O meia Dudu vive um grande momento na Arábia Saudita. O meia, camisa 10 do Ohod Al Medina, se transferiu ao país do Oriente Médio em julho. Seus direitos pertencem ao Fluminense, que o contratou em 2016, depois do jogador brilhar pelo Coritiba no ano anterior. Sem espaço no clube carioca, acabou emprestado ao Náutico no começo de 2017. Agora, joga pela liga saudita e tenta encontrar o seu espaço como o principal jogador do time da cidade sagrada de Medina. Em entrevista à Trivela, o meia Luiz Eduardo Figueiredo, de 26 anos, contou sobre como é viver em um dos países mais fechados do mundo, o que faz para manter a sua melhor forma física, comentou o futebol do país e também a sua paixão por futebol.

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Trivela: Qual foi o principal choque quando você chegou à Arábia Saudita?

Dudu: É um país totalmente diferente do nosso, pela cultura, pela religião deles, são coisas muito diferentes do Brasil. E um momento que estou desfrutando da melhor forma possível. Eu e minha esposa falávamos de vivenciar muita cultura, outro país. Aqui sentimos muito a questão da língua, da comida quando chegamos. É a segunda cidade mais religiosa, depois de Meca. Então você sente esse susto, esse baque. Está sendo uma experiência incrível pra mim. Estou vivendo um momento bom dentro do campo, reconhecimento fora do campo pelas pessoas na cidade de Medina. Isso me deixa feliz. Tudo vale a pena. Tudo tem um preço. Eu, minha espoa e meu filho estamos felizes vivendo aqui.

Como é a sua rotina por aí?

A diferença é grande. Aqui se treina muito pouco. Treinos à noite pelo calor. Agora que baixa um pouco a temperatura. Agora que está chegando o inverno e treinamos 17h. No verão, quando eu cheguei, a temperatura passava dos 50 graus, aí o treino era mais tarde, 20h, 21h.

Como se treina menos aqui, eu faço a minha musculação à parte, um treino à parte, assim mantenho a minha boa forma também. Para quem vem do Brasil, é bem diferente, mas dá para se adaptar e é importante fazer esses treinos.

Alguns jogadores levam profissionais próprios quando vão jogar fora do país. Você levou algum profissional?

Tenho um amigo personal trainer no Brasil e sempre me ajuda nas minhas férias, com treinamentos e manter a forma física. Eu gostaria de traze-lo para cá, mas ainda não deu. Quem sabe eu consiga prolongar o meu contrato, ficar mais um tempo na Arábia Saudita, e aí quem sabe consigo trazê-lo para cá para trabalhar comigo.

Você é um dos 23 jogadores brasileiros que atuam na liga saudita, a grande maioria de meias e atacantes. Você tem contato com os outros brasileiros que jogam por aí?

Tenho contato sim. Quando jogo com algum brasileiro, procuro trocar experiências, acho que é importante fazer isso. Tem gente que está aqui há mais tempo e sente as dificuldades da mesma forma, fala que é difícil. O modo dos sauditas de jogar é diferente do nosso, o modo de pensar também é diferente. Aqui é bacana, os brasileiros também gostam, é difícil se adaptar, mas dá para tirar de letra e depois fica tranquilo.

Você atua como meia, mas eventualmente joga também pelas pontas. Onde é a sua posição preferida, que acha que rende mais?

No Coritiba eu cheguei a atuar na ponta também, fiz algumas boas partidas, gols. Eu sempre gostei de jogar mais pelo meio, como criador de jogadas, atrás do atacante. Aqui eles chamam de playmaker, é a posição que eu gosto mais de jogar, centralizado. Por eles terem me contratado para isso, casou a posição que eles queriam com o que eu mais gosto de jogar.

Taticamente, como se comportam os times? É muito diferente do Brasil?

Varia muito de acordo com o treinador. Quando eu cheguei, era um treinador árabe [o saudita Abdulwahab Nasser, demitido no início de novembro] que foi me ver jogar para me contratar. Ele jogava de uma forma, agora chegou um argelino [Nabil Neghiz] que joga de outra forma. Eles são inteligentes. O jogo deles é mais corrido, não é tão cadenciado. Mas taticamente, faz pouca coisa diferente do Brasil. É um jogo muito mais corrido, muito mais rápido, é bastante lançamento, correria. No começo senti muito isso, essa velocidade, porque eu gosto de cadenciar o jogo.

Tem até um auxiliar aqui que é do clube, brasileiro, Claudio [Vieira, trabalha nas categorias de base do Ohod], que me ajuda com tradução, a língua, comida, tudo. E quando eu cheguei, ele me falou que a bola passa muito por cima, muitos lançamentos longos. Foi isso que aconteceu no começo, mas hoje em dia eu me adaptei, eles sabem como eu gosto de jogar e como eu posso ajudar a equipe e agora me adaptei ao time e o time se adaptou a mim.

O seu time vive uma temporada para tentar ficar na primeira divisão. Qual é a sua expectativa até o final da temporada?

Estou com uma expectativa muito boa, a nossa equipe passou a jogar mais taticamente depois da chegada do novo técnico. O time tem rendido mais em todos os aspectos. Estou feliz e com uma expectativa bem positiva para subir na tabela, ficar na primeira divisão. É um clube de pequeno porte, mas aqui é um futebol nivelado. Não tem times que grandes em termos de diferença técnica. Então temos bastante expectativa de manter o time na primeira divisão.

Sabemos que a liga na Arábia Saudita não para neste fim de semana, já que o país não comemora Natal. Como será para você e para a sua família?

