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[Esquadrões da Cortina de Ferro] Dynamo Kiev, o orgulho regional que dominou a maior nação do mundo

Ao contrário de muitas das antigas potências do Leste Europeu, o Dynamo Kiev não soa como um item de museu. Voltando um pouco no tempo, os ucranianos dominavam o campeonato nacional e eram figurinhas carimbadas na Liga dos Campeões. Quinze anos atrás, então, tinham até Shevchenko e ficaram entre as quatro melhores equipes da Europa. Mas acredite: isso é pouco perto do que o Dynamo alcançou entre as décadas de 1970 e 1980. Com um dos melhores treinadores da história, o time marcou época com seu estilo de jogo. O símbolo do orgulho ucraniano era o rival a ser batido na União Soviética, um gigante do futebol até então.

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Tamanha era a relevância do Dynamo que ele conquistou duas vezes a Recopa Europeia. E nem ouse compará-la com a atual Liga Europa. Em um tempo em que cada nação só tinha uma vaga na Copa dos Campeões, levantar o segundo caneco mais importante do continente era muita coisa. Mais do que isso, os alviazuis tomaram de assalto o Campeonato Soviético e se tornaram os maiores campeões do país, algo hoje petrificado na história. O clube era tão notável que levou dois jogadores à conquista da Bola de Ouro. E, lógico, formou a base da seleção soviética que, apesar da falta de títulos, impunha respeito. Se o Dynamo Kiev é tão reconhecido atualmente, muito se deve a essa enorme história.

O nascimento do orgulho nacional

O futebol como instrumento na máquina estatal comunista foi concebido logo nos primeiros meses da União Soviética. Muitos dos clubes existentes passaram a ser relacionados com órgãos públicos, na tentativa de aproximar a população e o regime. O primeiro deles foi o Dynamo Moscou, apossado pela polícia secreta. E o processo foi contínuo, tanto na criação de novos times quanto na adoção dos mais antigos por instituições do Estado. O envolvimento do governo e o estímulo ao esporte acabaram contribuindo ainda mais para a popularidade do futebol, tanto quanto o crescimento da população urbana. Os jogos e as equipes serviam para alimentar esperanças e descarregar preocupações de uma gente que atravessou um longo período de conflitos e incertezas após a revolução.

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“O futebol não era apenas um brinquedo de oligarcas inconcebivelmente ricos; desempenha também, para o público, um papel de considerável importância social. Numa sociedade em profunda mudança, o futebol adquiriu, para as pessoas comuns, um significado inigualável em termos de símbolo da nação e até de sonho”, afirma o historiador Jim Riordan, no livro ‘Entrar no jogo: pela Rússia, pelo dinheiro e pelo poder’. E o Dynamo Kiev não fugiu dessa lógica. Em 1927, a Sociedade Esportiva do Proletariado de Kiev teve seu estatuto reconhecido. Ali nascia o clube, sob o nome de Dynamo, em referência ao protetorado da GPU – a polícia secreta soviética. Demorou mais de um ano para que a primeira partida de futebol fosse disputada. E, nesse início, os funcionários da GPU se misturavam em campo com os jogadores do Sovtorgsluzhashchie, o time do sindicato dos varejistas de Kiev.

Em pouco tempo, o Dynamo começou a ganhar notoriedade. O elenco passou a contar com reforços de outros times de Kiev, em uma estratégia pouco honesta: os melhores jogadores recebiam ofertas de empregos na GPU. No entanto, a aversão ao Dynamo não durou muito tempo. As campanhas vitoriosas nos torneios locais o tornaram cada vez mais popular. Torcer pelo clube já não era mais se atestar como submisso à polícia secreta. Era manifestar seu orgulho pela nacionalidade ucraniana na multiplicidade étnica da União Soviética. Afinal, naquele time estava a grande chance de desbancar o poderio de Moscou. “‘Em um país comunista, o clube que você torce era uma comunidade a qual você mesmo decidiu pertencer. O regime não escolheu que você o apoiasse. Poderia ser sua única chance de escolher uma comunidade e, também, nessa comunidade você tinha a oportunidade de expressar o que desejava. Para um torcedor, era se reunir com outras pessoas e ser livre”, pontua o antropólogo Levon Abramian.

