O Nottingham Forest campeão inglês de 1977

Dez casos de recém-promovidos que fizeram barulho na Inglaterra, antes e depois da Premier League

A Premier League ganhou três convidados novos e interessantes nesta temporada: o Newcastle, o Huddersfield e o Brighton. Dois campeões nacionais e nenhum novato na primeira divisão inglesa. O que conseguirão fazer contra os elencos milionários de Chelsea, Manchester United, Manchester City e companhia? Começaremos a ter a resposta a partir deste final de semana, quando a temporada 2017/18 do Campeonato Inglês terá o seu pontapé inicial.

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Convém não nutrir altas expectativas, apesar de a Inglaterra ter um histórico respeitável de equipes que causaram barulho logo depois de conquistarem o acesso à elite. Um fenômeno chamado de “English Energy”. Há mais casos do que em outros países de clubes recém-promovidos que imediatamente fizeram grandes campanhas, brigando com unhas e dentes pelo título e, em cinco ocasiões, conquistando-o: Liverpool, Everton, Tottenham, Ipswich e Nottingham Forest.

Era outra época. O dinheiro não era tão importante quanto um trabalho bem feito de prospecção de jogadores, administração de elenco e novidades táticas. Ainda havia muito talento para ser descoberto em equipes menores e era possível, com bons contatos e uma ampla rede de olheiros, montar um time de potencial mesmo na segunda divisão – e havia mais paciência para desenvolvê-lo. A diferença de nível técnico entre os degraus da pirâmide era menor e, quando o clube subia, podia se tornar um concorrente com alguma sorte e muita competência.

Na era Premier League, isso ficou mais difícil. Com um grupo de elite estabelecido em pedra, e uma diferença brutal de orçamento, a boa campanha para um novato tornou-se o oitavo ou o nono lugar. Com alguma sorte, o sétimo. E, mesmo assim, houve concorrentes que conseguiram ir além e brigar pelas primeiras posições, como vamos contar a seguir: cinco casos pré-Premier League e cinco da era moderna do campeonato Inglês.

Os milagres de Merseyside
John Houlding, pai do Liverpool

John Houlding, pai do Liverpool

O Liverpool foi campeão no primeiro Campeonato Inglês do novo milênio, em 1900/01, mas sofreu uma baixa importante nos anos seguintes. O fundador do clube, o ex-prefeito da cidade John Houlding, morreu em 1902, e, com isso, os Reds perderam dinheiro e influência. Caíram vertiginosamente da primeira para a 11ª posição na temporada seguinte. Conseguiram um quinto lugar, na sequência, mas a bomba explodiu em 1903/04. Cinco derrotas seguidas no começo da campanha cobraram o seu preço, com mais oito jogos sem vitória na época do Natal. Para piorar as coisas, o principal atacante, Sam Raybould, perdeu 19 rodadas da liga por lesão. E o Liverpool ainda levou 5 a 2 do Everton, em Goodison Park. Terminou na penúltima posição, a um ponto do Stoke City, o primeiro clube da tabela que não foi rebaixado.

O Liverpool conquistou a segunda divisão no ano seguinte e retornou imediatamente. Mas o começo da nova campanha na elite foi terrível: cinco derrotas nas oito primeiras rodadas, inclusive 5 a 0 para o Aston Villa, em Birmingham, e outra sapatada do Everton, 4 a 2 no Goodison Park. Foram 20 gols sofridos nesse período. Os ventos começaram a mudar com a chegada do goleiro Sam Hardy, para substituir o veterano Ned Doig, e o Liverpool sofreu apenas 26 gols nas 30 rodadas seguintes. Encerrou o primeiro turno com uma sequência de 11 jogos sem derrota e foi campeão com quatro pontos a mais que o segundo colocado Preston North End.

Esta foi a primeira vez na história do Campeonato Inglês que um clube saiu da segunda divisão direto para o título. A segunda também envolveu uma equipe de Merseyside. O Everton passou por um processo parecido: foi campeão em 1927/28 e caiu vertiginosamente de produção, com o 18º lugar na temporada seguinte e o rebaixamento na sequência. Voltou campeão da segunda divisão, como o Liverpool, e ganhou a liga de 1931/32 com dois pontos a mais do que o Arsenal, que havia acabado de ser campeão pela primeira vez na sua história, sob o comando de um tal de Herbert Chapman, e repetiria o feito nos três anos seguintes ao vice-campeonato para o Everton.

