Quando alguém no Brasil fala em CSKA Moscou, o primeiro nome que vem à cabeça é o de Vagner Love. Em seguida o de Daniel Carvalho. Poucos se lembram, porém, que o atual campeão russo tem outro brasileiro em seu quadro: Dudu Cearense. O papel de coadjuvante não o incomoda. Ainda mais depois de conquistar seu primeiro título nacional pouco tempo depois de chegar ao time.

O volante conversou com a Trivela pouco após sair de um dos últimos treinos preparatórios para a partida contra o Levski Sofia pela Copa da Uefa e comentou que, apesar de estar isolado do mundo no futebol russo, acredita que em breve voltará à Seleção. “Sei que é um pouco difícil por eu estar aqui na Rússia, mas tenho certeza que um dia eu voltarei.”

Nessa entrevista, Dudu conta um pouco do ambiente do campeonato russo e sobre companheiros como o atacante croata Ivica Olic (“É um jogador muito rápido, brigador”) e sobre goleiro russo Igor Akinfeev, uma das promessas do país (“Ele é uma figura”).

Confira a entrevista com Dudu Cearense

O CSKA Moscou conseguiu uma recuperação incrível no campeonato russo e conquistou o título com antecedência. Quais fatores foram fundamentais para este crescimento?
Foi um começo muito difícil pelo fato de o Lokomotiv estar 13 pontos à frente. Nós estávamos priorizando apenas a disputa da Copa Uefa e nossos rivais abriram esta vantagem. No final do campeonato russo, o Lokomotiv deu uma caída e o CSKA cresceu muito a cada jogo. Conseguimos duas vitórias importantes sobre o Spartak, que também era outro concorrente direto nosso. O Lokomotiv teve uma queda de rendimento e isso nos ajudou a nos aproximarmos deles para brigar pelo título.

Você chegou nesta temporada na Rússia. Que peculiaridades no estilo de jogo local você já notou nesse período?
Aqui eles são mais cautelosos nos treinamentos e priorizam mais a parte tática. O futebol francês era de muita força, técnica e velocidade. Aqui espero que a cada ano eu possa crescer. Este primeiro ano está sendo mais para me adaptar à cultura russa, do estilo de jogar, da forma de treinar e pensar deles.

Como é o ambiente nos jogos fora da capital?
Quando disputamos uma partida em casa fica mais difícil lotar o estádio. É muito gostoso jogar fora porque eu me sinto em casa, pois sempre há estádios lotados fora de Moscou para assistir ao CSKA.

Há muitas diferenças técnicas entre os times de Moscou e os do interior da Rússia?
Tanto o Spartak quanto Lokomotiv, Dínamo e CSKA se diferenciam das demais. Essas quatro equipes são as que têm sempre maiores chances de conquistar títulos. Mas há outros clubes como o Rubin, que terminou em quarto lugar, e o Saturn. O nível está crescendo, mas não está ainda como a gente quer. Porém, tenho certeza de que se tornará um campeonato muito competitivo.

Na sua opinião, quais são os pontos fortes do CSKA?
Acho que o Valeriy Gazzayev. Ele é um grande técnico, dá tranqüilidade e confiança aos jogadores. Ele tem uma visão para a frente por pensar em conquistar títulos por etapas e sempre prioriza uma competição. O companheirismo e a humildade do grupo também são elementos fortes.

O Igor Akinfeev é um goleiro jovem e tornou-se um dos principais jogadores da equipe…
O Akinfeev é uma figura (risos). Costumo brincar muito com ele. Um grande jogador, líder e tem um futuro enorme pela frente. Espero que possa manter essa qualidade que ele tem para continuar se destacando ainda mais.

E o Ivica Olic (croata), parceiro do Vágner Love no ataque do CSKA?
É um jogador muito rápido, corre bastante e brigador dentro da área. Ele foi muito importante para a conquista do título russo. Ele se machucou na reta final do torneio mas nos ajudou muito. É uma pessoa tranqüila e muito bom jogador. Espero que ele possa arrebentar no Mundial.

Como é o seu relacionamento com outros jogadores do elenco?
Quando cheguei na Rússia fui bem acolhido aqui. Para mim fui muito importante esta chegada, que foi diferente de outros lugares nos quais passei. No CSKA o pessoal veio logo brincando comigo. A cultura é um pouco parecida com a dos brasileiros. Os europeus são um pouco frios, mas os russos gostam muito da gente, brincamos com eles sem problemas.

Você enfrentou algum tipo de problema por ser estrangeiro?
Tem aquele ciúme por ser um jogador diferenciado, da imagem de vir do país pentacampeão mundial, de ser criativo. Eles têm que engolir a gente, né… (risos) Aqui todos são iguais. Não tem nenhum tipo de diferenciação. Quando o grupo tem apenas o pensamento de ser campeão ajuda neste processo de integração.

Você passou por algum problema de adaptação aí na Rússia?
Aqui faz o mesmo frio que enfrentei no Japão. Acho que dá para agüentar mais um pouquinho… (risos). Todo começo é difícil, mas hoje já estou tranqüilo. Conheço bem o grupo, o clube e a tendência é me sentir melhor cada vez mais.

E quanto ao idioma? Já aprendeu alguma coisa?
Dá para eu me virar um pouco. Já posso fazer coisas básicas, como ir às compras e perguntar “quanto custa?”, “por favor”… No clube há um intérprete para facilitar o trabalho e como há mais brasileiros por aqui acaba sendo mais fácil para aprender uma palavrinha.