Fomentado pelos líderes da República Socialista Soviética da Ucrânia, o Dynamo era o único representante local na primeira edição do Campeonato Soviético, em 1936. Até o início da Segunda Guerra Mundial, a liga esteve limitada a times de Moscou, Leningrado (São Petersburgo), Tbilisi e Stalino (Donetsk) – esta em território ucraniano, mas em região de forte influência russa. Embora fosse a grande força de sua república, o Dynamo não conseguia competir em pé de igualdade com os times da capital. Vice-campeões no ano de estreia, os alviazuis frequentaram majoritariamente o meio da tabela até 1941, ano em que a competição foi interrompida pela guerra.

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O Dynamo entraria em campo no dia 22 de junho de 1941. O confronto com o CDKA Moscou era especial, já que marcava também a inauguração do Estádio Olímpico, construído pelo governo para abrigar 70 mil torcedores. Mas a partida nunca aconteceu. Naquele mesmo dia, os alemães invadiam o território soviético e Kiev era bombardeada pela Luftwaffe, a força aérea nazista. Em três meses, a cidade estava totalmente ocupada pelos arautos de Hitler. E o clube sofreu muito com a Segunda Guerra. Ao lado de três jogadores do Lokomotiv Kiev, o Dynamo formou o FC Start. A equipe venceu vários amistosos, até ser desafiada pelo Flakelf, formado por jogadores da elite da Luftwaffe. No primeiro encontro, vitória por 5 a 1 dos ucranianos. Já a revanche, eternizada como o ‘Jogo da Morte’, também contou com triunfo dos locais por 5 a 3. Dias depois, vários jogadores do FC Start foram presos, torturados e enviados para campos de trabalho forçado pela Gestapo – segundo alguns historiadores, por causa das vitórias.

A formação da potência soviética

Os anos seguintes ao fim do conflito foram de reconstrução. Sem parte do elenco, o Dynamo enfrentou várias instabilidades no comando técnico. Dez treinadores passaram pela equipe a partir de 1945, enquanto a melhor campanha no Campeonato Soviético foi um quarto lugar. A situação só começou a melhorar em 1951, quando Oleg Oshenkov chegou ao clube. O técnico passou a apostar nos jovens e desenvolveu um esquema de preparação física, colhendo os frutos. Três anos depois, os alviazuis levantavam a sua primeira taça, a Copa da URSS. Em uma evolução gradual, Viktor Fomin se tornou o primeiro jogador do Dynamo a ser convocado, enquanto Yuri Voynov foi o representante do clube na Copa de 1958 e no título da Euro 1960, em uma época na qual a seleção era dominada por russos.

A partir da década de 1960, o Dynamo Kiev passou a frequentar o topo do Campeonato Soviético. Um time bastante jovem, que renderia por um bom tempo. Entre os destaques do elenco, estava o atacante Valeriy Lobanovskyi. Sob as ordens de Victor Maslov a partir de 1964, o domínio da liga se tornou real na segunda metade da década. Uma época que coincidiu com o declínio do Dynamo Moscou de Lev Yashin e do Torpedo Moscou, é verdade. Mas que só foi possível pela revolução tática implementada com o treinador. Maslov dispensou os jogadores que não se adaptavam ao estilo de jogo de seu time, baseado na pressão total e no fôlego durante os 90 minutos. Foi um dos pioneiros no uso do 4-4-2, que fazia o time atacar e defender em massa e dava volume ao meio-campo.

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Em sete temporadas com o técnico, foram dois títulos da copa e o tricampeonato soviético em 1966-1967-1968. Além disso, o Dynamo também foi o primeiro clube do país a entrar em competições europeias, estreando na Recopa de 1965 – havia um temor que os moscovitas dessem vexame na Europa Ocidental, impedidos de participar pelo governo, e, por isso mesmo, os ucranianos serviram como espécie de cobaias. Caíram apenas nas quartas de final, para o Celtic, vencedor da Champions no ano seguinte. Cinco jogadores do time ainda estiveram na campanha até as semifinais da Copa de 1966 com a URSS.

