Nos últimos anos, acompanhar a briga pelo título na Bundesliga não foi das tarefas mais interessantes. No geral, o Bayern de Munique disparou na tabela e, por um lampejo ou outro, ganhou concorrência nem sempre duradoura. Olhar apenas para o topo, porém, é um desperdício, diante de tudo o que acontece em um dos campeonatos mais legais da Europa. Exceção feita à briga pela Salva de Prata, o Alemão costuma ser bastante competitivo, especialmente na luta pelas copas europeias e contra o rebaixamento. Tem enorme qualidade técnica, com partidas boas de se assistir mesmo entre equipes medianas, também pelas promessas que começam a aparecer. Além do ambiente nos estádios, sempre cheios e com seus shows nas arquibancadas.

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Felizmente, a temporada da Bundesliga que começa nesta sexta se desenha um pouco mais aberta. Pode ser só mero desejo que não se concretizará, mas o fato é que as mudanças e as consolidações apontam para um cenário diferente para a campanha. E que o Bayern dispare mais uma vez, ainda há muita coisa bacana para se acompanhar na Alemanha. Abaixo, listamos dez histórias, confira:

– Qual vai ser o limite do Bayern de Ancelotti?

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Olhando para o papel, o Bayern de Munique está mais forte para esta temporada. Teve perdas que não geram tanto efeito assim ao time titular, enquanto trouxe Mats Hummels e Renato Sanches, dois acréscimos de peso para a sua rotação. Enquanto isso, Carlo Ancelotti já se adapta ao novo ambiente. Depois de três anos com Pep Guardiola, o italiano apresenta um perfil distinto à Baviera, mas demonstra que também se aproveitará de parte das bases utilizadas por seu antecessor. Que o Bayern é o grande favorito para o pentacampeonato alemão, disto não há dúvidas. A questão está mais sobre a reação do time, que permaneceu soberano, mas vinha perdendo forças no final das últimas temporadas. Se o objetivo (ou obsessão) for mesmo a Champions, é ver como o clube administrará suas capacidades na Bundesliga. Ou se a utilizará como preparação para acumular recordes, como em 2012/13. O problema é que, no retrovisor, segue com um dos melhores clubes da Europa em seu encalço.

– Os efeitos da reformulação vivida pelo Dortmund

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A primeira temporada de Thomas Tuchel no Signal Iduna Park foi acima das expectativas. Ok, o título não veio e a eliminação na Liga Europa deixou um gosto amargo na boca. Mas, para um ano de estreia, a maneira como o time se portou em campo agradou demais. O comandante terá que lidar com a venda de três jogadores fundamentais na coluna vertebral aurinegra, mas cujas saídas não foram em nada surpreendentes, diante de tudo o que se especulava desde Jürgen Klopp. E, mesmo sem reposição à altura para todos eles, o Dortmund teve um trunfo enorme ao conseguir segurar Aubameyang e também investiu pesado no mercado – sobretudo, pensando no futuro. Götze e Schürrle são respostas imediatas, mas os demais nomes tendem a ascender em pouco tempo. De qualquer forma, a cobrança vem agora. E não seria um mau momento para intensificar o trabalho na tentativa de se aproximar de um Bayern em transição.

– O Leverkusen dará um passo à frente?

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Em qualidade de elenco, há uma diferença gritante entre as duas principais potências da Bundesliga e o restante de seus concorrentes. Mas uma temporada de trocas nos ponteiros e consolidação no segundo pelotão pode até gerar alguma surpresa. Talvez o mais próximo seja mesmo o Bayer Leverkusen, apesar da aptidão natural à tragédia. Os Aspirinas vem de um bom final de temporada e, por enquanto, não perderam nenhum destaque. Mais do que isso, fizeram duas das contratações mais interessantes até o momento: o zagueiro Aleksandar Dragovic, pronto para oferecer solidez ao setor defensivo, e o atacante Kevin Volland, que já fazia hora extra no Hoffenheim. Juntam-se a um elenco jovem e com muita qualidade técnica principalmente no setor ofensivo, com opções de variações – em especial, Chicharito Hernández, Hakan Çalhanoglu e Karim Bellarabi. O técnico Roger Schmidt, todavia, ainda está devendo desde sua chegada ao clube.

– Borussia Mönchengladbach, entre a maratona e a consistência

Raffael (Atacante, 30 anos, Borussia Mönchengladbach) – O principal líder da reviravolta vivida pelos Potros nesta temporada, o veterano possui enorme influência na construção ofensiva de sua equipe. São sete gols e oito assistências na Bundesliga. Além de qualidade técnica, possui muita inteligência nas ações.

Embora o elenco do Bayer Leverkusen seja mais recheado, o Borussia Mönchengladbach parece até mais próximo para dar este salto de qualidade. O problema é que a última temporada deixa uma pulga atrás da orelha. Os Potros tiveram um início de campanha horroroso e, quando engrenaram na Bundesliga, não tiveram o mesmo sucesso na Champions League. O desempenho arrasador nas preliminares do torneio continental desta vez, assim como o crescimento na temporada passada, são pontos a favor do time de André Schubert. Mesmo assim, o elenco não tem tanta profundidade para encarar duas frentes tão pesadas, especialmente com o sorteio ingrato na LC. Dependerá mais da fase excelente de alguns de seus destaques, como Raffael e Thorgan Hazard. Ao menos é uma equipe que costuma fazer ótimas atuações quando bate de frente com os primeiros da tabela.

