Em 1977, Portugal recebia pela primeira vez a intervenção do Fundo Monetário Internacional (FMI). Naquela época, a situação econômica do país era preocupante. A taxa de desemprego passava dos 7%, havia racionamento de bens, a inflação crescia assustadoramente. O assunto era tão importante que ganhou uma canção épica, não por acaso batizada de “FMI”, assinada por José Mário Branco.

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Hoje, não há música que embale o triste momento econômico português. A taxa de desemprego, agora, é de 15,3% e a ajuda econômica vem da União Europeia.

Os 37 anos que separam as duas crises são, também, o tempo de uma marca histórica no futebol português: desde o final da temporada 1976/77, a diferença de pontos entre Benfica e Porto não era tão grande.

O Benfica venceu aquele campeonato somando 51 pontos, ante 41 dos dragões, que terminaram em terceiro lugar (o Sporting foi vice-campeão, com 42). Naquela época, porém, as vitórias ainda valiam apenas dois pontos. Fazendo uma adaptação para as regras atuais, a distância entre eles seria de 15 pontos, exatamente a diferença de agora, algo que nunca havia ocorrido desde então.

Se em termos econômicos Portugal alivia a crise pedindo auxílio de órgãos internacionais, no campo esportivo a solução passa por arrumar a casa internamente. E reside aí a grande diferença entre encarnados e dragões. Enquanto o Benfica engoliu seco a humilhação do “trivice-campeonato” da temporada passada (perdeu o Campeonato Português, a Liga Europa e a Taça de Portugal) e trabalhou sério, o Porto dormiu em berço esplêndido embalado pelo gol salvador de Kelvin, que praticamente garantiu o título nacional à equipe nos instantes finais do clássico.

Os 15 pontos que separam os rivais na tabela refletem, hoje, a exata diferença entre eles. Uma distância técnica que ficou ainda mais evidente após as quartas de final da Liga Europa. Enquanto o Benfica se garantiu em mais uma semifinal passando sem sustos pelo AZ Alkmaar, o Porto foi goleado pelo Sevilla e ficou no meio do caminho.

Depois de perder tudo na temporada passada, a direção do Benfica teve o mérito de manter a cabeça no lugar. Renovou o contrato com o técnico Jorge Jesus e contornou os problemas do treinador com o atacante Cardozo. Definiu a conquista do título português – que não ocorre desde 2009/10 – como prioridade e passou confiança a jogadores e comissão técnica.

O Porto fez ao contrário. Mesmo campeão, o contestado técnico Vítor Pereira percebeu que não teria muito futuro no Dragão e aproveitou a boa proposta financeira do Al-Ahli para se mandar para a Arábia Saudita. A aposta em Paulo Fonseca para substituí-lo não funcionou e o novo técnico foi demitido. Luís Castro, então treinador do time B, assumiu como interino até o final da temporada. De mudanças, mesmo, implantou somente o fim das entrevistas coletivas antes dos jogos.

Claro que estamos falando de futebol e, neste jogo, felizmente, tudo pode acontecer. Mas, mesmo que um desastre tire do Benfica a taça de campeão português ou que o Porto elimine seu rival tanto na Taça de Portugal quanto na Taça da Liga (em ambas, eles se enfrentam na semifinal), a diferença de 15 pontos na classificação merece ser vista com atenção. É óbvio que isso reflete o trabalho realizado corretamente na Luz e de maneira errada no Dragão. Afinal, como diz a letra de José Mário Branco, “todos temos culpas no cartório, não é verdade?”