Push and run
Arthur Rowe, ex-técnico do Tottenham

Arthur Rowe, ex-técnico do Tottenham

O Tottenham amargava a segunda divisão desde antes do começo da Segunda Guerra Mundial quando colocou um dos seus ex-jogadores no comando da equipe. Arthur Rowe, defensor com 182 partidas pela liga inglesa com a camisa dos Spurs, chegou em 1949 para mudar o destino do clube e, para muitos, do próprio futebol. Pelo estilo que implementou, sua equipe foi chamada de “push and run”. Em tradução livre, o um-dois, o toco e me vou. Consiste no conceito mais simples do futebol: passar a bola para o companheiro e correr para uma boa posição para recebê-la de volta. Durante 30 anos, o Liverpool conquistaria a Inglaterra e a Europa com esse conceito, que guarda semelhança com o tiki-taka e com o futebol total holandês.

Rowe, estivesse vivo, poderia se gabar de ter influenciado grandes mentes do futebol europeu. Comandou Alf Ramsey, técnico do título mundial da Inglaterra, e Bill Nicholson, o chefe da dobradinha do Tottenham em 1961. Vic Buckingham encerrou a carreira no momento em que ele chegou aos Spurs e testemunhou de perto a transformação do time. Anos depois, Buckingham treinaria o Ajax, lançaria Cruyff e seria um dos precursores do futebol total do time holandês.

O impacto de Rowe foi imediato no Tottenham: campeão absoluto da segunda divisão com nove pontos de vantagem para o segundo colocado – na época em que a vitória dava apenas dois pontos. E na elite, os Spurs foram mais uma vez dominantes, apesar do começo ruim, com apenas três vitórias nas nove rodadas iniciais. No entanto, a equipe emendou oito vitórias seguidas e foi derrotada apenas mais quatro vezes, até selar o título na penúltima partida, com vitória por 1 a 0 sobre o Sheffield Wednesday. Curiosamente, o mesmo adversário contra o qual seriam campeões pela segunda vez, dez anos depois, com Nicholson no comando.

Nó tático do campeão do mundo
Alf Ramsey, arquiteto de uma das maiores zebras da Inglaterra

Alf Ramsey, arquiteto de uma das maiores zebras da Inglaterra

Na caminhada do Leicester rumo ao título da Premier League, a comparação mais comum era com o Nottingham Forest. No entanto, muitos atentavam que a maior zebra do século vinte no futebol inglês não era o time de Brian Clough: era o de Alf Ramsey. Quando o técnico campeão mundial com a Inglaterra assumiu o Ipswich, em 1955, o clube estava na terceira divisão. Sete anos depois, levantava o principal troféu do Campeonato Inglês.

Não foi à toa que, depois dessa passagem pelo Ipswich, a Federação Inglesa escolheu Ramsey para comandar a seleção na Copa que o país sediaria. O treinador liderou um elenco barato, que custou apenas £ 30 mil – o recorde de transferências da época do título eram as £ 152 mil que a Inter desembolsou para contratar Luis Suárez do Barcelona. Sob o comando de Ramsey, o galês John Elsworthy foi campeão dos três primeiros níveis da pirâmide profissional da Inglaterra.

O Ipswich tinha jogadores modestos, que atuavam com um espírito coletivo muito forte, conscientes das suas limitações. Ramsey colocou o seu dedo em duas mudanças táticas. Apesar de ter sido jogador de Arthur Rowe no estilo de passes curtos e paciência do Tottenham, que era replicado por Bill Nicholson nos Spurs que haviam acabado de conquistar a dobradinha, o Ipswich executava um jogo mais direto. Ramsey também recuou o extrema esquerda Jimmy Leadbetter, que atraía a marcação e abria espaços para os centroavantes Ted Phillips e Ray Crawford. Uma inovação parecida com a da seleção brasileira na Copa do Mundo de 1958, quando Zagallo atuou mais no meio-campo do que na ponta.