Também naquela época, se acirrou a rivalidade com o Spartak Moscou, contra o qual o Dynamo fazia o grande dérbi da União Soviética. As diferenças entre as equipes se davam mais por questões regionais do que propriamente ideológicas. O Spartak tinha bases fortes no proletariado, assim como os alviazuis, e foi justamente pelo vínculo mínimo com o regime comunista que se tornou tão popular – suas arquibancadas eram uma espécie de área de escape contra a opressão, especialmente durante o stalinismo. Entretanto, quando estavam frente a frente, era o time mais forte russo contra o mais forte ucraniano. E a ascensão do Dynamo contrastou com a perda da soberania do Spartak, então o maior campeão da liga.

O maior ídolo e o maior técnico chegam ao Dynamo

Victor Maslov permaneceu no comando do Dynamo até 1970, quando foi demitido em uma decisão bastante contestada por jogadores e torcedores. Mas o suficiente para deixar como herança, além do estilo de jogo, um ícone dos alviazuis: Oleg Blokhin. Nascido em Kiev, o prodígio era filho do chefe da PST (a sociedade esportiva da cidade) e de Catherine Adamenko, campeã nacional de pentatlo, salto em distância e corrida com obstáculos. E parece ter sido gerado para ser atleta. Baixo e encorpado, o ucraniano era conhecido como ‘a flecha’. Quando tinha 16 anos, o garoto chegou a participar de competições de atletismo, correndo os 100 metros em apenas 11 segundos. Naquele mesmo ano, já considerado uma das maiores promessas da Europa, fez sua estreia no time principal com Maslov.

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Blokhin teve que esperar um pouco mais para conquistar seu espaço definitivo. Participou de apenas um jogo na campanha do título soviético de 1971, quando o goleiro Yevgeniy Rudakov e o meio-campista Viktor Kolotov foram fundamentais para a conquista. O garoto só passou a ser titular absoluto na temporada seguinte, com 19 anos. E logo foi o artilheiro da liga, com 14 gols em 27 partidas, ajudando os ucranianos a ficarem com o segundo lugar. Apenas o primeiro prêmio individual de uma série acumulada na sequência. Sobretudo, a Flecha liderava uma geração que tomaria o lugar dos veteranos do tricampeonato, que deixaram o clube nos anos anteriores.

A peça final para transformar o Dynamo Kiev em um esquadrão veio para o comando técnico. Valeri Lobanovskyi e Oleg Bazylevych, dois jogadores rechaçados por Maslov, voltavam para o clube. Ambos muito jovens, tinham acabado de pendurar as chuteiras. Porém, não dava para dizer que a falta de experiência atrapalhou. Lobanovskyi era um grande estudioso e revolucionou a preparação física. Pensava o futebol como uma ciência, na qual as vitórias aconteceriam através das fórmulas exatas e do uso da tecnologia. Os movimentos eram treinados à exaustão, para que tudo funcionasse perfeitamente nas partidas. Além disso, o comandante exigia o máximo de seus atletas. Os atacantes ideais eram aqueles que jogavam também como zagueiros, e vice-versa. Já Bazylevych, companheiro do técnico em três clubes, era o assistente responsável pela parte tática, formando uma equipe com mentalidade mais defensiva, ainda que mantivesse as bases de Maslov.

