Há um bom tempo temos nos deparado com notícias sobre o trabalho escravo no Catar, na preparação para a Copa do Mundo de 2022. O número de operários mortos nas obras de construção de estádios e outros locais necessários para o Mundial é enorme, mas sensibiliza muito menos que uma história contada “de perto”. Conhecer com um pouco mais de detalhes algumas das coisas que estão se passando no por enquanto país-sede da Copa de 2022 é importante para entender a gravidade da situação, e, nesse sentido, o Guardian fez um trabalho incrível com um mini-documentário de 14 minutos publicado nesta segunda-feira.

Após o jornal inglês revelar as condições de trabalho dos operários migrantes nas obras para a Copa de 2022 em reportagem de setembro do ano passado, o governo catariano havia dito que faria algo a respeito, mas ao retornar para Doha, capital do país, o repórter Robert Booth descobriu que na verdade tudo está basicamente a mesma coisa, e é isso que ele mostra no pequeno documentário.

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Logo no começo da reportagem, Booth conta que os trabalhadores responsáveis por construir a imponente sede do Comitê Organizador Local do Catar para a Copa não receberam por seu trabalho por mais de um ano e, embora o governo tenha tido conhecimento do caso e se comprometido a agir, o repórter encontrou casos muito parecidos na mais recente visita ao país.

Com depoimentos dos operários gravados dentro dos alojamentos precários onde maioria deles mora, é possível conhecer mais de perto a realidade dos responsáveis por de fato construir o Mundial de 2022. Muitos deles revelam estar passando por situação de meses sem receber salários, sendo constantemente cobrados por suas famílias que ficaram no Nepal e na Índia, entre outros, pelo dinheiro que não chega até elas. “Eu quero ir para casa, mas não tenho nenhum dinheiro. Quem ficaria aqui se tivesse dinheiro? Não recebi salário por um ano, não tenho dinheiro para comprar uma passagem. Como eu posso ir para casa de mãos vazias com apenas uma passagem? Estou aqui há quatro anos”, conta um dos operários.

Mais à frente no documentário, Robert Booth chega a um acampamento onde estão cerca de 60 operários. Lá, o repórter encontra condições ainda piores que as do último alojamento. A água disponível para os trabalhadores, tanto para banho quanto a “potável”, é salgada, como descreve um deles. O mesmo operário ainda revela que muitos deles estão passando por situações de desconfiança por parte de suas famílias, que não acreditam que eles não têm recebido os salários.

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Entre os anos de 2012 e 2013, quase 900 operários morreram enquanto trabalhavam nas obras para o Mundial, e o depoimento de como uma dessas mortes aconteceu revela o sentimento de muitos. Rishi Kandel, de 42 anos, havia terminado seu turno, se alimentado e foi então dormir. Quando seus colegas tentaram acordá-lo para o início de mais um turno, às 4h45 da manhã, Kandel simplesmente não se levantou mais. “Se alguém morre, existe um medo de que outros também morram”, conta um operário que era próximo de Kandel.

A cereja no bolo para todo o absurdo que vem acontecendo neste início de preparação do Catar para sediar a Copa de 2022 são as denúncias de que houve suborno no processo de votação da sede, incluindo no esquema o ex-vice-presidente da Fifa Jack Warner, que teria recebido US$ 1,2 milhão. A divulgação de todas essas informações é relevante para que o assunto gere discussão na opinião, e o resultado disso é que, aos poucos, a realização da competição no país vai ficando cada vez mais inviável. No entanto, contar em detalhes algumas das histórias dos operários, que de outra forma são apenas um monte de números, é também um passo importante. Todos precisam saber bem o que está acontecendo, antes que os jogos em 2022 sejam disputados às custas das vidas dos trabalhadores.

Infelizmente não há tradução em português para a reportagem, publicada ainda nesta segunda-feira. De qualquer forma, publicamos aqui o vídeo com as histórias descritas acima e também outras.