Ninguém no Estádio King Power pode reclamar dos seus serviços prestados por Riyad Mahrez. O meia está na história do Leicester por tudo o que proporcionou ao clube desde 2013/14. Ajudou no acesso, fez gols importantes para a permanência na Premier League e arrebentou na epopeia vivida rumo ao título de 2015/16. Caiu um bocado na temporada passada, é verdade, mas deu sua contribuição vital na campanha igualmente histórica na Liga dos Campeões. E recuperou o seu melhor futebol nos últimos meses, imprescindível no renascimento sob as ordens de Claude Puel. Logicamente, a gratidão é uma via de mão dupla e o argelino também precisa ter consciência de que só chegou no atual patamar graças ao ambiente que encontrou nas Raposas. Mas isso não o impede de ambicionar mais. E, diante da sua vontade, a diretoria do clube se tornou um tormento ao camisa 26.

Desde o último ano, Mahrez indicou sua intenção de sair do Leicester. Arrebentou na campanha vitoriosa e ajudou os sonhos se manterem na Champions, mas era hora de pensar um pouco em si. Buscava um clube de pretensões maiores e, em contrapartida, não ia deixar as Raposas de mão abanando, com os milhões que poderia injetar na conta bancária. A princípio, era uma relação bastante franca: o meia fazia sua parte em campo e o clube esperava uma oferta que o apetecesse. Até existiram rusgas em 31 de agosto, quando o argelino abandonou a concentração de sua seleção às vésperas de um jogo decisivo pelas Eliminatórias e caçou um negócio de última hora, esperando no aeroporto de Paris tal qual Tom Hanks no filme ‘O Terminal’. A oportunidade não apareceu e, sem que nenhum clube cobrisse a pedida dos azuis, ele permaneceu no King Power. Feridas cicatrizadas ao longo do último semestre, com grandes atuações do craque, recuperando o seu melhor na Premier League.

Então, neste janeiro, surgiu a miragem no mercado que Mahrez tanto aguardava. E, ao que tudo indicava, para ser novamente campeão da Premier League. O Manchester City, que já tinha namorado com o argelino em outros momentos, pediu a sua mão em casamento. Diante da lesão de Leroy Sané, que ficará fora de combate pelos próximos dois meses, os Citizens partiram com tudo para comprar o meia. Foram, em partes, até excessivamente exagerados pela compulsão. O problema é que o Leicester subiu sua pedida. Os cerca de £40 milhões requeridos ao Arsenal em agosto, e que Arsène Wenger se recusou a pagar, já não eram mais satisfatórios.

Segundo o jornal Leicester Mercury, o Manchester City foi persistente neste 31 de janeiro. A princípio, os celestes colocaram na mesa quatro propostas diferentes por Mahrez, com o ápice na casa dos £65 milhões – sendo £50 milhões em dinheiro e mais um atleta avaliado em £15 milhões. Suficiente para os tailandeses que dirigem o Leicester? Não desta vez. Dentro do mercado inflacionado da Premier League, os mandatários queriam mais. Passaram a tratar Virgil van Dijk e Philippe Coutinho como parâmetros, assim como o zagueiro Aymeric Laporte. Então, deram um ultimato nos representantes de Pep Guardiola, exigindo £80 milhões. Um valor que assustou até mesmo um clube tão endinheirado, que desistiu do negócio e preferiu contar com os jovens que têm à disposição.

Nas últimas horas, então, Mahrez não se furtou a esconder sua insatisfação. Seguindo o exemplo de Danny Drinkwater, que forçou a barra para seguir ao Chelsea, passou a agir de maneira agressiva e sequer apareceu no treino às vésperas do confronto importante contra o Everton. Não deu muito certo para amolecer o coração dos dirigentes. Já depois do naufrágio, um ‘amigo próximo’ do argelino divulgou um comunicado à Sky Sports, falando sobre os sentimentos do meia e questionando a postura do Leicester.

