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[Ditadura] O governo militarizou a Seleção, e 1982 foi o símbolo da redemocratização

O uso político da Seleção durante o regime militar não precisa de muitas palavras. Uma imagem basta, qualquer uma que mostre a recepção do time tricampeão do mundo em Brasília pelo presidente Médici, com a Jules Rimet nas mãos. Era o ápice de uma interferência que já tinha começado nos anos anteriores, especialmente depois do vexame na Copa do Mundo de 1966, quando o governo passou a acompanhar mais de perto os passos da Confederação Brasileira de Desportos e de seus funcionários. Além disso, a própria entrada de militares na entidade que gerenciava o futebol brasileiro aumentou.

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No entanto, o futebol muitas vezes anda ao lado da sociedade. Se o regime perdeu força na virada para os anos 1980, os mesmos reflexos se deram no futebol. A presença dos militares na CBD diminuiu. E o momento de liberdade, ainda que não tenha planejado isso, pode ser considerada como resultante de um dos principais símbolos do futebol nacional: a Seleção de 1982. Uma geração que não saiu vitoriosa, como em 1970. Mas que mexeu com o imaginário da população, especialmente por apresentar alguns conceitos que iam na contramão dos anos rígidos que o Brasil havia vivido nas duas décadas anteriores.

As primeiras influências dos militares na Seleção

A primeira Copa do Mundo disputada sob o regime militar foi a de 1966, na Inglaterra. O apoio do governo de Humberto Castelo Branco à Seleção era público, mas não havia interferência direta. A equipe nacional ainda não tinha se tornado parte da máquina de propaganda do governo, mas nada que um fracasso em gramados ingleses não mudasse.

O time de Vicente Feola teve uma participação marcada pela falta de organização na preparação do time. João Havelange, presidente da CBD, aproveitou-se da fase da equipe para estreitar laços políticos e levá-la a diferentes cidades durante a preparação, diminuindo os custos. Enquanto isso, a convocação foi tumultuada, com 44 jogadores chamados para a etapa final de treinos. Como resultado, os brasileiros acabaram engolidos ainda na primeira fase. O jogo solto, típico dos sul-americanos, pareceu ineficaz diante da força física dos europeus.

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Era preciso mudar. Se o regime quisesse passar uma imagem de sua grandeza através da Seleção, o maior expoente do país na década anterior, precisava transformar a postura apresentada em gramados ingleses. Logo no retorno ao país, a Seleção foi recebida pelo Serviço Nacional de Informações, que passaria a investigar as razões do insucesso. E o impacto disso fez Havelange se mexer. Pressionado pelo governo e por seus opositores na CBD, o dirigente chamou militares para participar da direção da entidade e, no ano seguinte, criou a Comissão Selecionadora Nacional (Cosena). A entidade era composta por dirigentes e por políticos e passaria a escolher a comissão técnica. Uma maneira de abrir as estruturas da Seleção aos partidários do regime.

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Ainda assim, a Cosena não era tão radical quanto sua composição possa sugerir. Tanto que dela saiu o nome de João Saldanha para o comando da Seleção. Um comunista convicto, que chegava para contornar as críticas da imprensa quanto à falta de rendimento do time. “Mal ou bem, Saldanha conseguiu calar as oposições, teve um desempenho fantástico nas Eliminatórias, era um bom falador, conseguiu conquistar os paulistas que se opunham a Havelange”, analisa Denaldo Alchorne de Souza, historiador que desenvolve a pesquisa ‘Voa canarinho, voa! Reflexões históricas e teóricas sobre o futebol e a identidade nacional no contexto das lutas democráticas contra o regime militar no Brasil’. “Os militares que estavam no meio esportivo tinham um interesse bem maior de que o Brasil ganhasse. Aí eu consigo entender o Saldanha. Por mais que tivesse uma simpatia à esquerda, os militares aceitaram. Acima da questão política, estava a vitória do Brasil. Não porque eles fossem patriotas. Porque a utilização política teria um valor muito maior.”

