Marcelo já tem seu lugar na história do Real Madrid. São 10 anos de clube. Dez anos em que a promessa trazida do Fluminense se confirmou como um dos melhores laterais do mundo, um dos melhores de todos os tempos em sua posição entre os merengues. A importância de Marcelo se vê jogo após jogo. Mas se percebe também muito além do que acontece com a bola rolando. O brasileiro é um dos principais líderes do elenco. Um dos maiores responsáveis por manter o bom ambiente nos vestiários do Santiago Bernabéu. E que, assim, contribui de maneira fundamental para a série de conquistas que se vive nas últimas temporada. Taças que recheiam o currículo de quem tem apenas 29 anos e pode muito mais na carreira. Que quer mais.

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Nesta quarta, Marcelo foi mais um atleta brasileiro a publicar sua história no site The Players’ Tribune. O defensor relata principalmente a forte ligação que tinha com seu avô, principal incentivador durante os primeiros anos, e o seu desenvolvimento no Real Madrid. Além disso, ele encerra o artigo declarando toda a sua ambição por conquistar a Copa do Mundo e a confiança que deposita em Tite. Abaixo, reproduzimos parte do texto. Para conferi-lo na íntegra, clique aqui.

Quando eu completei 18 anos, alguns clubes da Europa começaram a me rastrear. Eu ouvi que o CSKA de Moscou me queria, assim como o Sevilla. Naquela época, o Sevilla estava voando, com o time cheio de brasileiros, então eu pensei. “Ow, Sevilla, pode ser manero”.

Então, um dia eu recebi a ligação de um agente. Ele disse, “Você quer ir para o Real Madrid?”

Ele disse isso como se fosse a coisa mais natural do mundo.

Então eu disse, “Claro, né?”

Mas eu não sabia quem era esse cara.

Então ele disse, “Então você vai para o Real Madrid. Guarda isso que estou te falando.”

Algumas semanas depois, nós estávamos jogando em Porto Alegre, e o Real Madrid enviou alguém para me encontrar no hotel. Então eu fui até o lobby e um senhor se apresentou. Mas ele não estava usando um distintivo do Real. Ele não me entregou um cartão ou qualquer coisa do tipo.

E ele começou a me perguntar coisas, tipo “Você tem namorada?”

Eu disse: “Sim, claro”.

Ele diz: “Com quem você mora?”

Eu: “Com a minha avó, tal.”

De novo, sem qualquer cartão de identificação, sem escudo do Real Madrid. Sem papeis de contrato. Então eu estava realmente pensando comigo, Isso é pra valer? Estou prestes a ser jogado num avião para a Sibéria ou algo do tipo?

Dois dias depois, eu recebi uma ligação de que o Real queria que eu fosse para Madrid para fazer um exame médico.

Eu ainda estava pensando, isso é sério?

Marcelo, do Real Madrid (Foto: Getty Images)

Você tem de compreender algo a meu respeito. Até os 16 anos de idade, eu nem mesmo sabia que existia uma Champions League. Eu lembro disso exatamente – eu estava sentado na sala do clube em Xerém, e alguns caras assistiam a um jogo na TV. Era Porto x Mônaco. Mas na verdade o jogo pareciadiferente. Era noite, com todas as luzes brilhando, com todos os torcedores, e o campo era tão bonito e sem buracos…era simplesmente incrível. No Brasil, pelo menos naquela época, as luzes não eram tão brilhantes. A grama não era tão verde.

Parecia que aquele jogo estava sendo transmitido de outro planeta que eu não conhecia.

A certa altura, eu tava tipo, “Ei, que car***** de jogo é esse?”

Meu amigo diz, “Champions League”.

Eu disse, “Champions do quê?”

Ele, “Cara, é a final da Champions League”.

Eu não fazia a menor ideia do que ele estava falando. No Brasil, a Champions League só era exibida nos canais a cabo. A maior parte das pessoas, como eu, não tinha acesso a isso.

