Há muito tempo, a imprensa holandesa na área de futebol comenta que o Ajax disputa o Campeonato Holandês “contra ele mesmo”. E é verdade. Há certo tempo que a vantagem dos Amsterdammers na liderança é boa o suficiente para permitir até alguns tropeços ao longo do returno, sem perder tranqüilidade na primeira posição. E a 32ª rodada que será disputada no próximo final de semana, enfim, pode dar o prêmio que o clube espera. Bastará vencer o ADO Den Haag, e estará garantido o primeiro tetracampeonato nacional da história do clube.

Será merecido, é inegável. E também será um marco inegável na carreira de Frank de Boer. Carreira que ainda está no seu começo, embora seja um começo de respeito. A ponto de já se poder avaliar o rendimento típico das equipes armadas pelo ex-zagueiro, desde 8 de dezembro de 2010, quando comandou pela primeira vez o time profissional do Ajax, na vitória por 2 a 0 sobre o Milan, pela fase de grupos da Liga dos Campeões. O jogo não queria dizer muita coisa: os Ajacieden já estavam eliminados, ao passo que os milanistas já tinham uma das vagas nas oitavas.

Mas a chegada do irmão de Ronald, antes treinador do Ajax A1 (equivalente à equipe de juniores) e auxiliar de Bert van Marwijk entre 2008 e 2010, foi o marco principal da volta às raízes que foi incentivada por Johan Cruyff e empreendida por outros ex-jogadores que tomaram as rédeas do clube. O simbolismo disso, internamente, já foi discutido aqui na coluna inúmeras vezes. Mas o importante, aqui, é falar do método com que Frank de Boer escala suas equipes.

Fica óbvio dizer que o esquema tático começa no 4-3-3. Mas o retorno ao estilo que fez o Ajax famoso fica claro por pequenos hábitos. Um deles é haver um zagueiro que avança ao ataque, quase como um elemento surpresa, nos times que ele comanda. Já foi Vertonghen, talvez o melhor exemplo de como isso pode dar certo; e hoje em dia, é Moisander. Mas como o zagueiro finlandês ainda não saiu completamente a contento (está bem no Ajax, mas poderia ser melhor), tal papel pode ser feito por Denswil, ou até por Veltman.

Outra característica notável é que todos os times armados por Frank de Boer sempre precisam ter um armador típico, que pensa mais nas jogadas de ataque, e que tem liberdade para correr o campo todo, e até para finalizar – de preferência, de fora da área. Se até o início desta temporada tal papel era feito por Christian Eriksen, agora é Lasse Schöne que assume a tarefa. E assume muito bem, diga-se de passagem: caso o Ajax ganhe a Eredivisie, o dinamarquês é o mais forte candidato a ser eleito o melhor da temporada.

Outra característica curiosa é ver que os times de Frank de Boer no Ajax quase sempre têm um “homem-gol”. E quase sempre ele é o mesmo: Siem de Jong, que fez 12 gols em 2010/11 (um atrás de El Hamdaoui, goleador do Ajax naquele campeonato – e que ficou cada vez mais eclipsado sob Frank, até deixar o clube), 13 gols em 2011/12 e novamente 12 em 2012/13. E ele só não é o artilheiro do Ajax na atual edição da Eredivisie pelas lesões que o perturbaram durante o ano. Sem problemas: Kolbeinn Sigthórsson assumiu esse papel, fazendo dez gols.

No entanto, nenhuma dessas características salta mais aos olhos do que o hábito do Ajax em ficar tocando a bola. Tocando, tocando e tocando. O que torna o time plenamente dominador, quando o adversário não se arrisca. Ou pode transformar o jogo numa chatice monumental. Mas quando ele ousa tomar a bola e acelerar o jogo, o time de Amsterdã pode entrar em apuros. Foi o que aconteceu na semana passada, quando o Vitesse só não garantiu a vitória no primeiro tempo pelas ótimas defesas de Cillessen (cada vez melhor, diga-se de passagem).

E aí, os Godenzonen empataram. E salvaram um ponto, que manteve confortáveis seis pontos de vantagem para o Feyenoord. Só que o adversário deste próximo domingo está longe de parecer um mero obstáculo: motivadíssimo, o ADO Den Haag já não perde há nove rodadas. De ameaçado pelo rebaixamento, já sonha até em entrar nos play-offs por vaga na Liga Europa. E é aí que entra o sonho do Feyenoord: vencer o PSV, fora de casa, e eventualmente diminuir a vantagem dos líderes para quatro pontos, esquentando o Holandês a duas rodadas do final.

Por incrível que pareça, o sonho do Feyenoord andava meio enfraquecido há algumas rodadas. Entre a 25ª e a 27ª rodada, a equipe ficou sem vencer. Ronald Koeman anunciou a saída, após o final da temporada. E após ter chutado o tapume da zona mista depois do empate em 2 a 2 com o Twente, Graziano Pellè pegou quatro jogos de suspensão. Pois bem, parecia o fim para o Stadionclub.

Foi quando Koeman decidiu escancarar o estilo marcador que é habitual. E no jogo seguinte à queda no Klassieker contra o Ajax, colocou a equipe num 5-3-2 contra o Groningen. Resultado: 2 a 0, fora de casa, sem riscos. Depois o time voltou ao 4-3-3, mas haviaEra dada a largada numa sequência de cinco vitórias. Mais do que isso, com Mitchell te Vrede, o substituto de Pellè, rendendo satisfatoriamente. Só que o italiano voltou contra o RKC, na rodada passada. O resultado? 2 a 0 Feyenoord. Os gols? Você é inteligente e já sabe quem marcou.

E assim o Feyenoord voltou a ter leves perspectivas de título. Que provavelmente acabarão neste domingo, se o Ajax levar a sério o ADO Den Haag. De todo modo, a federação mudou o horário da partida na Amsterdam Arena, para as mesmas 11h30 de PSV x Feyenoord. Tudo para tentar trazer a emoção que ensaia voltar ao campeonato… se o Ajax fraquejar.