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Mas a mentalidade dos militares começava a ocupar a equipe nacional discretamente. Em 1968, a preparação física passou a ser comandada por Admildo Chirol, formado na Escola de Educação Física do Exército, auxiliado por Cláudio Coutinho e Carlos Alberto Parreira, que também tinham histórico na instituição militar. O tenente Raul Carlesso era encarregado de preparar os goleiros. Já o cargo de supervisor ficava por conta do capitão José Bonetti.

O presidente-torcedor e o técnico-dissidente

Enquanto isso, no centro do poder, Emilio Garrastazu Médici chegava à presidência. E o futebol acabou sendo uma das maneiras de tentar aumentar sua popularidade. O gaúcho foi atacante do Grêmio de Bagé antes de ingressar na escola militar. Torcedor do Grêmio, também se vendia como aficionado pelo Flamengo – em uma jogada suspeita de ser relacionada à massa rubro-negra espalhada pelo país. Ao mesmo tempo, aparecia muitas vezes nos estádios, transmitindo a imagem daquele torcedor que não larga o radinho de pilha.

Em um de seus primeiros atos relacionados ao futebol, Médici participou dos festejos pelo milésimo gol de Pelé. Meses depois, passou a dar seus pitacos sobre a Seleção, o que enfatizava ainda mais sua imagem como torcedor. Na declaração mais famosa, pediu Dario na equipe nacional, recebendo a ríspida resposta de João Saldanha, quando o treinador foi indagado por jornalistas da RBS: “Eu e o presidente temos muitas coisas em comum. Somos gaúchos, gremistas, gostamos de futebol, e nem eu escalo o ministério, nem o presidente escala o time”. Pouco tempo depois, Saldanha deixaria o cargo.

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Não dá para dizer que houve interferência direta de Médici ou perseguição política. Se fosse assim, dificilmente o jornalista teria sido nomeado como técnico ou ficaria tanto tempo no cargo. O fato é que outros fatores contribuíram para a queda do ‘João Sem Medo’. Enquanto o nível de atuação do time caía, Saldanha acumulava problemas com membros da comissão técnica e, pressionado pela CBD, pediu demissão em março de 1970. Logo após sua saída, chegou a acusar o médico Lídio Toledo de se omitir diante das lesões dos atletas. Segundo o treinador, ele mesmo teve que se responsabilizar pelo corte do atacante Toninho Guerreiro, já que o médico da Seleção havia sumido – a suposta brecha para que Dario fosse convocado.

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Para o lugar de Saldanha, a Cosena tinha a intenção de convidar Otto Glória. Mas a reunião na escola do exército, mesmo lugar onde o Botafogo jogava, fez com que o nome de Zagallo fosse colocado na mesa. Era um treinador em alta, com perfil bastante diferente de Saldanha, que não deveria causar as mesmas preocupações. Ainda assim, a Cosena preferiu se precaver de ‘reações subversivas’ na Seleção, já que Saldanha era suspeito de denunciar a repressão em suas viagens ao exterior – algo que o próprio técnico admitiu tempos depois. O chefe de delegação na Copa foi o major-brigadeiro Jerônimo Bastos, enquanto o chefe da segurança era o major Roberto Ipiranga Guaranys, que integra a lista de torturadores do regime.

Apesar disso, o professor Waldenyr Caldas, doutor em sociologia e autor de diversos artigos sobre futebol, tem cautela na análise desse processo de militarização da comissão técnica: “Não vejo uma militarização tão grande. Saldanha era um civil escolhido durante a ditadura, se demitiu porque o Médici se impôs sobre a Seleção. Saíram outros membros da comissão técnica, para a entrada do Zagallo, um técnico bem conceituado”.