Como é a rivalidade com os outros clubes de Moscou? Quem é o principal adversário do CSKA hoje?
Hoje o CSKA conseguiu conquistar uma maior torcida. A maior rivalidade do clube é com o Spartak. Teve até uma história curiosa: como eles eram patrocinados por uma empresa que vendia carne, a torcida costumava gritar “eu não gosto de carne!”. Dínamo e CSKA é um clássico antigo. Com o Lokomotiv é um pouco menor. Jogar contra essas equipes é maravilhoso, o estádio lota, pois são jogos-chave. Há muitos clássicos aqui e é muito bom jogá-los.

Com esta rivalidade toda, como as torcidas se comportam nos clássicos?
As torcidas se respeitam demais. É impressionante, pois o fanatismo deles não chega à violência. São muito respeitadores, tranqüilos, torcem pelos seus times sem brigas. Há sempre aqueles que querem fazer confusão, mas são uma minoria. É um espetáculo muito bonito de se ver no estádio.

A Rússia tem um campeonato com bom número de estrangeiros, mas poucos deles são convocados para suas respectivas seleções. Por quê?
O problema está na visibilidade, pois o campeonato russo ainda não tem o mesmo prestígio de outros países. Aqui fica tudo um pouco mais distante para ser convocado para a Seleção.

O CSKA é o atual campeão da Copa Uefa. Quais os planos da equipe para esta edição do torneio, logo depois dos resultados ruins nos primeiros jogos da fase de grupos?
O mais difícil na vida é se manter. É uma competição muito acirrada. Perdemos para o Olympique de Marselha e empatamos com o Heerenveen e precisamos de duas vitórias e uma combinação de resultados para nos classificarmos para a próxima fase. Nossa primeira meta é conquistar a vaga. Está mais difícil, pois enfrentamos grandes equipes, e o importante é manter o ritmo e a seriedade para não cair.

Você teve uma passagem um pouco conturbada pelo Rennes. O que aconteceu na França?
Quando cheguei lá, tive uma boa recepção. Logo no primeiro jogo fiz um gol. O CSKA já tinha interesse em mim desde aquela época. Pensei bastante com relação aos dois clubes. Era um empréstimo, para permitir que me avaliassem sobre uma possível compra. No começo deste ano eu me machuquei, tive uma lesão na coxa esquerda. A partir desse momento eu disse para o pessoal do CSKA: ‘se vocês me querem, este é o momento de correr atrás, pois não vou poder jogar pelo Rennes por um bom tempo’. O CSKA procurou o Rennes para me comprar, mas o time me segurou. Eu disse que não queria mais ficar, pois o CSKA é uma grande equipe, sempre disputa a Copa Uefa e outros títulos. No CSKA teria o primeiro grande contrato da minha vida. Escolhi o momento certo, pois fui campeão em menos de um ano e fiz um grande investimento em minha vida.

No Rennes, você teve a oportunidade de conviver um pouco com o suíço Alexander Frei. O que dá para você falar dele?
Ele me chamava de “Cearense” (risos). Ele é gente boa para caramba, um pouco polêmico, mas uma pessoa tranqüila, um grande guerreiro. Fiquei muito feliz por ele se classificar para a Copa. É um bom finalizador.

Quem foi o jogador que você teve mais dificuldade para marcar?
Foi o Felipe. Não dava para saber em qual momento ele iria para a direita ou para a esquerda. Parece que dá um choque nele e ele dá o drible. Ele é muito rápido.

De alguma maneira você lamenta ter ido para a Rússia? Afinal, há pouco espaço na mídia brasileira para o que acontece por aí…
Quando você joga na Europa, em países como Espanha, Itália, Inglaterra há uma diferença maior pela visibilidade. No Brasil é possível assistir aos campeonatos de lá. Aqui falta mídia, marketing e precisa crescer muita coisa ainda para entrar de vez no cenário mundial. Na Rússia você aparece muito para o continente, com a disputa da Copa Uefa e pela Liga dos Campeões. É uma vitrine para a Europa. Quando estava no Brasil era mais fácil ir para a Seleção. Tive uma época boa no Vitória, fui convocado para a Seleção naquele período. Se eu jogasse na Espanha, Itália certamente teria maior visibilidade. Na Rússia eu também estou sendo visto, mas não da mesma maneira como se atuasse em países da mais tradição.

Alguém da CBF mantém contato com o clube para saber como é seu desempenho?
Não sei se existe esse contato da CBF com o clube.

Você planeja retornar à Seleção?
É um pouco difícil por eu estar aqui na Rússia. Seria mais fácil para o Parreira me ver se eu estivesse em outro país. Fica uma interrogação para ele, pois como ele pode me chamar se não sabe como estou? Claro que ele confia em meu trabalho. Se eu for para Copa ficarei muito feliz, mas se eu não for também ficarei tranqüilo e trabalharei muito. Tenho certeza de que para a Seleção um dia eu voltarei.

O que falta para você se tornar um nome indispensável na Seleção?
O que falta é oportunidade, só isso. (risos)

Quais são seus planos para o futuro?
Tenho propostas do Brasil, mas não penso em sair daqui. Pretendo cumprir meu contrato direitinho e permanecer quatro anos no CSKA. Quero ter a chance de mostrar serviço aqui e ganhar uma oportunidade em um time grande da Europa. Antes de sair, desejo ajudar o CSKA a conquistar mais títulos e honrar a história do clube.

Fotos: Agência CBF e Divulgação