A confiança durou menos de oito meses. Jayme de Almeida era a aposta do Flamengo que se mostrou certeira por um bom tempo. Alguém que conhecia a Gávea para botar ordem na casa, depois do fim repentino do “projeto” de Mano Menezes. Entender os jogadores e fazer o time render ao máximo nos momentos decisivos. Evitou o rebaixamento e conquistou a Copa do Brasil, bem melhor que a encomenda naqueles três primeiros meses. Como muitos dos técnicos interinos que acabaram se fixando no banco rubro-negro, teve seu sucesso. Como a maioria deles, foi queimado rapidamente.

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A decisão de demitir Jayme de Almeida é discutível. O efeito motivacional já tinha passado e o elenco limitado começou a se fazer o que se esperava dele: conquistar resultados limitados. Foi campeão carioca, mas também eliminado de maneira patética da Libertadores e começou muito mal o Brasileirão. O treinador parecia apegado demais a algumas de suas verdades, com dificuldades para mudar o jeito do time jogar. Dá para entender a troca, embora o mercado não parecesse oferecer técnicos tão superiores a ele. O que não se discute é a forma lamentável como a diretoria agiu.

Jayme sequer foi avisado pelos dirigentes do Flamengo. Ficou sabendo da demissão pela imprensa, em seu dia de folga. E, sem ter ouvido nada de oficial, ainda se considerava o comandante rubro-negro. Muito mais do que um tiro no próprio pé da diretoria, foi também um tiro pelas costas de seu treinador. Faltou hombridade com um profissional que salvou a pele dos próprios dirigentes, ao fazer os fracassados planos com Mano Menezes serem esquecidos rapidamente. Se o planejamento financeiro tem sido feito de maneira mais consciente, mérito da gestão atual, a forma como o futebol é conduzido tem deixado a desejar.

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Neste ponto, o descaso com um técnico de enorme história no clube se assemelha muito aos desmandos de cartolas anteriores. Ao ignorar Jayme, o Flamengo jogou fora a chance de demonstrar um mínimo de consideração por seus serviços prestados – e não só nesses oito meses como treinador. Apesar dos rumores de que os rubro-negros ainda ofereceriam um cargo ao ex-comandante na comissão técnica, mas ele já indicou que não aceitará. Questão de respeito, algo que não tiveram com ele.

Jayme de Almeida sai pela porta dos fundos da Gávea. Não deveria. A exaltação, no Flamengo, que eleva o técnico à condição de gênio em questão de jogos tem a mesma intensidade da pressão que o derruba. Faltou ao clube saber manejar essa realidade. Boa parte da torcida estava descontente com Jayme e até concorda com a sua demissão. Mas também tem consciência da enorme ingratidão que a forma como ela foi feita representa.

Os precursores de Jayme

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Carpegiani, Carlinhos e Andrade, assim como Jayme de Almeida, foram soluções caseiras que levaram o Flamengo a títulos importantes. Como foram demitidos em suas principais passagens pela Gávea? Confira:

Paulo César Carpegiani (1981-83)

Chegou em agosto de 1981, assinando contrato por apenas quatro meses. Dino Sani, seu antecessor, tinha sido demitido por “incompatibilidade” entre ele e o elenco. Carpegiani vinha não somente por conhecer o ambiente, como também para resgatar o pragmatismo de Cláudio Coutinho. Conquistou a Libertadores e o Mundial Interclubes em 1981, o que lhe garantiu sobrevida, assim como o Brasileiro de 1982. Foi demitido em março de 1983, tanto pelo relacionamento ruim com alguns dos veteranos do elenco (Raul, Júnior, Tita e Nunes) quanto pelos resultados medianos no Brasileiro. Na época, porém, a decisão do presidente Antônio Augusto Dunshee de Abranches foi considerada unilateral.

Carlinhos (1987-88)

Foram muitas as passagens de Carlinhos como interino do Flamengo. Nenhuma mais notável do que a partir de agosto de 1987. O então técnico dos juniores assumiu o lugar de Antônio Lopes, de campanha apenas razoável no Brasileiro. Chegou agradando por barrar Nunes, promovendo à equipe os novatos Zinho e Leonardo. Venceu o clássico contra o Vasco logo na estreia e se manteve, faturando a Copa União na sequência. Foi demitido em julho de 1988, depois do fatídico gol de Cocada na final do Campeonato Carioca, assim como por problemas com o veterano Leandro, que o fez perder o elenco.

Andrade (2009-10)

Membro da comissão técnica, Andrade já acumulava curtas passagens como interino do Flamengo quando teve sua maior oportunidade em julho de 2009, após a demissão de Cuca – que vinha tendo problemas com o elenco e patinava no Brasileirão. O ex-auxiliar tinha sido promovendo apenas enquanto a diretoria negociava com um substituto (o nome cogitado era o de Vágner Mancini), mas foi ficando à medida que as negociações fracassavam e os resultados apareciam. Levou o time do 11º lugar na tabela ao título nacional, mas não durou mais do que nove meses. Em abril do ano seguinte já foi demitido, mesmo com 70% de aproveitamento, ao perder o Campeonato Carioca para o Botafogo e ter dificuldades na Libertadores. Depois, acusou a diretoria de tê-lo mandado embora por motivos político.