O uso do tricampeonato pelo regime

A seleção brasileira se consagrou na Copa de 1970. Misturando a habilidade de seus jogadores, mas também a excelente preparação física imposta pelos militares, a equipe teve um desempenho notável dentro de campo. E muito bem capitalizado pelo regime. Logo após a conquista, o governo liberou a ‘festa do povo’ no Palácio do Planalto, enquanto Médici assinou uma carta exaltando o resultado. “Na hora em que a Seleção conquista definitivamente a Copa, após memorável campanha, desejo que todos vejam no presidente da República um brasileiro igual a todos os brasileiros. [...] Identifico na vitória a prevalência de princípios de que nos devemos armar para a própria luta em favor do desenvolvimento nacional”, dizia.

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Em boa medida, a conquista da Copa de 1970 ajudou a impulsionar a popularidade de Médici, que conquistava a população também pelo proclamado Milagre Econômico, em que dava a parte da população o poder de consumo. “Ditadores são pessoas que costumam ser populares, como Vargas, Perón, Stalin, Salazar, Franco. Eles podem ser considerados tiranos, mas não eram assim para todas as pessoas. Médici capitalizou politicamente a vitória de 70 em um momento de situação delicada, de luta armada. O que a esquerda fez foi estupidez, só corroborou com a insensatez da direita no poder, com milhares de vidas perdidas. Mas é claro que o presidente fez uso político, algo natural do autoritarismo”, analisa Caldas.

Na volta do time ao país, dois dias depois da decisão contra a Itália, Médici recebia os jogadores em Brasília e também levantava a Jules Rimet. Uma multidão estimada em 1,5 milhão de pessoas tomou o entorno do Palácio do Planalto, a maior concentração popular desde a inauguração da Praça dos Três Poderes, conforme os dados oficiais. Ao mesmo tempo, a música ‘Pra Frente Brasil’ se tornava um hino nacionalista da vitória, graças ao impulso dado pela Assessoria Especial de Relações Públicas, o braço responsável pela propaganda do regime. Além disso, também eram feitos filmes para reforçar essa divulgação vinculada ao governo.

Os jogadores de futebol dentro do jogo político

Além da convocação de Dario, outras tantas questões políticas permearam a convocação da Seleção para a Copa de 1970. Artilheiro do Robertão de 1969, Edu Coimbra ficou de fora das listas do time nacional. Algo explicado por seu irmão, Nando, como consequência das perseguições políticas que ele sofria. Já Tostão, tempos depois, admitiu o recebimento de uma ligação anônima pedindo que ele se afastasse da política para que fosse ao Mundial, após uma entrevista ao Pasquim em que expunha posições que não eram bem-vindas ao regime – especialmente ao elogiar Dom Hélder Câmara, arcebispo de Olinda e Recife e considerado um inimigo pela ditadura.

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Até hoje, a postura dos jogadores é motivo de controvérsia. Há quem critique a omissão, enquanto outros compreendem o silêncio. Em especial, o debate aumenta em torno de Pelé, um ícone mundial. Para o jornalista e historiador Marcos Guterman, autor do livro ‘O Futebol Explica o Brasil’, o craque poderia ter sido uma versão brasileira do que foi Muhammad Ali contra os Estados Unidos na Guerra do Vietnã, para pegar o microfone e denunciar a repressão no país, ao invés de se tornar um símbolo de conformismo. Pelo contrário. Em 1972, em entrevista ao jornal uruguaio La Opinión, Pelé disse: “Não há ditadura no Brasil. O Brasil é um país liberal, uma terra de felicidade. Somos um povo livre. Nossos dirigentes sabem o que é melhor para nós e nos governam com tolerância e patriotismo”. Uma posição bastante diferente da que tomou tempos depois, afirmando que não foi à Copa de 1974 justamente por não corroborar com o regime.

