A zoeira não acaba nunca. Esta é provavelmente a única maneira de definir o que acontece na atual gestão da CBF. Vamos imaginar que o que todo mundo está dizendo nesse momento, que Dunga será o novo técnico da seleção brasileira, seja apenas uma brincadeira da dupla Marin-Del Nero. Ainda assim, o simples fato de alguém mencionar essa possibilidade já mostra que não se pode levar a sério nada que saia deste reality show em que se transformou a Confederação Brasileira de Futebol.

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Dunga tem uma história no futebol. Uma história menor do que muitos querem fazer crer. Por muito tempo o ex-capitão do time de 1994 teve seus feitos amplificados por nossa intelligentsia, sempre pronta a louvar bernardinhos em geral como louvou no passado os generais que nos salvariam do comunismo.

A memória das pessoas é necessariamente curta, e pouco mais de quatro anos depois do desastre da Copa de 2010 bastou um novo desastre – em algumas medidas menor do que o de 2010 – para fazer as pessoas esquecerem que na Copa da África fomos eliminados por um time mediano da Holanda depois de estarmos ganhando por 1 a 0 depois que o preferido de Dunga, o “Dunga do Dunga”, foi expulso depois de demonstrar o completo desequilíbrio emocional que todos sabiam ser sua principal característica (mas que foi ignorado pelo técnico).

Cabe, então, um trabalho de desmistificação. É possível dar certo com Dunga ao leme? Sempre é possível dar certo, mas é um caminho tortuoso não só porque não há nada que indique que pode dar certo. É tortuoso principalmente porque foi sob Dunga que a seleção viveu sua maior crise com a torcida. Em um momento em que se esperava que a CBF pudesse trazer a torcida para jogar junto, ela chama para dirigir a seleção dois marionetes. Sem que haja ninguém para operar as cordas.

Desmistificando Dunga 1: o jogador

Dunga foi um jogador mediano. Era um bom volante, e só. Não era especialmente bom na marcação, não era especialmente bom no passe e não era uma liderança em campo maior do que um jogador mediano pode ser. Tanto que era apenas um jogador útil no melhor time brasileiro que defendeu em seu início de carreira, o Vasco de Romário, Roberto Dinamite, Geovani e Mazinho que conquistou o Campeão Estadual do Rio de 1987.

Era um jogador de tanto destaque que foi vendido para o Pisa, 12º de 16 times da Serie A de 1987/88. De lá, tranferiu-se para a Fiorentina, onde teve o momento mais expressivo de sua passagem pela Itália. Passou quatro anos – no primeiro ano o time foi o 7º colocado, em todos os outros, o 12º – em Florença. Em 1992/93 Dunga conseguiu uma transferência para o Pescara, último colocado daquele ano.

Na Alemanha, Dunga ficou dois anos, mais uma vez chegando em 7º e em 12º na Bundesliga (pelo Stuttgart. As atuações de destaque renderam uma transferência para o Campeonato Japonês. Até foi campeão no Oriente, mas, depois da passagem pela Fiorentina, o momento de maior destaque da carreira de jogador de Dunga em clubes foi salvar o Inter da série B já no final da carreira.

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Desmistificando Dunga 2: o capitão

Dunga não era um destaque da seleção de 94. Dunga, aliás, não era nem o melhor volante do time, que tinha o monstro Mauro Silva a seu lado. A seleção de 1994 foi um time fraco praticamente o tempo todo, e esteve perto de não ir à Copa do Mundo. Parreira e Zagallo foram salvos por Romário, o jogador que eles esnobaram até que ficasse claro que iam morrer abraçados com a própria teimosia. Romário levou o Brasil à Copa, e Romário ganhou a Copa para o Brasil.

Mesmo a “liderança” de Dunga merece ser relativizada. Dunga era o capitão do time porque era o funcionário preferido de Parreira. Porque era um cara afeito a esse papel, como continuou sendo depois. Se aquele time tinha um líder, esse líder era Romário, o jogador para o qual o time jogava. Dunga era apenas o mais estridente, o cara para tentar deixar o time nervoso, e o cara que os chefes escolheram para levantar a taça.

Isso fica mais claro em 1998, quando a “liderança” de Dunga resulta em uma cabeçada em Bebeto em um jogo que o Brasil vencia por 3 a 0. Depois, ainda houve a falta dessa participação de líder no desastre de Paris. Sim, Dunga foi em 1998 o que David Luiz foi em 2014.

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Nossa moral autoritária, porém, ao invés de guardar a imagem de um jogador fracassado – e amargurado pela derrota de 1990, que jurou jogar na cara de seus críticos, o que fez em 1994 -, guarda a imagem de um líder que nunca existiu.

Desmistificando Dunga 3: o técnico

Dunga foi demitido do Internacional em outubro de 2013, com o time em 10º lugar no Brasileirão, depois de ter ganho o Gauchão. Foi o único trabalho do técnico depois de deixar a seleção brasileira.