Então, como eu dizia, eu estou no avião indo pra Madri 😀

Lembre-se disso, eu tinha acabado de fazer 18 anos. Eu juro por Deus que eu achava que estava indo para lá só pra uma conversa. Quando eu cheguei para o encontro com o clube, eu vi os contratos com o símbolo do Real Madrid em cima –  e assinei aquilo tudo rapidinho.

Então, os caras de terno me levaram direto para o campo de futebol. Eles me apresentaram para a imprensa naquele dia. Eu não fazia ideia que já seria apresentado. Minha própria família no Brasil me disse que eles não acreditavam que era verdade até que eles viram a notícia aparecer no Globo Esporte:

AOS 18 ANOS, MARCELO É APRESENTADO NO REAL MADRID.

Marcelo, dez anos atrás, sendo apresentado pelo Real Madrid (Foto: AP)

Um dos motivos que fazia tudo parecer tão irreal era o fato de Roberto Carlos ser o meu ídolo. Para mim, ele era Deus. Ser contratado pelo mesmo time do Roberto Carlos, na mesma posição, eu não podia acreditar.

Entrando naquele vestiário… você tinha Robinho, Cicinho, Julio Baptista, Emerson, Ronaldo, Roberto Carlos. Seis lendas brasileiras. Além de nomes como Casillas. Raul. Beckham. Cannavaro.

O pequeno Marcelito andava por ali, tipo, Eu só conhecia esses caras pelo videogame.

Eles podiam ter me engolido. Mas deixe eu te contar uma coisa sobre o Real Madrid. É um clube especial nesse sentido. Roberto Carlos caminhou comigo no primeiro dia e disse, “Aqui está o meu número de telefone. No caso de você precisar de alguma coisa. Qualquer coisa… você me liga.

No meu primeiro natal em Madrid, ele convidou minha esposa e eu para ir à casa dele com toda a sua família. O cara é meu ídolo, e nós estamos disputando a mesma posição como lateral esquerdo. A maioria dos caras não teriam feito aquilo para um moleque mais jovem. Mas era o Roberto Carlos. Ele é confiante. Este é o sinal de um homem de verdade.

Eu me inspirei muito no Roberto Carlos dentro de campo também. Roberto Carlos ia pra cima e pra baixo como uma animal na ala esquerda. Se você me ama ou me odeia, você sabe do que sou capaz quando estou lá. Eu adoro atacar. Não, é atacar como todos os laterais fazem. É A-ta- car como se eu fosse um ponta mesmo, entende?

E depois, na defesa? A gente tenta consertar o problema. A gente dá um jeito. Mas primeiro a gente gostava de atacar.

Você só pode jogar desse jeito se você tiver um bom entendimento com os seus companheiros de equipe. Fabio Cannavaro jogava do meu lado, e ele me dizia: “ Você pode atacar, Marcelo. Fica à vontade. Pode ir, que eu sou o Cannavaro. Você pode ir.”

É como o Casemiro faz comigo hoje. “Vai pra cima, Marcelo. A gente dá conta do resto depois”.

Ahhhhh, Casemiro. Ele salvou a minha vida. Eu poderia jogar até os 45 anos de idade com esse cara do meu lado. 😉

Marcelo, do Real Madrid (Foto: AP)

Quando eu cheguei em Madrid, Cannavaro me ajudou a ficar mais solto. A regra era, eu podia atacar desde que eu voltasse correndo pra defesa. Mas e quando eu estava atrasado para voltar para a nossa metade do campo? Hahahahahah. Ah, cara. Aí ficava sério. O cara sabia gritar. Ele pegava no meu pé.

Cannavaro pegava pesado comigo com razão, e eu amo ele por isso.

Ainda assim, você aprende rapidamente que o nível no Real é muito alto. No final da minha primeira temporada, o diretor me chamou na sala dele, e eu ainda era jovem e inexperiente. Entrei lá com meu boné na cabeça, tranquilão.

Ele me disse que o clube queria que eu saísse por empréstimo.