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Waldenyr Caldas prefere relativizar a postura de Pelé: “Há que se entender que o Pelé era uma unanimidade nacional, mas não era politizado. Era um alienado, no sentido de que falar de política não era a dele. Não há como cobrá-lo, é uma crueldade. Nunca se cobrou outros atletas brasileiros, o Senna, o Piquet, o Miguel de Oliveira, o João do Pulo. Claro que a declaração que Pelé deu à jornalista uruguaia é uma estupidez, prova de sua despolitização. Mas ele era um garotão, estava jogando futebol. O que pode se cobrar é a omissão quanto ao racismo, quando já era um senhor, não tinha mais apenas 30 anos”. O fato é que nem o Rei, nem qualquer outro jogador da seleção, emprestou sua voz contra a ditadura.

A rigidez ainda mais intensa em 1974 e 1978

O sucesso da seleção na Copa de 1970 e o perfil discreto foram as chaves para que Zagallo fosse mantido como técnico da equipe no ciclo do próximo Mundial. E os preceitos da preparação se mantinham os mesmos, com a intensa preparação física implantada no final da década de 1960. O problema é que a geração talentosa que se formara quatro anos antes havia se perdido. Rivellino, Jairzinho e Piazza eram os únicos titulares de 1970 que continuaram no elenco. O Brasil teve uma campanha não mais que mediana na Copa de 1974, engolido pela Holanda na segunda fase, ainda que tenha acabado com o quarto lugar.

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Aquele ano marcou mudanças profundas no futebol brasileiro. Ainda que o tricampeonato mundial tenha sido usado extensivamente pelo governo, isso não garantiu a vitória da Arena nas eleições de 1974. João Havelange, recém-eleito para a presidência da Fifa, sofria pressão do regime diante das denúncias de corrupção. Enquanto isso, o futebol entrava nos planos do presidente Ernesto Geisel como um dos meios para recuperar a força perdida nas urnas. A direção da CBD viveria uma mudança sensível no ano seguinte, com a chegada do almirante Heleno Nunes. E, além da política do ‘onde a Arena vai mal, um time no nacional’, também houveram seus reflexos na entidade. O major Kleber Camerino assume como secretário, enquanto o tenente Osvaldo Costa Lobo se tornou o novo assessor.

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A saída de Zagallo da Seleção seguiu a contratação de Osvaldo Brandão. Conhecido por sua humildade e o trato simples com os jogadores, o novo treinador chegava por puros méritos esportivos, ao montar um esquadrão no Palmeiras, e ter trabalhos consistentes em Corinthians, São Paulo e Independiente. O problema é que os resultados de Brandão deixaram a desejar. Sem empolgar, o comandante é demitido após um empate contra a Colômbia em fevereiro de 1977. Em seu lugar, assume Cláudio Coutinho, que estava no Flamengo e tinha um forte passado na Seleção, como parte da comissão técnica em 1970 e comandante do time olímpico nos Jogos de Montreal.

Coutinho levava consigo uma visão “moderna” de futebol à Seleção. Ele mesmo um preparador físico, era adepto do jogo de força. Mas também de movimentação intensa, bastante inspirado no Carrossel Holandês, que fizera um enorme estrago em 1974. O treinador se baseava em conceitos como a polivalência dos jogadores e o overlapping (o famoso ‘toca e passa’, em uma linguagem mais popular). Ainda assim, tanto por seus méritos, Coutinho se encaixava na mentalidade da CBD por outros motivos. Ele mesmo um capitão do Exército, poderia manter a situação sob as rédeas de Heleno Nunes e do regime. O problema é que, em uma Copa tensa como a de 1978, organizada sob os olhos da ditadura do General Videla na Argentina, o Brasil acabou em terceiro lugar. Para não deixar que uma nova derrota afetasse os militares brasileiros, criou-se o discurso do ‘campeão moral’, o time que não foi derrotado no Mundial por questões que iam além de suas próprias forças.

