Depois do medo do rebaixamento, o trauma que o são-paulino viveu em 2017 foi o desmonte do time. As esperanças de não viver o mesmo em 2018 não duraram muito. Estamos nos primeiros dias do ano e o São Paulo já perdeu dois dos seus principais jogadores. O grande destaque do time, Hernanes, voltou para o Heibei Fortune chamado seis meses antes do fim do contrato de empréstimo por uma cláusula acionada pelos chineses. Depois, foi a vez de Lucas Pratto definir a transferência para o River Plate. Antes de sacramentar a saída do seu centroavante, o São Paulo trouxe um grande nome: Diego Souza, que veio do Sport. Mas o que ele traz ao clube?

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Aos 32 anos, Diego Souza chega ao São Paulo por uma boa quantia: R$ 10 milhões pagos ao Sport e assinou contrato até o final de 2019, com possibilidade de renovação por mais um ano. O meia-atacante chega para suprir uma parte da carência ofensiva que o time passa a ter com as saídas dos seus dois principais jogadores. O jogador que veio do Sport dá opções ao time do Morumbi, carente no setor ofensivo, inclusive pelo ano abaixo do esperado de Pratto. Traz também características um pouco diferentes do que o tricolor paulista já possuía

“Estou muito feliz por chegar ao São Paulo. Tenho muitos amigos que jogaram aqui e sempre ouvi boas referências sobre o clube pela grandeza, organização e conquistas. E hoje, felizmente, tenho a oportunidade de defender esta camisa. O desejo de chegar ao São Paulo sempre foi grande. Quero corresponder a expectativa e ser feliz com os nossos torcedores”, afirmou.

“É um momento maravilhoso da minha carreira. Fui feliz no Sport, amadureci bastante e só posso agradecer. Agora é um desafio novo e estou motivado. O São Paulo é um clube acostumado aos títulos. E chego com essa expectativa também. Ao lado dos meus companheiros, quero chegar longe na Copa do Brasil e na Sul-Americana, além de brigar pelo título do Campeonato Brasileiro”, avaliou.

Mudança de característica

Meio-campista de origem, Diego se tornou muito mais artilheiro no Sport, a ponto de terminar o Brasileirão de 2016 como artilheiro, com 14 gols, ao lado de William Pottker, na época na Ponte Preta, e Fred, que começou o campeonato pelo Fluminense, mas marcou a maior parte dos seus gols pelo Atlético Mineiro. Em 2017, Diego marcou 11 gols em 27 jogos no Brasileirão, menos do que o ano anterior, porém mais que Pratto, que tinha essa função no São Paulo, que fez só sete em 35 jogos. No Sport, fez 173 jogos e 57 gols. Em 2017, foram 21 gols, contando todas as competições.

Se no começo de carreira Diego Souza atuava até como segundo jogador de meio-campo, atuando mais no centro do gramado e mais no início da saída de bola, aos poucos ele foi convertido em um jogador mais ofensivo, mais de frente, a ponto de Tite ter convocado o jogador para ser uma opção para a reserva de camisa 9 da Seleção. Gabriel Jesus é o titular, Roberto Firmino é o reserva e Diego Souza parece ser a terceira opção do treinador gaúcho. E há motivos para Tite ter apostado no jogador nessa função.

Um dos maiores finalizadores do Brasileirão

No último Campeonato Brasileiro, Diego Souza foi o sétimo jogador que mais chutou a gol em média, com 2,6 por partida, sendo eu a maior parte foi dentro da área (1,6). Se considerarmos só os chutes certos, ou seja, aqueles que acertaram o gol, Diego Souza tem média de 1,1 por partida. Curiosamente, Lucas Pratto é o quarto que mais chuta (2,9 por partida, sendo 2,1 de dentro da área), mas a precisão é menor: 0,9.

Outro dado que chama a atenção no caso de Diego Souza é o número de finalizações de cabeça. O jogador cabeceou 19 vezes a gol ao longo do Brasileirão 2017, o nono no ranking da liga. Arthur, da Chapecoense, foi quem mais cabeceou, 35 vezes, seguido por Jô (Corinthians, 28), Fred e Pratto (Atlético Mineiro e São Paulo, respectivamente, 26), Túlio de Melo (Chapecoense, 25), André (Sport, 23), Wellington Paulista (Chapecoense, 21), e Henrique Dourado (Fluminense, 20).