Eu entendi o que eles estavam tentando fazer. Eles queriam que eu adquirisse experiência. Mas eu pensei, Este é o Real Madrid. Se eu sair agora, eles podem nunca mais me ter de volta.

Ele queria que eu assinasse um pedaço de papel.

A única coisa que eu perguntei a ele foi, “Se eu não assinar isso, então eu não tenho que sair, certo?”

Ele disse, “Bem, é isso. Se você não assinar, você fica por aí. Se o técnico quiser ficar com você, então vai ser isso mesmo. Mas eu acho que você precisa adquirir alguma experiência”.

Eu pensei, Só com porrada ou com polícia pra eu sair daqui.

Eu disse, “Eu vou pegar experiência. Deixa isso comigo”.

Eu agradeci a ele e saí da sala.

Roberto Carlos foi embora naquele verão e eu comecei a jogar mais. O pequeno Marcelito decolou.

Marcelo comemora um dos seus gols pelo Real Madrid (AP Photo/Tony Ding)

Sempre que eu voltava para o Brasil nas férias, eu ia visitar o meu avô, e ele continuava colocando todas aquelas coisas numa estante da casa dele. Quando eu tinha 6 anos, ele começou a fazer um tipo de galeria para minha carreira. Ele colocava todas as fotos do time e todos os troféus ali, e sempre que eu marcava um gol, ele registrava isso num caderninho. Literalmente, todos os gols que eu tinha feito desde os tempos de escola.

Sempre que eu saía nas páginas dos jornais da cidade, ele pegava uma tesoura e recortava a matéria, plastificava e tudo mais.

Em uma de minhas férias de verão do Real Madrid, e eu percebi que ele ainda estava fazendo isso. Ainda cortando tudo e plastificando tudo. Mas nós estávamos ganhando La Liga. Tinha muito material saindo na imprensa. Ele pegava todos os jornais. Ele não perdia nada.

Eu sempre quis acrescentar duas coisas naquela estante: uma foto minha segurando o troféu da Champions League e uma foto minha curtindo na frente de um avião depois de ganhar uma Copa do Mundo, balançando a bandeira do Brasil como o Romário.

Quando nós chegamos à final da Champions League contra o Atlético de Madrid, meu avô estava doente. Antes da final, eu tinha começado uma sequência de quatro jogos como titular. Eu estava pronto. Infelizmente, o técnico escolheu outro para jogar no meu lugar.

O que você quer que eu diga? Eu fiquei muito triste no começo. Com um pouco de raiva. Mas, na minha mente, eu sabia que havia algo maior reservado para mim naquela noite. Eu sentei no banco e esperei. Quando nós estávamos perdendo de 1 a 0, eu esperei. Aos 45 minutos do segundo tempo, eu ainda estava esperando. Se você me conhece, ou teve a chance de me conhecer durante essa história, você pode imaginar o que estava se passando na minha cabeça. Eu não preciso dizer.

Então, aos 48 minutos do segundo tempo, o Sérgio Ramos nos salvou da morte novamente. Eu não sei o que é que esse cara tem. Acho que pode ser o cabelo.

marcelo

Quando o técnico chamou a mim e ao Isco na prorrogação, eu corri para o campo com muita raiva – mas um tipo de raiva boa pra jogar. Eu queria conquistar. Eu queria deixar tudo no gramado.

Na hora que eu marquei o gol do 3 a 1, eu acho que meu cérebro travou, de verdade. Eu pensei em tirar a minha camisa. Daí eu pensei de novo, eu não posso tirar a camisa, eu posso receber um cartão. Então eu fiquei sério. Daí eu comecei a chorar. Uma loucura.

Dez anos antes em Xerém, eu olhava para a TV e via as luzes brilhando e a grama verde, e perguntava: “Que jogo é esse?”

Dez anos depois, eu estava segurando o troféu. La décima – o décimo campeonato europeu na história do Real Madrid.

Alguns meses depois daquela final, meu avô morreu no Rio.

Eu tenho muito orgulho de ele ter me visto levantar o troféu da Champions League. Foi por causa dele que eu chegue naquele pódio.