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Entretanto, apesar da presença de militares na comissão técnica, não dá para dizer que isso tenha influenciado a exclusão de jogadores nas duas Copas. “É como se a partir de meados dos anos 1970, alguns dados pontuais de rebeldia contra a ditadura militar e da contracultura internacional começassem a mostrar essas contradições no futebol brasileiro. Gosto muito de botar os jogadores perfilados da Copa de 1970, todo mundo certinho e todos fortes, e comparar com os jogadores perfilados na Copa de 1974, com barbas e cabelos grandes, uma geração de rebeldes. São dois mundos. Passaram só quatro anos, mas você vê uma diferença gigantesca. E isso vai continuar nos anos seguintes”, analisa Denaldo Alchorne, deixando claro mais uma vez que não é a censura que atrapalhará a sede por vitórias. O caso mais emblemático é o de Reinaldo. Diante dos rumores de que o craque do Atlético Mineiro não era convocado por motivações políticas, houve grande mobilização popular às vésperas da Copa. O artilheiro foi para o Mundial de 1978, apesar da imagem de rebeldia. E foi titular nos dois primeiros jogos, embora tenha sido sacado depois disso – segundo ele mesmo, por pressão política, depois de fazer o gesto dos Panteras Negras ao marcar um gol na estreia.

E a derrota na Argentina também vai se inserir nas mudanças profundas que acontecerão nos anos seguintes dentro da Seleção. “A gente costuma dizer que o campo esportivo está permeado pelas contradições do mundo político, do cultural, do econômico. Mas existe uma dinâmica própria. E, com certeza, algo que acontece no campo esportivo é, independente do que ocorre lá fora, também mexe. E a derrota de 1978 com certeza vai mexer”, pontua Denaldo Alchorne. Nesta época, crescem as críticas na imprensa a Heleno Nunes, enquanto Joel Rufino dos Santos publica artigos tentando associar a derrota à ditadura militar.

Um novo Brasil, uma nova Seleção

Cláudio Coutinho se manteve no comando da Seleção até outubro de 1979, não resistindo à derrota na Copa América daquele ano. Os próximos compromissos do Brasil só aconteceriam no ano seguinte, quando novos ares tomavam conta do País e do futebol. João Baptista Figueiredo estava no poder desde o ano anterior, sustentando o discurso da abertura “lenta, gradual e irrestrita”. Com a interferência do presidente, a CBD tinha se dissolvido e se tornado CBF, entidade específica para cuidar dos interesses do futebol. E Heleno Nunes deixava de ser o presidente da entidade para dar lugar a Giulite Coutinho, empresário que chegava ao cargo prometendo mudanças profundas na organização do futebol brasileiro.

Na Seleção, mais especificamente, a maior novidade se dá no comando. Telê Santana assume credenciado principalmente por dois grandes trabalhos na década de 1970: no Atlético Mineiro, pelo qual foi Campeão Brasileiro em 1971, e no Grêmio, onde quebrou a sequência de títulos do Internacional no Campeonato Gaúcho em 1977. Em um momento de reabertura política, Telê passa a apostar enfaticamente em uma geração de jogadores politizados, muitos deles já convocados por Coutinho. Era a hora de Sócrates, Zico, Júnior, Oscar, Éder, Oscar, Raul, Reinaldo e tantos outros com posturas políticas claras, em prol da transformação do país, se tornarem a base da maior representação nacional.

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Para Waldenyr Caldas, a Seleção que se formava pode ser considerado um reflexo do momento social do país: “O time de 1982 tem tudo a ver com o momento. Os militares já estavam desgastados no poder. A abertura era inevitável. Não posso afirmar isso, mas não sei se os militares queriam continuar no poder. E nem que eles não quisessem a reabertura, o clamor popular era muito grande. Embora o Telê não fosse politizado, ele dava uma abertura política muito grande, permitindo reuniões entre os jogadores”. Em entrevista à Revista ESPN de novembro de 2012, o próprio Sócrates admitia que Telê era “conservador, da geração de meu pai, mas o treinador mais democrático que já vi. Ele nunca impunha um time ou como ia jogar. Deixava que o time se autoformatasse. Ninguém foi mais democrático que ele para o time”.

