Abril de 2014. Durante a semifinal contra o Real Madrid, Pep Guardiola, então técnico do Bayern de Munique, elogiou a superioridade física do adversário: “Eles são o melhor contra-ataque do mundo. Eles têm pernas, são atletas. São jogadores de futebol, mas, principalmente, atletas”. Os bávaros foram eliminados pelos espanhóis.

LEIA MAIS: Na hora do aperto, foi a tão criticada defesa quem segurou a barra e classificou o Liverpool

Abril de 2015. O Bayern havia sido derrotado pelo Porto, por 3 a 1, no jogo de ida das quartas de final e membros importantes da equipe médica, inclusive o lendário doutor Hans-Wilhelm Müller-Wohlfahrt, pediram demissão diante de uma epidemia de lesões. Karl-Heinz Rummenigge, presidente do clube, disse: “Há 13 ou 14 jogadores saudáveis no momento, jogando três vezes por semana. Mas chega uma hora em que eles ficam um pouco cansados, quando suas pernas ficam pesadas e você perde a concentração”. O Bayern reagiu vencendo por 6 a 1 o jogo de volta, mas foi eliminado na fase seguinte pelo Barcelona.

Março de 2016. O Bayern de Munique havia disputado a prorrogação para eliminar a Juventus, nas oitavas de final da Champions League, e precisava mudar a chavinha para selar o título da Bundesliga. Guardiola disse: “Meus jogadores estavam muito cansados. Mas não acho que teremos grandes problemas. Suas pernas estarão melhores do que estariam se perdêssemos para a Juventus”. Os bávaros passaram pelo Benfica, nas quartas de final, e perderam para o Atlético de Madrid na fase seguinte.

Abril de 2018. Entre duelos contra o Liverpool pelas quartas da Champions, Guardiola pede o apoio da torcida para enfrentar o dérbi contra o Manchester United, que poderia selar o título da Premier League: “Precisamos da torcida porque estamos tão cansados e o United descansou durante a semana. Tivemos apenas uma pequena recuperação física e mental porque nosso jogo em Anfield foi muito difícil”. O City abriu o placar contra os Reds, pressionou demais no primeiro tempo, perdeu o fôlego no segundo, levou a virada e foi eliminado.

Pode ser coincidência que a forma física do time de Guardiola tenha sido assunto nas proximidades de quatro das suas últimas cinco eliminações na Champions League, com exceção da queda para o Monaco, em seu primeiro ano na Inglaterra, ainda com um time em formação e nas oitavas de final, que chega mais cedo no calendário. Ou pode ser o sintoma de uma doença que assola as equipes do espanhol sempre no mesmo momento da temporada, entre março e abril, quando chegam as fases agudas da competição europeia.

Isso ficou claro contra o Liverpool. O Manchester City foi avassalador no primeiro tempo, sem deixar o adversário respirar. Abriu o placar, acertou a trave e teve um gol mal anulado. Mas visivelmente perdeu o fôlego depois do intervalo e diminuiu a pressão. Permitiu que os adversários melhorassem e, depois do gol de Salah, que o obrigava a marcar quatro para se classificar, morreu na partida, física e mentalmente.

Junto com a virada sofrida para o Manchester United, no último sábado, fica a impressão de que o Manchester City fenomenal desta temporada atingiu o seu auge meses atrás e, desde então, decai. Não é novidade. Algo parecido aconteceu na Alemanha, quando os problemas físicos foram mais escancarados, com sequências intermináveis de lesões de jogadores importantes. Mas, desta vez, os desfalques não podem ser usados como desculpas.

Guardiola não pode contar com Mendy, afastado desde o início da temporada. John Stones e Danilo não treinaram durante a semana e ficaram fora do banco de reservas. Agüero retornou de lesão no joelho contra o Manchester United, com 15 minutos saindo do banco, e, ainda precisando recuperar o seu ritmo, foi reserva novamente no Etihad Stadium. São problemas, claro, mas nada numerosos e o outro lado também tinha seus desfalques. Salah não enfrentou o Everton no fim de semana e era dúvida. Não estava 100% fisicamente. Matip e Emre Can não atuam mais nesta temporada. Lallana estava machucado, e Henderson, suspenso. Chamberlain, Milner e Wijnaldum eram os únicos meias à disposição de Jürgen Klopp.

Duas hipóteses podem explicar esse padrão nas temporadas recentes dos times de Guardiola. Uma delas é a monumental exigência física e, principalmente, mental que o seu estilo de jogo impõe aos jogadores. A concentração para executar o modelo de jogo do espanhol precisa ser sempre muito alta e eventualmente isso cobra um preço. Não é falta de empenho ou de profissionalismo, mas uma dificuldade natural de estar 100% ao longo de 90 minutos duas vezes por semana, já com mais de 40 partidas nas costas.

A outra é o elenco curto com o qual Guardiola deliberadamente gosta de trabalhar. O do Manchester City tem apenas 23 jogadores, sendo que três deles – Brahim Díaz, Phil Foden e Oleksander Zinchenko – são jovens ainda em formação. Isso tem o seu lado positivo. Deixa todos os jogadores satisfeitos, com papéis importantes para cumprir, até mesmo os considerados reservas, e em ritmo constante de competição. No entanto, também o impede de realizar rodízios mais profundos. Com uma larga vantagem no topo da Premier League, Guardiola poderia muito bem já ter começado a poupar os jogadores mais desgastados. Mas, com tão poucas opções, por escolha dele, quem jogaria?

Um número interessante sobre isso: faz agora 11 jogos que o Manchester City não marca depois dos 20 minutos do segundo tempo. A última vez foi na goleada por 5 a 1 sobre o Leicester, no começo de fevereiro. Ainda mais relevante, nesse período, foram apenas cinco gols depois do intervalo, dos 20 anotados pelos Citizens. Cada caso é um caso, mas o City tem desacelerado no final das partidas, por incapacidade física ou de propósito para poupar as suas energias.

Claro que a resposta para esta questão não é muito simples. Porque dentro dessas hipóteses também estão pontos que contribuem para o sucesso da equipe de Guardiola.  Encontrar um equilíbrio entre a intensidade necessária para vencer sem desgastar demais os jogadores é muito difícil. Da mesma maneira, balancear um elenco qualificado sem ter atletas insatisfeitos e incapazes de compor a equipe. Mas a realidade é que o técnico espanhol foi eliminado da Champions League pela quinta vez seguida. E se o título europeu nunca pode ser obrigação, mais uma vez caiu antes mesmo das semifinais e não disputa a decisão desde 2011.