Não há como falar sobre a seleção de Senegal sem que venha à mente aquela sensação de acordar nas manhãs de outono e já ligar a televisão para acompanhar os jogos da Copa do Mundo de 2002. O Mundial da Coreia do Sul e do Japão faz parte da memória afetiva de muita gente, até pelo sucesso da seleção brasileira rumo ao pentacampeonato. E a trajetória dos Leões de Teranga naquela competição é lembrança inerente. A vitória sobre a França na estreia. Os nomes de Diouf, Fadiga, Bouba Diop e outros tantos que eclodiram naqueles dias mágicos. Desde então, a história mundialista dos senegaleses adormeceu. Passou 16 anos em hibernação. Mas ressurge nesta sexta, com a classificação do país para a sua segunda Copa.

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Nem mesmo os remanescentes da geração de ouro foram capazes de recolocar Senegal no Mundial durante as três edições seguintes da competição. Em 2006, os Leões de Teranga ficaram a dois pontos de Togo nas Eliminatórias. Quatro anos depois, rumo ao Mundial da África do Sul, a equipe sequer passou para a fase final, eliminada pela Argélia em seu grupo preliminar. Por fim, em 2014, a pedra no sapato foi a Costa do Marfim. As duas seleções já tinham se encarado um ano antes, em tumultuado duelo pelas eliminatórias da Copa Africana de Nações, quando o jogo que selava a classificação dos Elefantes sequer foi encerrado, com os torcedores revoltados ateando fogo nas arquibancadas em Dacar. No reencontro que valia vaga ao Brasil, os marfinenses voltaram a se dar melhor, vencendo os dois jogos. Ampliavam o jejum dos senegaleses.

Obviamente, os membros de 2002, pouco a pouco, foram se despedindo da seleção ao longo da última década. Mas Senegal também conseguiu gestar um novo elenco talentoso. O atual grupo dos Leões de Teranga não deixa a desejar, com muitos atletas se destacando nas principais ligas europeias. Entre as equipes nacionais africanas, aliás, é uma das mais tarimbadas neste sentido atualmente. Sadio Mané acaba sendo o nome óbvio entre as estrelas. Mas a qualidade se nota nos demais setores, com Kalidou Koulibaly, Idrissa Gueye, Cheikhou Kouyaté, Keita Baldé e ainda outros que formam a base do time atual.

Uma mostra do potencial de Senegal tinha vindo nas últimas duas edições da Copa Africana de Nações. Esperava-se mais dos Leões de Teranga, sobretudo em 2015, quando caíram para Gana e Argélia na fase de grupos. Neste ano, passaram com autoridade pelos mata-matas, deixando os argelinos pelo caminho. Mas cairiam nas quartas de final, nos pênaltis, para Camarões – que acabaria ficando com a taça. Havia talento, faltava aproveitar o momento. De qualquer maneira, o grande feito dos senegaleses ainda estava por vir. E ele se consumou nesta sexta, com a festa pela vitória por 2 a 0 sobre a África do Sul, que valeu a vaga no Mundial da Rússia.

Após eliminar Madagascar nas preliminares, Senegal encarava uma chave de adversários tarimbados em torneios internacionais: África do Sul, Cabo Verde e Burkina Faso, todos com participações recentes na CAN. Em meados da campanha, os Leões de Teranga até pareciam se complicar, com dois empates diante dos burquinenses, em um grupo bastante equilibrado. Contudo, a derrota para a África do Sul na segunda rodada acabou anulada. O árbitro Joseph Lamptey, que assinalou um pênalti inexistente para os Bafana Bafana, foi banido do futebol pelo envolvimento com um esquema de manipulação de resultados. O jogo remarcado aconteceu nesta sexta, no Estádio Peter Mokaba. E a vitória dos visitantes por 2 a 0, a terceira na terceira fase das Eliminatórias, carimbou o passaporte com uma rodada de antecedência.

Não demorou para que Senegal fizesse o serviço em Polokwane. A partida foi decidida ainda no primeiro tempo. Diafra Sakho abriu o placar aos 12 minutos, depois de uma belíssima enfiada de Sadio Mané. Cortesia retribuída no segundo gol, aos 37. Sakho cruzou para Mané chutar prensado. O goleiro Itumeleng Khune defendeu, mas a bola bateu nas costas de Thamsanqa Mkhize e entrou. Enorme trapalhada, que deu tranquilidade aos Leões de Teranga. Precisando da vitória para manter as suas chances, a África do Sul até tentou partir ao ataque, mas não adiantou. A festa era mesmo dos senegaleses.

E se há um elo para transmitir a experiência dos quadrifinalistas de 2002 ao grupo que recoloca Senegal na Copa do Mundo, ele está logo à beira do campo. Desde 2015, Aliou Cissé comanda os Leões de Teranga. O ex-volante, de ampla carreira no futebol francês e no inglês, era o capitão dos senegaleses na Coreia e no Japão. Continua como uma voz de comando. E com um time que possui muita potência física, além de se defender bem, pode ambicionar uma campanha digna na Rússia.

Ao menos no papel, Senegal possui uma seleção de nível médio. Faltam testes de mais peso, especialmente contra adversários de outros continentes, mas alguma dose de sorte no chaveamento pode abrir o caminho para o sucesso. Há qualidade individual para que o time chegue ao Mundial azeitado. E, especialmente por aquilo que Sadio Mané tem feito nos últimos meses, eles têm também um jogador para mudar as partidas e gerar preocupação em qualquer adversário. Não será preciso acordar tão cedo desta vez, mas vale ficar ligado no que os Leões de Teranga poderão fazer na Copa do Mundo.