Há quem diga que o futebol tem nove posições e duas profissões: goleiro e centroavante. Kenny Deuchar exerce duas profissões ao mesmo tempo e o seu sucesso levou a um apelido que entrega ambas: Doutor Gols. Aos 33 anos, o jogador se tornou conhecido no seu país natal, a Escócia, por ser um goleador nato e um médico. Em 390 jogos oficiais, 143 gols. Entre os plantões no hospital e os gols, o atacante resolveu se aposentar em 2012, aos 31 anos, para se dedicar aos pacientes. Mas algo o motivou a voltar a jogar: a Copa do Mundo. Não a da Fifa, mas outra: a dos médicos. E ele virá ao Brasil em julho para tentar o título.

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“Eu ia regularmente das 20h às 8h no turno da noite no hospital, dirigia para jogar a partida das 15h e voltar direto para o hospital para outro plantão de 12 horas no sábado à noite”, afirmou o jogador ao Guardian. Por uma década, o jogador conseguiu equilibrar essa rotina entre profissões completamente diferentes. Sua melhor temporada na carreira foi pelo Gretna, da quarta divisão, em 2004/05. Ele foi a estrela do time que subiu para a terceira divisão marcando 38 gols em 30 jogos, um recorde.

Em 2006, em um amistoso contra o Threave Rovers, Deuchar marcou 11 gols em uma vitória por 18 a 0. Nessa época, o futebol era a sua prioridade e ele exercia a medicina atendendo apenas uma vez por semana em um hospital da cidade e outro dia por semana no Wishaw General Infirmary. Em 2008, ele foi para o Real Salt Lake para disputar a Major League Soccer. Ele ajudou o time a chegar aos playoffs pela primeira vez, mas sua marca não foi muito impressionante. Marcou três gols em 29 jogos.

O jogador se aposentou em 2012 para se dedicar à medicina. Foi tentado a voltar por um sonho: jogar a copa do Mundo dos Médicos. Foi por isso que o jogador abandonou a aposentadoria para assinar um contrato pelo Arbroath, clube da terceira divisão escocesa, para estar em forma para a disputa, no meio do ano. O torneio terá como palco o Arena das Dunas, em Natal, um dos palcos da Copa do Mundo profissional. O sonho da Copa do Mundo o motivou a sair da aposentadoria e voltar à rotina de treinos, jogos e plantões. Ele jogará pelo time britânico de médicos na disputa de 16 seleções.

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“Meu plano era jogar futebol amador até o meio do ano para ficar em forma para a Copa do Mundo. Em janeiro, o técnico do Arbroath, Paul Sheerin, me mandou uma mensagem se eu gostaria de sair da aposentadoria. Eu disse que não, mas eu precisava de um lugar para voltar à forma. Eu comecei a treinar e logo eles me colocaram jogando no sábado [dia tradicional de jogos no Reino Unido]”, disse o jogador.

O time acabou rebaixado na League One, a terceira divisão escocesa, que teve o Rangers como campeão. Seus dois gols na temporada em oito jogos não foram suficientes para evitar o rebaixamento por um ponto, na última rodada. O Arbroath paga um salário nominal para que o jogador faça a pequena viagem de 225 quilômetros entre o seu trabalho como médico e o centro de treinamento do time. Deuchar diz que se sente feliz por ficar em forma e sentir a sensação de voltar a marcar um gol.

Apesar das duas profissões, ele não parece ter dúvidas sobre o que mais o satisfaz: marcar gols. Especialmente porque seu filho pode vê-lo colocando a bola na rede. “Agora que ele tem idade o bastante para vir e assistir, marcar um gol em frente ao meu filho é incrível, talvez a melhor sensação que eu tive no campo desde que eu marquei o gol que levou o East Fife a subir de divisão quando eu era muito jovem [em 2009]. Eu não acho que você pode comprar a sensação de marcar um gol com qualquer outra coisa. Quando eu faço um bom trabalho como médico, eu me sinto aliviado, mais do que qualquer coisa”, explicou o Doutor Gols.

Deuchar conta uma história curiosa de quando suas habilidades como médica foram requisitadas enquanto ele exercia a função de jogador. “Teve um incidente quando um jogador cortou a cabeça e alguns dos membros da comissão técnico vieram e falaram ‘1nós não temos um médico no jogo’. Eu entrei no vestiário com o meu uniforme e o cara estava desorientado, mas ele estava um pouquinho mais confuso em por que eu que costurava a sua cabeça. Eu passei a maior parte do segundo tempo dando pontos nele”, contou o jogador ao Guardian.

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A Copa do Mundo dos Médicos pode cobrar seus conhecimentos como médico, além das habilidades goleadoras. Isso porque há uma regra curiosa no torneio: os times podem escolher dois jogadores do adversário para responder, por escrito, um questionário sobre questões básicas sobre medicina. Uma forma simples de tentar impedir que jogadores profissionais joguem uma competição sem serem médicos. Nesse caso, porém, o Doutor Gols é de fato médico, e teve que enviar seus documentos de formação universitária e licença para exercer a profissão para provar que é mesmo médico e ser habilitado a jogar pelo time do Reino Unido.

A Copa do Mundo dos Médicos será entre os dias 6 e 12 de julho, bem quando a Copa dos profissionais estará em sua fase final. Aliás, a final da Copa, no Maracaná, é no dia 13 de julho. Mas o Doutor Gols não estará por aqui para ver a finalíssima. “Quando eles me disseram que o torneio desse ano era no Brasil, onde a Copa do Mundo realmente será disputada, eu fiquei vendido. Se eu puder ganhar a Copa do Mundo com o Seleção Médica do Reino Unido, então será o ponto alto da minha carreira. Espero que possamos sentir algo da atmosfera da Copa do Mundo, mas não poderei ficar por lá para o final dela. Eu tenho que voltar para casa para atender meus pacientes”, brincou  o médico/jogador.

A Copa do Mundo é mesmo uma enorme motivação para qualquer jogador. Mesmo que seja uma Copa do Mundo de médicos.

Agradecimentos a Arthur Chrispin, que nos alertou para essa grande história.

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