O futebol português pode estar passando por uma revolução nos bastidores. Dirigentes de vários clubes vêm se mobilizando na tentativa de destituir Mário Figueiredo da presidência da Liga Portuguesa de Futebol Profissional (LPFP). Entre outros problemas, eles alegam falta de transparência da entidade.

O movimento já dura algum tempo, mas tomou corpo nas últimas semanas. Com a adesão oficial cada vez maior dos clubes, vem sendo chamado de G-18, ou seja, o grupo dos 18 descontentes com a LPFP. O número representa 54% dos times que disputam os campeonatos profissionais do país.

O pedido do G-18 está bem claro. Eles querem uma Assembleia Geral para que seja colocada em votação a destituição de Figueiredo. O martelo para a realização da Assembleia pode ser batido durante uma reunião, chamada Conselho dos Presidentes, marcada para o dia 25 de fevereiro.

O descontentamento dos clubes, que começou de maneira velada, em reunião de bastidores, agora já virou público e oficial. Há três dias, eles se reuniram num hotel na cidade do Porto e emitiram um comunicado em que elencam seis motivos pelo qual querem ver o atual presidente da LPFP pelas costas. São eles: não aprovação das contas da Liga em 2012/13; não apresentação do orçamento de 2013/14; manifesto decréscimo das receitas; ausência de patrocínios; falta de transparência na gestão, não partilha de estudos e pareceres contratados, decisões unipessoais do presidente da Liga sem consultar os clubes; estilo de liderança beligerante com os clubes e os patrocinadores.

O documento é assinado por representantes de Arouca, Acadêmica, Belenenses, Estoril, Paços de Ferreira, Porto, Nacional, Vitória de Guimarães, Vitória de Setúbal, Braga, Rio Ave, Olhanense, Chaves, Portimonense, Beira-Mar, Tondela, União da Madeira e Penafiel.

De certo modo, o movimento que ocorre agora em Portugal lembra um pouco o Bom Senso brasileiro. Mas lá, diferente de cá, não são os jogadores quem estão reivindicando melhorias, mas sim os dirigentes. E eles não poupam críticas ao principal mandatário do futebol de clubes no país.

Duas vozes têm sido as principais referências entre os cartolas. Uma delas é a do presidente da Oliveirense, José Godinho. Ele critica principalmente a centralização do poder feita por Mário Figueiredo. “Se a Liga é uma associação de clubes, então têm de ser os clubes a dizer o que querem para a Liga. Não pode ser só uma pessoa fazer tudo como quer sem sequer consultar os clubes. Isso tem de mudar”, diz. No campo das duras críticas, Godinho tem a companhia de Rui Pedro Soares, presidente do Belensenses. “Mário Figueiredo não tem conseguido fazer aquilo a que se propôs. Não é a opção dos clubes para o futuro. Senão vejamos: o futebol profissional está pior desde que iniciou o mandato, as receitas são piores, os patrocínios são menores. Por isso mesmo, acredito que é preciso fazer algo para isto mudar”.

Não é apenas o presidente da LPFP quem está na mira dos dirigentes de clubes. A atuação de seu “braço direito”, Carlos Deus Pereira, também é contestada. “A Liga está entregue a duas pessoas que se apoderaram dela”, reclama o presidente da Acadêmica, José Eduardo Simões. Ao classificar a gestão de “calamitosa”, ele diz que os donos do poder “não prestam o mínimo de esclarecimentos, nem querem saber dos clubes para nada”.

O descontentamento dos clubes com a maneira como a LPFP vem sendo administrada é tamanho que eles não querem esperar nem mesmo a próxima eleição para presidência da entidade, prevista para junho. Com ameaças de perda dos patrocínios master do Campeonato Português e a alegada falta de transparência, pretendem fazer com que Figueiredo deixe o cargo o mais rapidamente possível. Numa eventual troca, o nome de Júlio Mendes, atual presidente do Vitória de Guimarães, é o mais cotado para sentar à mesa presidencial da LPFP.

Mário Figueiredo, que está à frente da entidade desde janeiro de 2012, se defende – mas não rebate as acusações. “Estou a cumprir o programa para o qual fui eleito”, disse, numa das poucas vezes em que concedeu entrevista após a insatisfação dos clubes tornar-se pública.

Um ranking elaborado no mês passado pela Federação Internacional de História e Estatística do Futebol coloca a Liga Portuguesa como a 18º melhor do mundo, atrás de campeonatos de países como Romênia, Paraguai e Suíça. É um bom termômetro de que as coisas não vão bem. Por isso, o movimento dos clubes é bem-vindo. Independente do que acontecer com Mário Figueiredo, está claro que os dirigentes do futebol lusitano perceberam que algo tem de ser feito, para o bem de todos.