O Dynamo conquista a Europa pela primeira vez

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Sob as ordens de Lobanovskyi, o Dynamo Kiev bateu na trave logo em sua primeira temporada, vice-campeão da liga e da copa, além de quadrifinalista da Copa da Uefa. Já no segundo ano, os ucranianos fizeram a dobradinha na União Soviética. Dono de uma defesa fortíssima (liderada por Volodymyr Troshkin e Mykhaylo Fomenko) e com Blokhin resolvendo no ataque, o time bateu o Spartak Moscou por um ponto e recuperou o título nacional após quatro anos. Já na decisão da copa, a confiança era tamanha que a equipe entrou em campo com uma camisa escrita que já eram campeões. Triunfo consumado com os 3 a 0 sobre o Zorya Voroshilovgrad. E o Dynamo se sagrou bicampeão soviético em 1975, abrindo cinco pontos de vantagem para o Shakhtar Donetsk, em nova campanha estrelada por Blokhin.

O maior feito daquele ano, no entanto, foi reservado para as competições continentais. Por causa do calendário solar, os campeões de 1973 disputavam as taças europeias de 1974/75. E, vice-campeão da Copa Soviética, o Dynamo herdou a vaga na Recopa do Ararat Yerevan. Fase a fase, os ucranianos foram prevalecendo. Bateram CSKA Sofia, Eintracht Frankfurt, Bursaspor e PSV na caminhada até a final. Já na decisão, um atropelamento no St. Jakob Park. O Dynamo anotou 3 a 0 sobre o Ferencváros, da Hungria. Vladimir Onishchenko marcou dois gols e Blokhin fechou a conta. Kolotov levantou a taça, mas não pararia por aí. Na Supercopa da Europa, os alviazuis também derrotaram o poderoso Bayern de Munique, com Beckenbauer, Gerd Müller, Rummenigge e Maier do outro lado. Triunfo por 1 a 0, garantido outra vez por Blokhin. A prova de que a combinação entre força física e entrosamento proposta por Lobanovskyi deu certo.

As atuações de Blokhin foram tão contundentes naquele ano que o atacante levou o prêmio de melhor jogador soviético pela terceiro vez seguida. E também ficou com a Bola de Ouro, apontado como o craque do continente. A Flecha recebeu 122 votos – quase o triplo do segundo colocado, Franz Beckenbauer, e mais que o quádruplo do terceiro, Johan Cruyff. Nada mal contra os dois craques da Copa do Mundo de 1974. E um lamento a mais para a seleção soviética, que ficou de fora daquele Mundial por conta de um conflito político, se recusando a enfrentar o Chile nas Eliminatórias após o golpe que levou Augusto Pinochet ao poder. Dificilmente a URSS chegasse em pé de igualdade com Alemanha e Holanda, mas o craque do país comunista não deixava a desejar em nada.

A entressafra europeia, domínio nacional

Em 1976, o Campeonato Soviético foi dividido em duas partes. E talvez a ressaca das glórias do ano anterior tenha atrapalhado o Dynamo Kiev na primeira metade, quando ficou apenas na oitava colocação. Em compensação, os ucranianos iniciaram sua série mais consistente na história da liga. O clube ficou entre os três primeiros colocados em sete temporadas consecutivas, sendo três títulos e três vices. A taça de 1977 foi a despedida de alguns jogadores emblemáticos: Volodymyr Muntyan, Volodymyr Troshkin e Víctor Matvienko. Também foi a última vez que Blokhin foi o artilheiro do certame, com 17 gols. As perdas urgiam uma renovação no elenco de Lobanovskyi. Novos jogadores chegaram, alguns notáveis como Volodymyr Bezsonov, Sergei Baltacha, Anatoliy Demyanenko e Andriy Bal. Até Blokhin passou por uma transformação, deslocado do ataque para a armação do time. O título foi recuperado com o bicampeonato em 1980 e 1981, deixando para trás o rival Spartak Moscou.

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Mantendo-se por tanto tempo no topo, o Dynamo virou figurinha carimbada nas competições continentais. Depois do título da Recopa, foram nove classificações consecutivas – cinco para a Copa dos Campeões e quatro para a Copa da Uefa. Contudo, sem repetir o feito de 1975. As melhores campanhas foram justamente na Champions, sempre sucumbindo contra adversários de respeito. Os ucranianos pararam nas oitavas em 1978/79, para o finalista Malmö; nas quartas em 1975/76, 1981/82 e 1982/83, contra o vice Saint-Étienne e os campeões Aston Villa e Hamburgo; e nas semifinais de 1976/77, para o timaço do Borussia Mönchengladbach. Nesta última temporada, o clube de Kiev chegou a deixar para trás o campeão Bayern de Munique, mas acabou eliminado por um gol sofrido aos 37 do segundo tempo do jogo de volta contra o Gladbach, diante do lotado Rheinstadion.

