Quando um campeonato é polarizado por duas equipes como a Ligue 1 foi por Paris Saint-Germain e Monaco nesta temporada, qualquer oportunidade de título deve ser aproveitada pelos outros times. Rennes e Guingamp entraram em campo neste sábado, no Stade de France, com essa chance, mas apenas o segundo pareceu entender o significado disso. Muito superior, o Guingamp faturou o segundo título de Copa da França de sua história, novamente em cima dos rubro-negros, e mostrou que há glória sem a dependência de recursos financeiros quase infindáveis.

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O Rennes não ficou exatamente retraído em seu campo de defesa, apenas aproveitando contra-ataques. O time lançou-se frequentemente à área do Guingamp, mas não chegou a ameaçar de verdade o adversário. O Guingamp foi superior durante todos os 90 minutos e mereceu a conquista durante todos eles. A equipe estava tão destinada a ficar com a taça que o primeiro gol surgiu justamente no primeiro momento em que não pressionava o Rennes. Ir para o intervalo vencendo é muito importante psicologicamente em uma decisão de campeonato, e o tento de Martins Pereira, aproveitando saída ruim de Benoît Costil do gol, representou exatamente isso.

Parte da superioridade do Guigamp na decisão pode ser explicada pela predominância de seu setor de meio-campo em detrimento dos meio-campistas do Rennes. Nenhuma das duas equipes conta com um grande craque capaz de decidir jogos, então a supremacia no setor de ligação é essencial para colocar alguém à frente. Outro aspecto importante para se destacar da vitória do Guingamp foi a contribuição de Mustapha Yatabaré. O atacante, inicialmente o mais avançado da equipe, além de referência lá na frente, saía bem da área para cair pelos cantos, dando opção aos companheiros, e também recuava para a intermediária para municiar os colegas.

Depois da primeira etapa inócua feita pelo Rennes, era de se esperar que a equipe voltasse mais organizada e incisiva em seus lances de ataque. No entanto, o que se viu foi um Guingamp ainda mais elétrico, ampliando para 2 a 0 já no primeiro minuto com Yatabaré. Até a metade do segundo tempo, o Guingamp seguiu muito melhor que seu oponente e por muito tempo ficou mais próximo do terceiro gol que o Rennes de seu primeiro. Dos 25 minutos em diante, o Rennes passou a ir mais ao ataque que o EAG, mas nada que evidenciasse uma mudança de paradigma na partida. Era apenas algo natural dadas as circunstâncias do jogo. Mesmo neste momento os rubro-negros não mereceram estar à frente.

Martins Pereira fez o gol que inaugurou o placar (AP Photo/Remy de la Mauviniere)

Martins Pereira fez o gol que inaugurou o placar (AP Photo/Remy de la Mauviniere)

Durante todo o confronto, ficou claro quem deveria ficar com a taça. A conquista é a segunda do Guingamp na Copa da França, que levou pela primeira vez em 2009, justamente contra o Rennes. Se ao menos os jogadores rubro-negros tivessem entrado em campo com a mesma energia com que seus torcedores alegremente invadiram o gramado após o apito final da semifinal contra o Angers, a história poderia ter sido diferente.

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A oportunidade de o Guingamp ficar com a Copa da França veio graças à eliminação do PSG antes das oitavas de final – em um momento em que o clube parisiense ainda não caminhava a passos largos no Francesão, sua prioridade – e à vitória heróica sobre o Monaco na semifinal. O jogo, que teve de ser decidido na prorrogação, foi o maior desafio do EAG nesta conquista, mais emblemático até mesmo que a partida que vimos hoje no Stade de France.

Apesar de a competição não ser a mais importante do país, é inusitado ver um time com a força do Guingamp chegar ao título. Paris Saint-Germain e Monaco são, de longe, as maiores potências francesas e deverão monopolizar por algum tempo a briga pela Ligue 1. Então qualquer chance de atualizar a sala de troféus deve ser levada muito a sério pelas equipes mais modestas. Agora, além da festa, o EAG pode contar com uma participação em competição europeia na próxima temporada e, consequentemente, com uma renda maior, o que lhes fará alguma diferença. Afinal, nem todos os franceses estão encontrando petróleo ao perfurar o chão de seu quintal.