– Uma incógnita chamada Schalke 04

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Por potencial, o Schalke 04 poderia muito bem estar no mesmo patamar do rival Borussia Dortmund. O que parece distante de acontecer. E, por enquanto, voltar à Champions já está de bom tamanho para os Azuis Reais. Não que o elenco não tenha sua qualidade, pelo contrário. Mas, na temporada passada, faltou maturidade para poder engrenar. Não à toa, depois de perder o seu maior talento, Leroy Sané, o Schalke investiu em lideranças para o grupo, como Naldo e Coke. E também aumenta o número de jovens prodígios em uma equipe com margem para ascender. Max Meyer, Geis e Goretzka são ótimos, mas o fardo para eles acabou sendo pesado demais em 2015/16.

– A briga de foice pela Champions

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O problema do segundo pelotão da Bundesliga é que, na realidade, ele parece mais próximo de quem vem de trás do que dos ponteiros. O que não deixa de ser ruim, pensando na competitividade pela vaga na Liga dos Campeões. Em 2014/15, durante um bom tempo, o G-4 foi terra de ninguém, com Hertha Berlim, Wolfsburg e Mainz 05 se aproximando. Passando por lá. Destes, o Mainz sofreu com mudanças, mas trouxe jovens valores e conta com o bom trabalho do técnico Martin Schmidt. O Wolfsburg deixa a interrogação, depois de vender alguns de seus principais jogadores, tanto na defesa quanto no ataque, e fazer poucas apostas no mercado – isso porque outros protagonistas ainda podem sair. Por fim, com a mesma base, o Hertha aguarda que o raio caia outra vez no Estádio Olímpico, o que parece um pouco difícil, depois da decepção inicial na Liga Europa.

– Os clubes do norte, enfim, poderão respirar em paz?

Claudio Pizarro, do Werder Bremen (Foto: AP)

Hamburgo e Werder Bremen vêm de anos sombrios. O fantasma do rebaixamento insiste em rondar os rivais do norte do país. Na temporada passada, os Dinossauros até respiraram aliviados, cinco pontos acima da zona da degola, para quem vinha de duas disputas seguidas dos playoffs. O Werder, contudo, precisou lutar até o final. E ambos apostam suas fichas para um novo começo. Os verdes buscaram Max Kruse, encorpando uma linha de frente que já era forte, além de buscar nomes mais modestos para vários outros setores. Enquanto isso, o Hamburgo sempre teve um elenco para fazer mais do que vinha fazendo, e suas atenções se voltam para alguns jovens valores. Considerando o equilíbrio costumeiro no meio da tabela na Bundesliga, dá até para tentar buscar uma boquinha nas copas europeias. Antes disso, é claro, precisam da consistência que vem passando longe de seus estádios.

– RB Leipzig: Talento, dinheiro e ódio (dos outros)

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Por um momento, deixe de lado a briga que se envolve além dos gramados. Esportivamente, o RB Leipzig possui um dos projetos mais interessantes da Alemanha. Além de desenvolver suas próprias categorias de base, o clube também investe alto em outros prodígios, que geralmente concentram os gastos no mercado. É só ver no papel a equipe recheada: Yussuf Poulsen, Massimo Bruno, Willi Orban, Emil Forsberg, Davie Selke, Lukas Klostermann, Marcel Sabitzer, além dos recém-chegados Timo Werner e Naby Keïta. Não será surpreendente se, com o amadurecimento desta mesma base, em poucos anos os Touros Vermelhos briguem pela Champions. A questão está mais na resistência que tendem a enfrentar fora de campo. O projeto bancado pela Red Bull não é visto com bons olhos pela maioria das torcidas alemãs. E a pressão será grande. No comando, outro nome interessante é o de Ralph Hasenhüttl, trazido após afirmar o Ingolstadt na elite.

– É bom não deixar de observar o Freiburg

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O grande assunto vindo da segundona será o RB Leipzig. Mas, não custa lembrar, o atual campeão é o Freiburg, que nadou de braçada durante a maior parte da campanha e apresenta perspectivas também interessantes. A base que conquistou acesso já trazia bons nomes, como Nils Petersen, Marc-Oliver Kempf e Mats Moller Daehli. E ganha força com negócios feitos a partir de boas observações no mercado, sem gastar tanto e buscando jovens com potencial. Neste primeiro momento, o objetivo deve ser mesmo o de se manter na elite. O que, observando as perdas no comando de Ingolstadt e Darmstadt, além da queda de rendimento de Hoffenheim e Eintracht Frankfurt, dá até para conseguir sem tantos sobressaltos.

– A injeção de juventude que se faz necessária na seleção

Joachim Löw, técnico da Alemanha

O assunto foi recorrente nos tópicos anteriores. Afinal, o futebol alemão se estruturou nos últimos anos em cima disso: a renovação de seus talentos. O problema é que, enquanto as apostas abundam nos clubes, a seleção tem um pouco de trabalho para moldar a geração que conquistou a Copa do Mundo de 2014, mas perdeu protagonistas e sofreu as consequências na Euro 2016. Pensando no que virá para o Mundial da Rússia, este é um momento fundamental para Joachim Löw. E, de certa maneira, a Bundesliga serve como seu laboratório.