O começo da campanha foi ruim, com três jogos sem vitória, mas o Ipswich arrancou em fevereiro: nas últimas 16 rodadas, foi derrotado apenas pelo Manchester United, e com tropeços de Burnley e Tottenham, assegurou o título com três pontos de vantagem para o segundo colocado. Ramsey saiu no ano seguinte para treinar a Inglaterra, e o Ipswich… voltou para a segunda divisão.

Da Guerra das Rosas a Cantona
Billy Bremmer, o baixinho  que liderava o Leeds (Foto: Getty Images)

Billy Bremmer, o baixinho que liderava o Leeds (Foto: Getty Images)

Como muitas histórias do futebol inglês em que um clube sai da segunda divisão para a glória, a do Leeds começa com a nomeação de um novo treinador. Don Revie terminou a temporada 1960/61, a primeira do clube na segunda divisão após quatro anos seguidos na elite, como técnico e jogador. Foi efetivado para a Segundona seguinte, no qual o Leeds lutou contra o rebaixamento para a terceira divisão. Mas as coisas começaram a andar: com Billy Bremmer e Jack Charlton, foi quinto colocado e, depois, subiu para a elite como campeão da Segundona.

A temporada de 1964/65 seria a eclosão de uma rivalidade quente do futebol inglês que vinha sendo cozinhada fora de campo. Cidades próximas, Manchester e Leeds disputaram a coroa no século quinze, por meio das casas de Lancaster e York, e suas indústrias, o mercado de algodão, na revolução industrial. Don Revie transformaria o Leeds em um grande competidor, rivalizando com o United de Matt Busby. E transformando-o em um baita freguês: durante a era Revie, o Leeds encarou os Diabos Vermelhos 25 vezes e perdeu apenas três partidas. O ódio entre os times seria retomado nos anos noventa, com a transferência de Cantona para Old Trafford.

No retorno do Leeds à primeira divisão, os rivais disputaram dois títulos cabeça a cabeça, com uma vitória para cada lado. A semifinal da Copa da Inglaterra terminou empatada por 0 a 0, gerando uma segunda partida. Esse segundo duelo também foi mais pegado do que jogado, e o gol que classificou o Leeds à final, a primeira da sua história na FA Cup, saiu dos pés de Billy Bremmer, apenas aos 44 minutos do segundo tempo do replay.

No Campeonato Inglês, porém, a história foi diferente. O Leeds chegou à última rodada na liderança, com um ponto de vantagem para o Manchester United. Mas apenas empatou com o Birmingham City, por 3 a 3, fora de casa, e parou nos 61 pontos. O United recebeu o Arsenal e venceu por 3 a 1, também chegando aos 61 pontos. Como tinham um saldo de gols muito maior – 50 a 31 -, os Diabos Vermelhos ficaram com a taça. Na temporada de retorno à elite, o Leeds United poderia ter conquistado a dobradinha, mas, como perdeu a final da FA Cup para o Liverpool, terminou de mãos vazias.

O mesmo raio, dois lugares (muito próximos)
Brian Clough, técnico do Derby e do Nottingham Forest

Brian Clough, técnico do Derby e do Nottingham Forest

Atacante com média próxima a um gol por partida, a carreira profissional de Brian Clough terminou precocemente, aos 29 anos, por causa de problemas físicos. Antecipou o começo da bem sucedida carreira de treinador profissional, na qual ele conseguiu alcançar ainda mais sucesso com os rivais de East Midlands: o Derby County e o Nottingham Forest. E a coincidência é que, nos dois projetos, Clough tirou os clubes da segunda divisão e não demorou a levá-los para a primeira colocação do Campeonato Inglês.

O primeiro trabalho foi no Derby. Com o seu braço direito Peter Taylor, Clough havia tido uma boa passagem pelo Hartlepool United e foi convidado para treinar o County no começo da temporada 1967/68. Atacou o mercado de transferências, trazendo jogadores importantes para os anos posteriores, como Alan Hinton, John O’Hare e Roy McFarland. Retornou à primeira divisão como campeão da Segundona e imediatamente incomodou os grandes. Terminou o Campeonato Inglês na quarta posição. Na campanha, ganhou as partidas como mandante contra o campeão Everton e o vice Leeds United. Seria nono no torneio seguinte, antes de levar o Derby ao primeiro título da sua história, em 1971/72.

