Já pensou se você tem entre 26 e 32 anos e está jogando o fino da bola na primeira ou segunda divisão do Brasil? Imagine que você está carregando seu time nas costas, levando-o a sonhar com algo muito acima do que havia sido pensado no início da temporada? Em situações como esta, às vezes o telefone toca. E do outro lado da linha está seu empresário dizendo coisas maravilhosas sobre um time asiático…

Imagine para quanto vão aumentar seus ganhos salariais, a oportunidade de conhecer novas culturas, crescer pessoalmente. Por outro lado, você não gostaria de viver esse bom momento, provar que aquela ótima temporada não foi um mero golpe de sorte e que você tem qualidade mesmo?

Mas há horas em que a situação financeira fala mais alto… Deve ter sido exatamente isso que passaram três jogadores de grande destaque no futebol brasileiro nos últimos anos. E a nota triste é que eles já estão de volta ao futebol nacional.

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Pesadelo chinês

O atacante Zé Carlos tem 32 anos atualmente e já passou por vários times no exterior. O atleta já defendeu o Porto B no início dos anos 2000, esteve por cinco temporadas na Coreia do Sul em meados da década passada e jogou no Japão em 2010. Dois anos depois, Zé Carlos se destacou no Criciúma, marcando 27 gols (o artilheiro do torneio) pelo time catarinense, que subiu para a Série A.

Ele até jogou algumas partidas no estadual, mas se rendeu aos chineses e passou a defender o Changchun Yatai. Mas as bolas nas redes no Brasil não se repetiram na China… Zé Carlos estreou no início de março, mas acabou rescindindo o contrato em junho. Em dez partidas, o atleta participou de apenas três como titular, com um gol marcado e nenhuma vitória.

Zé Carlos ainda teve rápida passagem pelo Al Sharjah (Emirados Árabes), no qual foi companheiro de Fellype Gabriel (ex-Botafogo) e Maurício Ramos (ex-Palmeiras). Ele marcou cinco vezes, mas optou por aceitar proposta do Criciúma para a Série A 2014 e foi confirmado como reforço, mas ainda não pôde entrar em campo por problemas na janela de transferências – o Al Sharjah não liberou o jogador, que ainda quer receber valores da rescisão de contrato um ano antes do fim do vínculo. E a janela do exterior já fechou.

O sonho de jogar fora
Bruno Rangel realizou o sonho de jogar fora do Brasil no Al Arabi, do Catar, mas já voltou  para a Chapecoense

Bruno Rangel realizou o sonho de jogar fora do Brasil no Al Arabi, do Catar, mas já voltou para a Chapecoense

Bruno Rangel tem 32 anos e nunca teve um grande momento de destaque no futebol brasileiro. Sua carreira é mediana, com passagens por times sem tanta – ou nenhuma – expressão nacional, casos de Goytacaz, Ananindeua, Baraúnas, Águia de Marabá. Os clubes mais famosos que Bruno Rangel defendeu são Joinville, Guarani e Paysandu.

Mas foi na outrora desconhecida Chapecoense que o atacante ganhou as manchetes. Na Série B 2013, Bruno Rangel surpreendeu a todos ao balançar as redes adversárias em incríveis 31 oportunidades, sendo o artilheiro da competição à frente de Marcos Aurélio (Sport) e Magno Alves (Ceará).

A visibilidade da segunda divisão resultou na realização de um sonho pessoal: Bruno Rangel sempre quis jogar no exterior e por isso aceitou a proposta do Al Arabi (Catar). Claro que ele também queria a independência financeira. Mas o sonho durou pouco…

Depois de apenas sete partidas entre 18 de janeiro e 11 de abril, três como titular (306 minutos em campo) e com apenas dois gols marcados, Bruno Rangel se deu por satisfeito e quis realizar outro sonho: jogar a Série A do Campeonato Brasileiro. Poderia ter ficado no Brasil e jogado por times de expressão, ganhando um bom salário.

Bruno Rangel estava sendo especulado por Palmeiras, Flamengo e Coritiba desde que decidiu retornar ao futebol nacional, mas acertou com a mesma Chapecoense. Até o momento, ele entrou em cinco partidas na primeira divisão, todas como titular, sem gols marcados.

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Decepção em Seul
Rafael Costa estava animado com a possibilidade de crescer na carreira, mas não deu certo no FC Seoul e agora está na Ponte Preta

Rafael Costa estava animado com a possibilidade de crescer na carreira, mas não deu certo no FC Seoul e agora está na Ponte Preta

Rafael Costa não teve o mesmo brilho que Bruno Rangel ou Zé Carlos, pois não foi artilheiro da segunda divisão. O atacante maranhense de 26 anos defendeu o Figueirense na Série B 2013 e marcou 14 vezes em 30 partidas, 27 como titular, sendo o artilheiro do time catarinense no torneio – ele ainda fez 13 gols pelo Metropolitano no estadual.

Foi o suficiente para chamar a atenção do FC Seoul, vice-campeão da Liga dos Campeões da Ásia na época, que o contratou. Rafael Costa começou muito bem na pré-temporada, com gols nos amistosos, mas não teve muitas oportunidades nos jogos oficiais. Foram apenas nove partidas na liga nacional, duas como titular, além de cinco na LC da Ásia, uma entre os 11.

Com apenas dois gols marcados, ambos no torneio continental, Rafael Costa não agradou aos asiáticos e acabou envolvido numa troca de jogadores com a Ponte Preta. O atacante Éverton Santos foi para Seul e Rafael Costa veio para Campinas por empréstimo. O jogador tinha ido para o futebol asiático na esperança de alcançar a independência financeira. Pelo menos é o de melhor desempenho, tendo feito três gols em quatro jogos, entre 19 de julho e 9 de agosto.

Vale a pena?

Na situação de Rafael Costa, será que não teria valido a pena ficar mais algum tempo no Brasil, manter a boa média de gols e acertar um contrato mais longo num time de ponta? Afinal, são apenas 26 anos e muitas temporadas pela frente. Já Bruno Rangel e Zé Carlos são mais velhos, acima dos 30 anos, e talvez as oportunidades que tiveram foram as últimas para alcançar a independência financeira. O fato é que a ida para o futebol asiático deve ser muito bem avaliada em todos os aspectos, inclusive fora de campo.