Para falar bem a verdade, eu nem olhei bem a tabela e aqui são dias normais. Aqui vamos ver a família de longe, mas para nós teremos dias normais. Eu tive amigos que jogaram aqui e disseram que esses são os momentos mais difíceis, ver fotos de amigos, família, no Instagram, Facebook e ver essas comemorações. Eu até brinquei com um amigo que vou desligar Instagram e Facebook para não ficar vendo (risos). Eu escolhi estar aqui, Deus abriu a porta e eu estou aproveitando. Estou feliz aqui.

O Al Hilal chegou à final da Liga dos Campeões na Ásia pela terceira vez nos últimos anos e é um dos times mais fortes do continente. Como foi a repercussão da campanha do time por aí?

O Al Hilal e o Al Ahli são os mais falados. Aqui, em qualquer cidade tem torcedores desses dois times, que são os dois maiores daqui, são clubes de muita repercussão. Tem o Al Ittihad também, que um grande amigo meu, Tcheco, foi ídolo, e também é um time grande. Fui jogar contra o Ittihad recentemente e fiz dois gols, repercutiu muito bem lá (risos). A repercussão acontece realmente. Tem muitos torcedores dessas equipes no país todo.

Toda liga que tem clubes grandes é importante porque os jogos contra esses times chamam a atenção. Inclusive para jogadores que atuam em clubes um pouco menores, como o meu, e que podem atuar em um desses grandes clubes um dia.

Em 2014 fizemos uma matéria sobre a paixão da torcida do Al Hilal, fazendo mosaicos espetaculares e sendo chamado por alguns de “Real Madrid da Ásia”. Como são as torcidas aí na Arábia Saudita?

Eu estava conversando com a minha esposa ontem e aconteceu um fato inusitado. Eu estou hoje em uma equipe pequena aqui da Arábia Saudita. Abriram os treinos recentemente e estava acontecendo uma série de eventos, torneios de academia, as escolinhas e categorias de base do clube. Tinha crianças de várias ideias, de 5 até 15, 16 anos. Aconteceu um fato inusitado e, apesar de sermos uma equipe pequena, o pessoal reconhece, os torcedores correram atrás do carro para tirar foto. Os seguranças do clube tiveram que me tirar de lá, porque a torcida não me deixava sair (risos).

O pessoal é bem apaixonado. No último jogo, contra o Al Ahli, que é um dos maiores, tinha pouca torcida nossa. E a torcida é bem apaixonada, é fanática, fica esperando o ônibus chegar, faz muita festa, apoia. Nesse sentido, é parecido com o Brasil. É legal que você vê que o futebol é uma paixão é mundial, mesmo em um lugar totalmente diferente.

A Arábia Saudita conseguiu voltar para a Copa do Mundo e tem o Al Hilal como base. Como foi a repercussão por aí?

É bacana, vc vê pelo lado positivo a Arábia Saudita voltar a disputar uma Copa do Mundo. Fazia duas Copas que eles não iam, se não me engano, certo? É legal ver a comemoração deles estando aqui, dos jogadores, da torcida. Eles até brincam comigo que vão pegar o Brasil e tentar ganhar. É bem legal. Eles estão bem empolgados com a ida para a Copa.

E o que você acha que a Arábia Saudita pode fazer na Copa?

É difícil dizer que não, porque o futebol mundial está muito mais nivelado e muito mais estudado. Podemos tiramos como base a nossa seleção. Dá para pensar que o Brasil fará uma grande Copa, com um treinador que é muito estudado. Não que os outros não sejam, mas vimos a seleção em momentos piores e Tite arrumou a casa. Todos estão falando bem, a seleção está redonda. A Arábia pode fazer uma grande Copa sim.

E seria bom para vocês que jogam por aí, né?

Ah, sem dúvida (risos). A Arábia Saudita fazer uma boa Copa é sempre positivo para o país, para a liga daqui. Mostra um pouco a força que eles têm.

Você consegue assistir futebol de fora do país aí? O que gosta de ver?

Eu consigo ver alguma coisa sim, mas é tudo em árabe (risos). Alguns lugares aqui têm TV a cabo, aí dá para ver, mas sempre com a narração toda em árabe. Eu tenho a Apple TV, que dá para ver alguma coisa, outra consigo assistir pela Globo na internet, ou então pela TV a cabo em árabe mesmo. Eu comprei aqui a BeIN Sports [emissora do Catar que atua em diversos países do mundo, inclusive com direitos de transmissão do Brasileirão]. Aqui passa tudo, dá para acompanhar bastante. Por ser um pais muito fechado, e ter áreas que eu não posso andar, fico muito em casa com a família. Compramos videogame, eu jogo bastante com o meu filho, assistimos Netflix. E dá para ver bastante futebol, eu gosto.

Aqui é uma cidade sagrada. O muçulmano tem que vir uma vez na vida a Meca e Medina. Eles vêm para cá e depois vão para Meca e cumprem os rituais. É difícil porque eu tenho algumas tatuagens, então é complicado nisso, eles ficam falando que é pecado, ‘haram’, mas já me acostumei. Hoje em dia, os torcedores me reconhecem muito na rua e isso ajuda bastante. E graças a deus e ao futebol por isso.

E o que joga no videogame? Gosta de jogar futebol também?

Olha, até a minha esposa brinca que eu saio do treino e vou jogar futebol [risos]. Eu até compro outros jogos, mas no fim, acabo jogando muito mais os de futebol mesmo. Quando gosta, né… (risos).

Dudu, do Ohod Al-Medina (Foto: divulgação)