Clough ficaria apenas mais um ano no clube. Tinha o hábito de brigar com a diretoria e pedir demissão para que implorassem pela sua permanência ou lhe dessem um contrato melhor – até o dia em que o lobo realmente comeu o menino. Treinou o Brighton e teve 44 dias malditos no Leeds United antes de assumir o comando do Nottingham Forest e executar um milagre parecido. Só que ainda mais grandioso.

Ele pegou uma equipe que vagava na segunda divisão há três anos e a levou de volta à elite em duas temporadas. Assim que retornou, foi campeão incontestável. Com uma forte defesa, que sofreu apenas 24 gols em 42 partidas, o Nottingham Forest terminou o Campeonato Inglês com 64 pontos, sete a mais do que o grande Liverpool de Bob Paisley. E o melhor ainda estava por vir: na sequência, o Forest de Clough seria bicampeão europeu.

O protótipo de um time campeão
Shearer, o craque daquele Blackburn

Shearer, o craque daquele Blackburn

O Blackburn foi um dos fundadores do Campeonato Inglês, mas, no começo da década de noventa, estava longe do seu melhor. Não disputava a primeira divisão desde 1966 e passeou duas vezes pela terceira. Os rumos foram modificados pela chegada de um milionário. Jack Walker, gigante da indústria do aço, estava no clube desde meados da década passada e assumiu o controle dos Rovers, em 1991, com um projeto ambicioso. Para liderá-lo, trouxe uma lenda: Kenny Dalglish, que havia acabado de deixar o comando do Liverpool.

A equipe de Dalglish chegou à liderança da segunda divisão de 1991/92, em dezembro, mas sofreu com uma série de seis derrotas consecutivas e caiu para sétimo. Terminou em sexto e conseguiu vaga nos playoffs, por meio dos quais, com vitórias sobre Derby County e Leicester, conquistou o acesso. Atacou o mercado de transferências com volúpia. Gastou £ 11,4 milhões, mais do que qualquer outro time da liga. Trouxe Tim Sherwood, do Norwich, Stuart Ripley, do Middlesbrough, Graeme Le Saux, do Chelsea, e um promissor atacante do Southampton, que atendia pelo nome de Alan Shearer.

Não é à toa que Shearer se tornou o maior artilheiro da história da Premier League: nas 11 primeiras rodadas da liga inglesa moderna, também as suas 11 primeiras com a camisa do Blackburn, ele marcou 12 gols. Levou seu clube à ponta da tabela, mas se machucou na metade da temporada e o rendimento dos Rovers não foi mais o mesmo. Ainda assim, o quarto lugar, a três pontos do segundo colocado Aston Villa, foi excelente para um clube que sentia o gostinho da elite pela primeira vez em quase 30 anos.

Walker continuou investindo para levar o Blackburn ao topo e, no fim, conseguiu. Seu time foi segundo colocado da Premier League seguinte, a oito pontos do Manchester United, e se sagrou campeão inglês pela primeira vez desde 1914, apenas dois anos depois de sair da Segundona.

O artistas de Kevin Keegan
Andy Cole, do Newcastle (Foto: Getty Images)

Andy Cole, do Newcastle (Foto: Getty Images)

Em maio de 1992, o Newcastle estava muito próximo de cair para a terceira divisão. Conseguiu escapar com duas vitórias nas rodadas finais, contra Portsmouth e Leicester. Um ano depois, a história era completamente diferente: os artistas de Kevin Keegan, ex-atacante lendário da Inglaterra que acabara de assumir o comando do clube, golearam o mesmo Leicester por 7 a 1 para selar o título da Segundona e assegurar o acesso à Premier League.

A equipe marcou 92 gols em 46 partidas, com tal estilo ofensivo que o time ganhou o apelido de The Entertainers, ou “Os Artistas”, na tradução livre mais próxima que deu para arranjar. A volúpia pelo ataque não arrefeceu na Premier League, quando o Newcastle enfileirou mais 82 gols, o melhor ataque da competição. Andy Cole, sozinho, fez 34, antes de ser vendido para o Manchester United. O Newcastle somou 77 pontos e ficou longe do campeão United – com 92 -, mas ainda foi a melhor classificação do time na primeira divisão desde 1927, quando conquistou o seu último título inglês.

