A data era abril de 2013. O local, Dortmund, Signal Iduna Park. A segunda partida das quartas de final da Champions League encaminhava-se para o fim. O cronômetro já havia marcado 45 minutos do segundo tempo, e o Málaga eliminava o Borussia Dortmund. Vencia por 2 a 1, fora de casa. Com o empate sem gols em La Rosaleda, o goleiro Willy Caballero precisaria ser vazado duas vezes para que a classificação espanhola não se concretizasse. E não é que ele foi? Reus, aos 46, e Felipe Santana, aos 48, dois gols controversos, tiraram o Málaga da competição de elite da Europa. Foi o auge do projeto ambicioso que começou com a chegada de um xeique catariano ao comando do clube. A derrocada terminou nesta quinta-feira, cinco anos depois. Derrotado pelo Levante, emblematicamente com outro gol nos acréscimos, o Málaga é o primeiro rebaixado da temporada entre as cinco grandes ligas. 

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A queda estava anunciada há meses. O Málaga faz uma das piores campanhas da história do Campeonato Espanhol. Meros 17 pontos em 33 rodadas. Ao vencer o confronto direto, o Levante aparece com 34 na tabela, a cinco partidas do fim de La Liga. Foram quatro vitórias, apenas uma fora de casa, cinco empates e 24 derrotas. Pior ataque da competição com 20 golos marcados, sexta pior defesa com 51 sofridos. É o fim de um processo de deterioração que começou justamente no momento de ápice, quando Manuel Pellegrini liderou a equipe ao quarto lugar do Espanhol e conseguiu classificação à Champions League.

As promessas foram muito tentadoras, em 2010, quando o Málaga foi comprado pelo xeique – segure a respiração – Abdullah bin Nasser bin Abdullah Al Ahmed Al Thani, membro da família real do Catar. O novo dono queria colocar o clube entre os melhores da Espanha e, para isso, não poupou esforços. Chegaram Salomón Rondón, Demichelis, Júlio Baptista, Eliseu e Camacho na primeira janela de transferências sob nova direção. Na segunda, o time foi reforçado pela experiência do ponta Joaquín, além de Nacho Monreal, Toulalan, Isco, Santi Cazorla, a maior contratação da história do clube, e Ruud Van Nistelrooy. Um total de € 85 milhões investidos. Com Pellegrini no comando, o Málaga foi quarto colocado, sua melhor campanha de todos os tempos na liga nacional. Conseguiu classificação inédita para a Champions League.

No entanto, as comemorações mal haviam terminado quando se notou que o exército levado pelo xeique à Espanha era formado por soldados de madeira. No verão seguinte, jogadores reclamaram de salários atrasados e clubes cobraram dívidas de transferências. Em vez de aproveitar as vultuosas rendas da Champions League para reforçar o investimento em jogadores, ocorreu o inverso. Cazorla, Monreal, Rondón, Mathijsen e Nistelrooy foram embora. A verba das vendas serviram para amortizar as notas promissórias, não para reposições. Em dezembro de 2012, com classificação assegurada às oitavas de final da Champions após liderar o grupo que tinha Milan, Anderlecht e Zenit, a Uefa anunciou que o Málaga estava excluído de competições europeias por não cumprir com as regras do Fair Play Financeiro. A punição durou uma única temporada. O resultado prático foi não poder disputar a Liga Europa de 2013/14, para a qual o clube havia ganhado vaga com o sexto lugar no Campeonato Espanhol. 

O fim da temporada também representou o fim do sonho. Pellegrini foi convocado pelo Manchester City. Isco, pilar do time nos últimos dois anos, saiu para o Real Madrid. Toulalan, Joaquín, Demichelis e Júlio Baptista também foram embora, em uma tentativa de diminuir o peso da folha salarial. A torneira de investimentos de Al Thani simplesmente secou, sem satisfações para a torcida que havia acreditado em suas promessas. O Málaga nunca mais foi protagonista do mercado de transferências no papel de comprador. Mas continuou sendo no de vendedor: desde que os problemas financeiros começaram a aparecer, em 2012, a balança comercial está quase € 140 milhões no positivo. Recebeu € 175 milhões em vendas e gastou apenas € 38 milhões em compras. 

Para onde foi esse dinheiro? Por que ele não foi reinvestido na equipe? São as perguntas que o torcedor se faz. Não é que falte dinheiro a um membro da família real do Catar. As hipóteses mais promissoras dizem que Al Thani simplesmente perdeu o interesse, desmotivado pelos empecilhos burocráticos da Espanha para os seus outros empreendimentos – queria construir hotéis, marinas, complexos esportivos, um novo estádio, etc, etc, praticamente revolucionar Málaga. E por que ele não vende o clube? Al Thani admitiu receber algumas propostas, mas trava uma briga judicial com a empresa hoteleira Blue Bay, que em 2013 aceitou uma parceria com o xeique para estabilizar as finanças do clube. A Blue Bay reivindica 49% das ações do Málaga na Justiça e já recebeu decisões favoráveis. Uma delas impede Al Thani de passar o clube adiante. 

Apesar de todos esses problemas, o Málaga estava conseguindo ser um time mediano do Campeonato Espanhol. Variou pouco desde a saída de Pellegrini e de suas principais estrelas. Em quatro anos, foi oitavo colocado, nono e 11° duas vezes. A equipe conseguia ser relativamente equilibrada, e os goleiros Caballero e Kameni faziam seus milagres na defesa. Havia bons nomes surgindo, mas uma hora todo mundo vai embora – e, por outro lado, ninguém chega. Kameni, já trintão, fez parte da barca do começo da atual temporada, junto com Pablo Fornals, Ignacio Camacho e Sandro Ramírez, alguns dos principais destaques restantes. Apenas € 10 milhões foram reinvestidos. O espanhol Míchel era o treinador. O Málaga perdeu oito das primeiras nove rodadas. Empatou a outra, contra o Athletic Bilbao. Surpreendentemente, o treinador foi demitido apenas em janeiro, quando o pânico levou a diretoria a contratar oito jogadores, ainda sem abrir as carteiras. Quatro chegaram por empréstimo, três em transferência livre e apenas € 500 mil foram investidos em Ignasi Miquel, zagueiro que estava no Lugo. 

Nada funcionou. O novo treinador José González comandou 14 rodadas e conseguiu apenas uma vitória, contra o Villarreal. De resto, foram três empates e dez derrotas, com a desta quinta-feira, que decretou a queda. Após dez anos na elite, o Málaga está de volta à segunda divisão, e foi rebaixado com mais antecedência do que qualquer outra equipe das cinco principais ligas da Europa. Incluindo nesta lista o Benevento, que perdeu as 14 primeiras rodadas do Campeonato Italiano e de alguma maneira resistiu mais que o Málaga.