Percebeu algo na lista? Bom, além de constatar que a Chapecoense usa muito o jogo aéreo, o que chama a atenção é que a lista inclui atacantes de finalização. De todos os nomes à sua frente, só Arthur não é um centroavante típico. Todos os demais são finalizadores, acima de tudo. Mostra que Diego têm essa característica: chegar até a área com qualidade e força para finalizar. Algo que faltou ao São Paulo em 2017.

Posicionamento

A grande questão para Diego Souza no São Paulo é o posicionamento. No Sport, em 2017, ele variou, mas teve um padrão. Dos seus 27 jogos no Brasileirão, atuou 20 como meia-atacante, atrás do centroavante; dois como atacante mais centralizado; dois como atacante pela direita; um como meia pela direita, mais recuado pelo lado do campo; um como atacante pela esquerda.

O São Paulo terminou o ano jogando com uma formação, do meio para frente, com Jucilei, Petros e Hernanes no centro do campo, com Cueva pela esquerda, Marcos Guilherme pela direita e Pratto no comando de ataque. Cueva se movimenta muito para criar chances e Marcos Guilherme é um jogador de muita velocidade.

Sem Hernanes, o time precisará achar outro jogador para a sua posição e esta ainda é uma incógnita. A solução caseira pode ser Shaylon, que deu bons sinais em 2017. Jonathan Gómez não correspondeu e não se sabe se ficará no elenco; Lucas Fernandes foi outro a ficar abaixo do esperado, mas ainda é jovem e deve ganhar mais chances. Entre as apostas está Leo Natel, 20 anos, um jogador que muita gente na base aposta muito. E tem o próprio Diego Souza, que contribui para aumentar a criatividade do time, embora seja muito mais atacante que meio-campista como Hernanes atualmente.

Dorival Júnior terá que pensar em como trabalhar o time para manter segurança defensiva sem perder muito pelo meio. Jucilei e Petros parecem nomes certos no time titular e Hudson fez um bom ano de 2017 pelo Cruzeiro, se for para aumentar o poder de marcação do time.

Um meia finalizador, como Raí

Diego Souza pode ser um meia central no 4-2-3-1, mudando um pouco o esquema do time. Assim, precisaria de um centroavante à sua frente. Era assim que atuava no Sport. No atual elenco do São Paulo, o único centroavante é Brenner, jogador que completa 18 anos daqui a alguns dias, em 16 de janeiro. Por isso, a não ser que o São Paulo contrate um centroavante, Diego Souza deve assumir essa posição. E isso lembra bastante uma situação envolvendo o atual diretor do clube, Raí, em um momento de glória do time.

Diego Souza foi contratado para fazer algo parecido com o que o Raí fazia na sua época. E veja: não é uma comparação de jogadores, já que Raí foi mais jogador que Diego Souza, ainda mais no São Paulo. É uma questão de característica. O time não tinha um 9 típico em 92/93, anos gloriosos do time. Palhinha, Müller e Macedo, jogadores que atuavam na posição, não eram atacantes de finalização e quem mais acabava fazendo gols era mesmo o Raí, que é alto, forte e chegava para finalizar tanto de fora da área quanto de cabeça. Era comum que estes jogadores acabassem armando jogadas para que Raí chegasse à área e, não por acaso, era constantemente o artilheiro do time.

Diego Souza tem o mesmo porte físico, ótima capacidade de finalização e chega em um time sem um centroavante típico, mas com opções boas pelos lados do campo. Guardadas as devidas proporções, pode fazer algo parecido com o que Raí fazia. Claro, sem a idolatria e os anos de serviços prestados que o eterno camisa 10 do Morumbi teve. Mas pode ser, sim, o principal goleador de um time sem um centroavante, já que esta é uma posição que se tornou carente.

Diego Souza tem a chance de fazer um grande ano e buscar a sua vaga na Copa do Mundo. Seu principal trunfo, segundo já disse Tite, é como o jogador se entende bem com outros jogadores de alto nível do time, como Neymar e Coutinho, por exemplo. Por isso, será fundamental para Diego mostrar o seu futebol neste time do São Paulo, que também precisava de um jogador de alto nível como ele. E precisará que ele renda algo próximo ao que ele conseguiu nestes últimos três anos de Sport.