“Riyad está muito deprimido nesta noite, diante dos eventos dos últimos dois dias. Ele não entende por que o Leicester agiu desta maneira. É a quarta janela de transferências que o clube diz que permite sua saída. Ele se sente muito forte e fez tudo a seu alcance pelo clube. O Leicester deixou N’Golo Kanté e Danny Drinkwater saírem e poderiam bater seu recorde aceitando a proposta do Manchester City. Poderiam ter um lucro de £60 milhões com um jogador que compraram do Le Havre por £350 mil. Jogar pelo Manchester City seria um sonho, mas isso parece distante agora. Ele foi avisado por alguns ex-companheiros que, para sair do Leicester, é preciso iniciar uma guerra, o que ele evitou. Está muito cabisbaixo pela forma como o clube, que ele defendeu tão bem, o tratou”, declarou.

A novela, obviamente, está distante de acabar. Mahrez ainda tem dois anos e meio de contrato com o Leicester, o que tende a reduzir o seu valor caso ele não assine uma renovação. Pior do que isso, os rumores na imprensa local dão conta que o meia não deseja mais entrar em campo pelas Raposas. Ao que parece, ou o Leicester leva uma bolada estratosférica ou o mantém rendendo dentro de campo. Resta saber como o camisa 26 agirá diante de tudo isso. Se entrar na queda de braço, perde moral e talvez não saia para um time de primeira linha. Pior, corre o risco de deixar escapar o ritmo no ápice da carreira. Enquanto isso, não parece tão disposto a se submeter aos interesses daqueles que não fizeram a sua vontade.

Há alguns questionamentos a se fazer sobre Mahrez. Em certos momentos, sobretudo nos dois últimos fechamentos de janela, o argelino agiu como um garoto mimado. No entanto, na maior parte do tempo, manteve o seu rendimento e o seu profissionalismo. Não é exatamente uma “laranja podre” no elenco e, ao perceber que seu sonho depende diretamente das suas atuações, continuou se esforçando. Que nem sempre tenha desequilibrado, permaneceu como um dos mais importantes do time, ao lado de Jamie Vardy e Kasper Schmeichel. O rendimento nesta temporada, com oito gols e oito assistências, é uma prova. Em uma era na qual o dinheiro ganha tanto apelo, é difícil pedir a um jogador para amar apenas uma camisa. Mas não dá para dizer que o meia não honrou sua estadia no King Power. As Raposas elevaram seu patamar muito graças ao seu empenho individual, potencializando o coletivo de Claudio Ranieri e se tornando um dos melhores do campeonato.

O impulso se concentra especialmente ao pensarmos nas perspectivas da carreira de Mahrez. Às vésperas de completar 27 anos, ele possui o seu nome consolidado na história da Premier League. Ficando até o fim da carreira no Leicester ou não, será um jogador histórico para o clube, mesmo que pudesse subir no panteão se decidisse fincar raízes no King Power. Seu desejo, todavia, é de se provar em outro canto. Ao contrário de Vardy, que passou dos 31, ele pode buscar outro clube de expressão e mostrar que não foi apenas uma casualidade – como fez o próprio Kanté, ainda mais reverenciado após o bicampeonato nacional com o Chelsea. E, apesar de alguns avaliarem como uma “traição”, o volante não deixou de ser vital por aquilo que conseguiu em 2015/16.

O técnico Claude Puel falou sobre o episódio nesta quinta em um tom conciliatório. Disse que espera o retorno de Mahrez “com um sorriso no rosto, vontade e feliz por jogar com seus companheiros”. Os próprios companheiros, no entanto, precisarão ignorar a postura individualista e intempestiva do argelino nestes últimos dias. Além disso, também será interessante ver a postura da torcida, que evitou críticas em agosto, mas começa a sinalizar que a paciência se esgotou. A idolatria incólume por Mahrez depende bastante de seu comprometimento por ao menos mais um semestre, o que parece difícil. Uma pena que sua história acabe manchada com um rótulo de “mercenário”, quando também é possível entender sua vontade como ambição esportiva, só atrapalhada pela ganância exagerada daqueles que têm o poder de definir o seu futuro.