O Newcastle seguiria poderoso sob o comando de Keegan e seria duas vezes vice. A primeira derrota, em 1995/96, foi dolorida: o time chegou a ter 12 pontos de vantagem no começo de fevereiro, mas entrou em um espiral negativo, com apenas duas vitórias em oito rodadas e deixou o Manchester United encostar. O time de Ferguson acabou campeão com quatro pontos de vantagem. Na temporada seguinte, já com Shearer no elenco, o Newcastle voltou a ficar em segundo lugar, agora a sete pontos dos Diabos Vermelhos, e a era dos artistas de Keegan chegou ao fim.

O sucessor de Clough
Frank Clark, sucessor de Clough no Nottingham Forest (Foto: Getty Images)

Frank Clark, sucessor de Clough no Nottingham Forest (Foto: Getty Images)

Brian Clough encarou problemas mais complicados do que defesas bem armadas e ataques fulminantes na reta final da sua carreira. As doses cavalares de álcool que bebia desde a juventude cobraram o preço. Não conseguia mais motivar os seus jogadores e impressioná-los com tiradas inteligentes. Entregou o Nottingham Forest para o seu sucessor, em 1993, onde o havia encontrado, 18 anos antes: na segunda divisão.

Esse sucessor era Frank Clark, lateral esquerdo da equipe bicampeã europeia. Contava com a benção de Clough, que o havia recomendado para o cargo nove anos antes. Era equilibrado e não entrava em polêmicas, das quais o seu antecessor tirava toda a energia para trabalhar. Clark chegou a chamar Clough de “o último dos ditadores”, na linha de outros técnicos centralizadores, como Matt Busby, Bill Shankly, Bill Nicholson e Don Revie. Ele seria mais democrático.

Funcionou. Clark fez bons negócios no mercado. O mais importante deles foi a compra de Stan Collymore, do Southend United, e o Nottingham Forest retornou imediatamente para a primeira divisão, com o segundo lugar da Segundona. A briga pelo título da Premier League de 1994/95 ficou dividida entre o campeão Blackburn e o segundo colocado Manchester United, com 89 e 88 pontos, respectivamente. O Forest foi o melhor do resto, em terceiro lugar, com 77. Não perdeu nenhuma para os Diabos Vermelhos.

Collymore marcou 22 vezes, o quarto melhor marcador da liga, e foi vendido para o Liverpool, por £ 11,7 milhões. A classificação valeu vaga para a Copa da Uefa do ano seguinte, e o Forest fez um bom papel. Chegou às quartas de final, eliminando os franceses Auxerre e o Lyon. Nas semifinais, foi presa fácil para o Bayern de Munique, que ganhou por 7 a 2 no placar agregado. No Campeonato Inglês, ficou em nono lugar, e Clark saiu para treinar o Manchester City. O clube, por sua vez, voltou à segunda divisão, subiu de novo e caiu de novo. E desde então, nunca mais disputou um torneio na elite da Inglaterra.

Ascensão meteórica, queda vertiginosa
Marcus Stewart, artilheiro do Ipswich (Foto: Getty Images)

Marcus Stewart, artilheiro do Ipswich (Foto: Getty Images)

O Ipswich havia terminado a segunda divisão em terceiro lugar e precisou passar pelos playoffs para retornar à Premier League. Já em uma época em que o dinheiro ditava muitas das regras, o clube era um dos favoritos ao rebaixamento, depois de ter investido menos de £ 9 milhões em contratações. O técnico era George Burley, lateral direito da grande equipe de Bobby Robson, campeã da Copa da Inglaterra e da Copa da Uefa – machucado, não jogou as finais contra o AZ Alkmaar. Burley teve a presença de espírito de não reformular o elenco, como fazem muitos dos times que são promovidos, e deu certo.