Como técnico da seleção brasileira, Dunga ganhou uma Copa América e uma Copa das Confederações – a mesma que Felipão ganhou. Foi o que garantiu que chegasse ao Mundial depois do início desastroso do trabalho. Para quem não se lembra, o Brasil estreou na Copa América perdendo do México, passou pelo Uruguai na semifinal nos pênaltis e, finalmente, teve uma de suas poucas boas atuações da Era Dunga na vitória por 3 a 0 sobre a Argentina na final. Julio Baptista era titular e destaque da equipe, e entre os jogadores daquele grupo estava Afonso Alves, aquele.

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Nas Eliminatórias, o Brasil ficou na primeira posição com folga, mas mostrou grande limitação. Sabia usar o contra-ataque porque tinha Kaká e Luís Fabiano no auge de suas carreiras, e acabava tirando probeito dos momentos em que os adversários perdiam o respeito pela Seleção e atacavam sem pensar na defesa. Mas, quando precisou criar jogo, o Brasil de Dunga empatou com Bolívia, Colômbia e Venezuela jogando em casa. Vou repetir: nas Eliminatórias da Copa de 2010 o Brasil empatou em casa com Venezuela, Colômbia e Bolívia, (7ª, 8ª e 9ª colocadas das eliminatórias) jogando em casa.

No comando da seleção, Dunga não teve qualquer filosofia de jogo. Sua única filosofia era “fechar o grupo” e hostilizar todo mundo que contestasse qualquer decisão sua. “Fechar o grupo”, à época, significou que os dois laterais-esquerdos do Brasil foram Gilberto e Michel Bastos – que não era lateral havia mais de um ano. Marcelo não foi à Copa. Significou também que estavam no grupo Nilmar e Grafite, mas não Neymar. Pode-se argumentar que Marcelo e Neymar não eram há quatro anos o que são hoje, mas não é possível argumentar que não eram melhores que Michel Bastos, Gilberto, Nilmar e Grafite. Para além disso, ao fechar o grupo com sua “igrejinha”, Dunga negou a jogadores como Neymar e Marcelo a experiência de jogar uma Copa do Mundo, o que certamente fez diferença quando ambos estrearam em 2014.

O mais importante, porém, o que marcou a Seleção de 2010 foi sem dúvida o desequilíbrio emocional de Felipe Mello no jogo em que o Brasil foi eliminado pela Holanda. Não é só porque Dunga escolheu um jogador desequilibrado para ser o ponto de equilíbrio de seu time. É porque a atitude do comandante com o mundo foi o tempo todo de confrontamento. De distanciamento. De estabelecer uma briga entre imprensa e time, e de tentar jogar a torcida contra a imprensa. Sim, a imprensa esportiva está cheia de picaretas, de piadistas, de caras que não sabem picas e vivem dando palpite. Mas a imprensa é o ponto de contato da Seleção com a torcida. Ainda que não seja o melhor ponto de contato, não há outro disponível. Brigar com a imprensa é necessariamente isolar o time da torcida. Não é à toa que a Seleção de 2010 não conseguiu mobilizar a torcida.

É importante também dizer com todas as letras que é mentira que Dunga “tirou os privilégios da Globo”, até porque ele não teria poderes para isso. Os privilégios da Globo estão, em muitos casos, em contratos, e, em outros, em relacionamentos sobre os quais Dunga não tem influência. Estive na Granja Comary uma vez enquanto Dunga era o técnico, e vi pessoalmente um assessor da entidade dizer a Mauro Naves que ele podia subir aos quartos dos jogadores antes de começar o treino. “Ninguém vai te barrar”, disse o assessor. Naves foi. Todo o resto da imprensa, é claro, não foi.

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Conclusão: mesmo que dê certo, terá dado errado

Sempre pode dar certo, como dissemos acima. Até com um coordenador técnico sem nenhuma experiência e com um técnico com todas as experiências erradas. Porque o futebol tem sempre o imponderável envolvido, porque o craque pode aparecer, a sorte também pode, e times que não eram favoritos podem ser campeões pela ausência de competição – vide o Santos campeão da Libertadores.

É, porém, bastante improvável que dê certo. Mais do que isso, a CBF opta, ao escalar a dupla Gilmar e Dunga, por ignorar todos os sinais vindos de fora. Gilmar não tem experiência nem trânsito no futebol. Dunga pode até se tornar um estudioso do futebol de uma hora para outra, mas tudo o que fez em sua história aponta para a direção oposta.

O principal, porém, é a opção por escolher quem o tempo todo antagonizou todos os que não eram de sua turma. A única coisa que a indicação diz é que Marin e Del Nero estão muito pouco preocupados com o que qualquer um pensa do que eles estão fazendo. Têm como único foco de trabalho obter os votos dos clubes e presidentes de federação, e chegaram à conclusão de que o destino da Seleção tem pouco impacto nisso. Ou simplesmente são suficientemente estúpidos para ignorar todas as evidências em contrário e achar que podem estabelecer uma filosofia de trabalho com quem nunca estabeleceu uma. Que podem modernizar o futebol brasileiro com quem é cria suprema de seu atraso. Que podem vencer se isolando, se fechando em seus gabinetes.

Pelo imponderável, pode dar certo. E se der certo, terá dado errado. Teremos vencido fazendo tudo errado de novo, e daí herdaremos mais uma geração de prepotentes isolacionistas.