A primeira passagem de Lobanovskyi pelo clube se encerrou em 1982. O técnico foi convidado para treinar a seleção soviética logo após a Copa do Mundo. Os vermelhos chegaram à Espanha bem cotados, com oito jogadores do Dynamo. Pararam na segunda fase, superados na liderança do Grupo A pela Polônia no saldo de gols. E os anos sem o comandante não foram nada fáceis para os alviazuis. O clube foi apenas o sétimo colocado no Soviético de 1983. Como alento para a torcida, apenas a chegada de um dos craques que marcariam época: Oleksandr Zavarov. O meio-campista foi lançado no Zorya Voroshilovgrad por Jozsef Szabó, antigo ídolo do Dynamo. E não demorou a se destacar, vice no Mundial Sub-20 em 1979. Após rodar no interior por mais um tempo, se transferiu a Kiev em 1983.

A volta do mito e o bi na Recopa

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Lobanovskyi durou na seleção até 1983. O técnico estava invicto com a União Soviética, mas a primeira derrota, para Portugal dentro do Estádio da Luz, acabou custando a queda dos vermelhos nas Eliminatórias da Euro 1984 e o bilhete azul ao comandante. Foram somente algumas semanas até que Lobanovskyi reassumisse o Dynamo. E mesmo com o grande líder, os ucranianos foram apenas os décimos na liga de 1984, a pior colocação desde 1950, além de caírem nas oitavas da copa e serem eliminados pelo Laval logo na primeira fase da Copa da Uefa.

A tempestade não foi totalmente ruim para o Dynamo. Afinal, o clube se mexeu para o ano seguinte e trouxe Igor Belanov. O meia era o craque do Chornomorets Odessa, mas foi em Kiev que atingiu um novo patamar. Afinal, seu estilo de jogo se encaixava perfeitamente aos ideais de Lobanovskyi. Dono de um físico potente, poderia ser uma nova versão do que Blokhin foi uma década antes, embora pensando mais o jogo do que finalizando. E os resultados foram obtidos logo em seu primeiro ano. O Dynamo outra vez conseguiu a dobradinha na URSS, desta vez com um gosto mais saboroso, deixando para trás o Spartak Moscou na liga e batendo o Shakhtar Donetsk na final da copa.

Eram os primeiros passos para a reconquista da Europa. Onze anos depois do título, o Dynamo voltava a disputar a Recopa. E não decepcionou. Utrecht, Universitatea Craiova, Rapid Viena e Dukla Praga foram as vítimas até a final. Já no Estádio Gerland, os alviazuis mostraram outra vez sua força na decisão ao engolir o Atlético de Madrid de Luis Aragonés. Zavarov abriu o placar logo aos cinco minutos, enquanto Yevtushenko e Blokhin – voltando a balançar as redes em uma final aos 34 anos – fecharam o placar em 3 a 0 contra os colchoneros. Desta vez, quem teve a honra de levantar a taça foi Demyanenko. Só o bicampeonato da Supercopa é que não foi repetido, com a derrota para o Steaua Bucareste por 1 a 0, gol de Gheorghe Hagi.

