleina ao fim do jogo, com sua Chapecoense nas cordas? Por que os técnicos se limitam ao mais do mesmo?

8
O Palmeiras tem problemas, sim, mas majoritariamente defensivos. Deu muita bobeira nos três últimos gols que sofreu – Corinthians, Boca, Botafogo. Não que Lucas Lima e Dudu, por exemplo, estejam brilhando, mas se sabe que podem e conseguem jogar mais. Eu boto fé no Roger, acho um técnico inquieto e atento, me parece ter condições de fazer o time ter mais liga.

9
Com um futebol de aspirantes à Europa ou ex-quase craques que passaram do ponto, só duas coisas podem salvar o Brasileirão: técnicos de longo prazo, para criar estilo e jogo coletivo, e conseguirem tornar as partidas mais interessantes de se assistir numa geleia de repetições e mediocridade; e estádios com atmosfera – clima na cancha dá vontade de ver o jogo e eleva o gás dentro de campo.

10
O que o Otero pega na bola é brincadeira. Mais um daqueles caras que decidem os jogos pela forma com que tocam na bola – Marcelinho, Arce, Petkovic, Marcos Assunção. Não é só ser um grande batedor de faltas ou escanteios e o time ganhar o jogo na bola parada, é ter um repertório de batida muito acima da média, coisa rara. E o Roger Guedes, mais ou menos como disse (acho que o) Tostão sobre Alexandre Pato, virou craque antes de virar jogador, o clássico do futebol brasileiro exportação.

*Paulo Junior é jornalista da Central 3, onde apresenta o podcast da Trivela, e editor do Puntero Izquierdo

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