A equipe encaixou direitinho. Richard Wright pegou tanto que acabou negociado com o Arsenal na temporada seguinte. O grande destaque, porém, foi o centroavante. Em sua primeira temporada na elite, Marcus Stewart roubou as manchetes com 19 gols em 34 rodadas, atrás apenas de Jimmy Floyd Hasselbaink, do Chelsea, artilheiro com 23. Lembra algum Jamie Vardy? Marcou nos principais resultados campanha: dois gols no 3 a 2 sobre o Manchester City, fora de casa e o tento da vitória por 1 a 0 sobre o Liverpool, em Anfield. O Ipswich terminou na quinta colocação, a distantes 14 pontos do campeão Manchester United, mas a apenas quatro do segundo colocado, o Arsenal. “Eu nunca havia percebido que era um bom jogador”, disse Stewart, anos depois. “Eu só fazia meu trabalho todos os dias. Acho que era um pouco inseguro e sempre pensei que não era bom o bastante. Por isso trabalhava tão duro”.

Se a ascensão foi meteórica, a queda foi vertiginosa. Wright foi embora, e a reposição, o italiano Matteo Sereni, da Sampdoria, não foi bem e acabou a temporada na reserva. Stewart perdeu algumas partidas machucado e caiu de 19 gols para apenas seis. A campanha do Ipswich é até um pouco engraçada (para quem não torce pro time, como o ex-vocalista do Linkin Park): venceu apenas uma partida nas primeiras 17 rodadas; em seguida, emendou uma sequência com sete vitórias e uma derrota; e terminou com apenas um triunfo nas últimas 13 partidas, com direito a ser goleado pelo Liverpool, por 5 a 0, no último dia da temporada. Evidentemente, foi rebaixado e nunca voltou à elite. Conseguiu desfrutar de um pouco de futebol europeu, pelo menos. Passou pelo Torpedo Moscou, o Helsingborg e chegou a vencer a Internazionale, antes de levar 4 a 1 no San Siro e ser eliminado, na terceira rodada.

Trabalho em equipe
Steve Coppell, ex- comandante do Reading (Foto: Getty Images)

Steve Coppell, ex-
comandante do Reading (Foto: Getty Images)

Quando o Reading conquistou o acesso para a Premier League, campeão da Championship com uma campanha irretocável, na qual perdeu apenas duas vezes e anotou 106 pontos, não era o retorno da equipe à elite da Inglaterra: era a primeira participação da equipe na primeira divisão em mais de cem anos de história. Tal mudança de rumo no futebol geralmente tem um milionário por trás, mas, no caso dos Royals, foi fruto de um trabalho bem feito de longo prazo.

Steve Coppell foi o líder do projeto. Já era um treinador experiente quando assumiu o comando da equipe, em 2003, e demorou quatro anos para levá-la à primeira divisão. Quase conseguiu na primeira temporada, com a quarta posição e a vaga nos playoffs, mas o Reading perdeu para o Wolverhampton, nas semifinais. Coppell herdou o elenco de Alan Pardew e preferiu não fazer muitas mudanças, uma filosofia que foi mantida no acesso à Premier League.

O Reading valorizou o ambiente de trabalho e abordou o mercado de transferências com cautela, sem fazer grandes loucuras para se manter na primeira divisão. Gastou apenas £ 8,3 milhões e não perdeu nenhum jogador importante. Contou com uma boa comissão técnica, uma análise detalhada dos adversários e um forte espírito coletivo. Foi o bastante para ser oitavo colocado da Premier League, atrás do Bolton, sétimo, e dos seis clubes mais ricos da época: Manchester United, Chelsea, Liverpool, Arsenal, Tottenham e Everton.

O elenco contava com alguns bons nomes, mas nenhum que explodiu. O que mais ganhou chances foi Shane Long, ainda um jovem de 20 anos. O artilheiro foi Kevin Doyle, com 13 gols na Premier League. Das equipes que ficaram à sua frente, venceu as duas do Bolton e conseguiu três pontos em casa, contra o Tottenham, e teve também uma boa caminhada na Copa da Inglaterra. Chegou à quinta rodada e forçou um replay contra o Manchester United, depois de empatar por 1 a 1, em Old Trafford.

A vida na elite durou pouco. Na temporada seguinte, a diferença técnica e de investimento pesou bastante, e o Reading foi rebaixado para a segunda divisão. Coppell pediu o boné depois de falhar na tentativa de levar o clube de volta, derrotado nos playoffs da Championship pelo Burnley. O Reading ainda voltou para a Premier League, em 2011/12, mas foi rebaixado imediatamente e segue na segunda divisão desde então.