Pouco depois, o elenco do Dynamo Kiev viajou em massa para o México.  Lobanovskyi voltou ao comando da seleção naquele mesmo ano e levou 12 jogadores de seu clube para a Copa do Mundo. A estratégia deu certo de início. Com uma equipe que mantinha o vigor físico e o entrosamento dos campeões nacionais, a URSS sobrou na primeira fase, derrotando Hungria e Canadá, além de empatar com a magnífica França de Platini. Os soviéticos só caíram nas oitavas de final, em um épico contra a Bélgica que é considerado um dos melhores jogos da história dos Mundiais. Empate por 2 a 2 no tempo normal, completado pela vitória por 4 a 3 dos belgas na prorrogação, com um gol a dez minutos do fim. De qualquer forma, o ano não terminou tão frustrante para o Dynamo. O clube faturou o bicampeonato da liga, em uma disputa parelha com Dinamo Moscou e Spartak Moscou. E Igor Belanov levou a Bola de Ouro pela segunda vez a Kiev. Artilheiro da Recopa e autor de quatro gols na Copa do Mundo (incluindo os três contra a Bélgica), o meia ficou à frente de Lineker, Butragueño, Elkjaer e Amoros, todos destaques no México. Já Zavarov foi o sexto.

O fim do império soviético

Os últimos cinco anos do Campeonato Soviético não foram tão pródigos assim ao Dynamo Kiev. Lobanovskyi continuou conciliando o trabalho no clube e na seleção até 1990. Mantendo sua base ucraniana, a URSS foi derrotada pela Holanda na final da Euro 1988, mas caiu logo na primeira fase do Mundial da Itália. Estrelado pelo artilheiro Oleg Protasov, o clube ganhou duas Copas Soviéticas, além de conquistar a liga pela última vez em 1990 – seu 13º título, um a mais que os arqui-inimigos do Spartak na história do torneio. Antes daquela campanha, o time perdera seus principais destaques para o exterior: Zavarov foi para a Juventus, Belanov se transferiu para o Gladbach e Rats acabou no Espanyol. Já Blokhin, em fim de carreira e rendendo pouco, optou por mudar-se para o Vorwärts Steyr, da Áustria, já como líder em jogos e gols na história do clube.

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Com aquele esquadrão, o último feito notável do Dynamo aconteceu na Copa dos Campeões de 1986/87. Os soviéticos pintaram como favoritos na competição e, rodada a rodada, justificaram a condição. Deixaram para trás Beroe, Celtic e Besiktas, até pararem na semifinal para o Porto. O time de Lobanovskyi não resistiu os portistas, perdendo no Estádio das Antas por 2 a 1. E, na volta a Kiev, mesmo com 100 mil pessoas lotando o Estádio Olímpico, a frustração foi ainda maior com outra derrota, com dois gols dos visitantes em apenas 11 minutos de partida. O sonho daquele timaço em levar a Champions acabava ali.

Sem o grande técnico e nem os principais craques, um desfigurado Dynamo Kiev encerrou sua participação no Campeonato Soviético com a quinta colocação em 1991. A partir de então, os alviazuis precisariam lidar com o fim do apoio da polícia secreta, assim como do governo comunista da Ucrânia, nação que se tornava independente e democrática com o desmanche da União Soviética. Nada que um clube com tanta história e uma torcida fanática – cerca de 40% da população ucraniana, que chegou a render média de 58 mil pessoas por jogo em 1987 – não pudesse superar. Se já não era mais um esquadrão, o Dynamo nunca deixou de ser respeitado.

O que aconteceu depois?

O Dynamo Kiev enfrentou sérios problemas econômicos nos dois primeiros anos após o fim da União Soviética e solucionou o problema cortando na própria carne, ao desmanchar o elenco e abrir seu capital. Foi quando voltou a se estabilizar, dominando o Campeonato Ucraniano em seus primeiros anos: foram nove títulos consecutivos nas dez primeiras edições. Lobanovskyi ainda voltaria para uma terceira passagem, entre 1996 e 2000, proporcionando outro grande momento internacional à equipe. Estrelados por Shevchenko e Rebrov, os alviazuis pararam nas semifinais da Liga dos Campeões. Depois de eliminarem Arsenal e Real Madrid, acabaram derrotados pelo Bayern de Munique. Entretanto, o crescimento do Shakhtar Donetsk bancado por Rinat Akhmetov, em melhores condições financeiras, aos poucos foi roubando a hegemonia do Dynamo. O clube já está há cinco anos sem taças, no maior jejum desde a década de 1950.