Era a brecha que precisavam Sócrates e seu posicionamentos constantes sobre política, já naquela época, que culminariam na Democracia Corintiana meses depois da Copa. Zico, que no final da década de 1970 havia liderado a criação do sindicato de atletas no Rio de Janeiro, ao lado de Zé Mário. De Reinaldo, que ficou fora da Copa por lesão, mas seguia com o punho erguido para fazer sua representação política. “Era um momento de jogadores mais politizados, que fugiam da imagem do atleta alienado. E o momento em 1982 pedia uma postura daquelas, que abrisse as portas da democracia, dentro dos próprios clubes, combatesse o paternalismo. Imagino a seleção de 82 de maneira poética, jogando para ser uma democracia plena”, analisa Marcos Guterman.

A liberdade através do futebol

O primeiro momento em que a Seleção de Telê serviu para os ideais libertários de maneira mais clara foi em 1981, no Mundialito que comemorava os 50 anos da Copa do Mundo. O regime mantinha seu discurso ufanista em relação ao time nacional, especialmente para tentar amenizar a situação com uma população fortemente afetada pela crise econômica. Enquanto isso, o fim da repressão mais contundente permitia manifestações nos meios de comunicação contra os métodos da ditadura – e o artigo do historiador Gerson Fraga elucida muito bem sobre a ocasião. Entretanto, o Brasil acabou derrotado pelo Uruguai na decisão, uma nova derrota por 2 a 1 contra a Celeste que levou abaixo os sonhos de vingança por 1950.

Mas não era essa derrota que tiraria o moral da Seleção às vésperas da Copa de 1982. As atuações justificavam as expectativas. O talento abundava no elenco e Telê fazia com que ele prevalecesse. Os ideais de preparação física intensa perderam importância (algo que o franzino Sócrates simbolizava muito bem), exaltando uma forma mais leve da equipe. Mesmo a rigidez das táticas de Coutinho perdia sentido. Era um futebol total bem diferente, em que a liberdade se valia do talento individual, força-motriz do coletivo. O chamado futebol-arte, que também pode ser relacionado com o momento da sociedade, como coloca Denaldo Alchorne: “É um conceito que se cria principalmente para explicar a derrota de 1966, como uma forma de autoprestigiar na derrota para o futebol-força. Em 1970, tinha arte, mas muita gente vai dizer que só ganhou porque incorporou a força. Essa ideia de futebol-arte se mantém e vai ganhar uma força muito grande em 1982. Agora, há uma diferença nesse conceito. Em 1970, não era absurdo associar o conceito com uma jogada mais dura. Em 1982, ele ganha uma conotação de legitimidade em cima de legalidade, não imposta de cima para baixo”.

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Nos meses seguintes ao Mundialito, o Brasil venceu verdadeiras potências do futebol internacional: Inglaterra, França, Alemanha Ocidental e Espanha. E o encanto seguiu com o início da Copa do Mundo de 1982, vivida em que o Brasil redescobria o que eram eleições abertas para o executivo, com os pleitos para governador. O time suou contra a União Soviética, mas venceu. Passou por cima de Escócia e Nova Zelândia, não tomou conhecimento da Argentina. Até a fatídica derrota para a Itália. Uma tragédia enorme para a Seleção, a maior desde o revés em 1950. É difícil medir algo que não aconteceu, mas talvez o tetracampeonato no auge da reabertura representasse tanto quanto o tricampeonato no auge da ditadura.

Enquanto lidava com o peso da derrota no Mundial, o Brasil também convivia com a recessão econômica fortíssima que abatia o país. Telê Santana deixou a Seleção e voltou pouco antes da Copa de 1986, para comandar uma geração já envelhecida em outro fracasso. Eram tempos no qual a tecnocracia tomava conta da política, assim como do futebol. Depois do erro completo que foi a Copa de 1990, o Brasil só reconquistaria o Mundial em 1994. Em meio à democracia e ao início do Plano Real, um time pragmático se tornou campeão, ainda que o talento imprevisível de Romário tenha sido essencial.