E se Falcão tivesse insistido em jogar futebol de campo depois de sair do São Paulo?

Esse é um texto de ficção e qualquer semelhança com a realidade é mera coincidência. Ou não.

“Ei, Leão, queremos o Falcão” era o grito que ecoava no Morumbi naquele 20 de janeiro de 2005. O São Paulo vencia o Ituano, pela primeira rodada do Campeonato Paulista, por 3 a 1, mas a torcida não estava satisfeita. Queria ver a grande atração da noite, presenciar um momento que poderia ser histórico: a estreia do maior jogador de futsal de todos os tempos no futebol de campo. Queria ver Falcão.

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Leão, mesmo com a teimosia do tamanho da juba, eventualmente cedeu. Trocou Diego Tardelli por Falcão. Em pouco tempo, ele mostrou que a adaptação à grama seria apenas questão de tempo. De primeira, deu um passe lindo para Grafite perder um gol feito. Em seguida, um toque de calcanhar, lembrando as peripécias que costumava aprontar no salão. Poderia ter marcado um golaço em chute da entrada da área não fosse a intervenção do goleiro André Luis.

Ficou esse gostinho de frustração na boca, apesar da vitória final por 4 a 2, mas Falcão tinha certeza que a nova etapa da sua carreira estava apenas começando. Sentiu-se bem no gramado, recebeu elogios dos companheiros – Grafite disse que a sua estreia foi “boa até demais” – e, talvez um pouco prematuramente, soltou o discurso para “calar os críticos que não acreditavam nele”.

Talvez um pouco prematuramente porque Emerson Leão não ficou impressionado com o que viu. Manteve a cautela nas suas declarações pós-jogo e não fez nenhuma promessa. Não queria ficar refém de Falcão, e sua postura era coerente com a habitual tática de bater de frente com algumas estrelas do elenco para mostrar autoridade. Nem mesmo os contínuos apelos da torcida amaciaram o seu coração de pedra.

Falcão defendendo o São Paulo

Falcão defendendo o São Paulo

Deu poucas chances para o meia nos jogos seguintes. A única partida como titular veio em 17 de abril, contra o Mogi Mirim. Começou jogando no ataque, ao lado de Grafite, mas saiu no intervalo para a entrada de Vélber. Leão criticou dois gols que perdeu e a sua movimentação, mas não importava mais. Falcão havia desistido. Tinha uma boa proposta para voltar ao futsal, ganhando quase R$ 100 mil do Malwee, e não queria mais brincar de cabo de guerra com o seu treinador.

O destino às vezes pode ser cruel. Quase simultaneamente a sua saída do São Paulo, Leão precisou fazer um favor para um amigo e trocou o Brasil pelo Japão. Talvez com Paulo Autuori as coisas seriam diferentes, mas não queria pensar mais nisso. Era o melhor das quadras e no máximo regular dentro de campo. Havia tentado, para não ficar o resto da vida imaginando como poderia ter sido, e agora estava ansioso para voltar ao seu habitat natural. Teria uma semana de férias antes de retornar aos treinos e pensava em passar alguns dias com as pernas esticadas na praia quando o celular tocou. Era Celso Barros.

O presidente da Unimed queria conversar com ele. Convidou-o assistir ao último jogo do Fluminense no Maracanã antes das reformas para o Pan-Americano. Ironia do destino, seria contra o São Paulo, pelo Campeonato Brasileiro. Falcão hesitou, mas todas as despesas seriam pagas pelo mandachuva da empresa de seguros e, afinal de contas, se o plano era esticar as pernas na praia, por que não no Rio de Janeiro?

O Maracanã estava bonito, com 26 mil torcedores, e Falcão observava os bandeirões da torcida do Fluminense, distraído, quando Celso Barros fez a proposta: quase o dobro do que receberia para voltar a jogar futsal. O projeto da Unimed precisava de um garoto-propaganda e ele fora escolhido, mesmo sem nenhuma garantia de que sua carreira nos gramados pudesse dar certo. A confiança que não encontrou no Morumbi. Viu Tuta marcar duas vezes na vitória por 2 a 1 sobre o São Paulo e ouviu o eco da torcida gritando o nome do atacante. Queria aquilo. Queria ser ovacionado, como tantos ídolos de infância. Aceitou tentar mais uma vez.

Começou a treinar o físico. Os seus meses no São Paulo ensinaram que isso seria essencial. Precisaria aprender a se movimentar e a controlar o fôlego. Discernir entre a hora de correr e a de trotar. A intensidade das atividades foi tão grande que contraiu uma lesão muscular após 15 dias de Fluminense. Ficaria três semanas afastado e a estreia foi adiada para a Vila Belmiro. Entrou no segundo tempo do empate por 1 a 1 contra o Santos, mas ainda estava sem ritmo. Nem foi relacionado para as partidas decisivas das semanas seguintes contra o Paulista, pela Copa do Brasil. Dos camarotes, assistiu à derrota dolorosa do Fluminense.

A vaga para a Libertadores teria que vir pelo Campeonato Brasileiro, e Falcão finalmente estava pronto. Sentia-se bem, leve e focado no que deveria fazer. Começou a entrar pouco a pouco na equipe brigando por posição com Rodrigo Tiuí, Beto e Leandro. Variava entre primeira e segunda opção no banco de reservas, e nesse cenário um jovem garoto promissor de Xerém chamado Lenny foi escanteado e acabou emprestado ao Figueirense. Sofreu duas lesões sérias em Santa Catarina e nunca correspondeu às expectativas.

Falcão demorou algumas partidas para ganhar uma chance como titular, mas quando Abel Braga finalmente resolveu confiar nele, não se decepcionou. Foi em agosto, no Raulino de Oliveira, clássico contra o Vasco. E ele fez chover. Pela ponta esquerda, chegou à linha de fundo com facilidade, resultado do seu treinamento físico, e cruzou na cabeça de Tuta para o primeiro gol do Fluminense. O segundo foi marcado por ele próprio, o primeiro da sua carreira nos gramados. Dominou na ponta direita da grande área e lembrou os tempos de futsal. O instinto fez com que cortasse para a canhota e chutasse rápido, com força. Acertou o ângulo. Ainda começou a jogada do terceiro gol, e o Fluminense venceu por 3 a 2. Ouviu seu nome ser gritado por todos. Não era o Maracanã, mas tudo bem. Alcançou seu primeiro objetivo.

Assumiu a titularidade e foi ganhando ritmo de jogo. Emendou dribles e passes brilhantes na melhor sequência do Fluminense no Campeonato Brasileiro. Marcou mais cinco gols. Estava quase satisfeito. Não sentia mais a necessidade de provar para ninguém o que poderia fazer, mas ainda havia um espinho de cabelos brancos atravessado na garganta e causando certa azia. Emerson Leão, o treinador que o havia queimado no São Paulo, estava de volta ao país, treinando o Palmeiras. O encontro do primeiro turno havia terminado 2 a 2. Mas Falcão queria derrotá-lo, e a data da vingança estava marcada: 4 de dezembro, última rodada, Estádio Palestra Itália.

O destino mais uma vez aprontou das suas. Desacostumado a correr tanto tempo sem descanso, os músculos de Falcão fraquejaram mais uma vez. A lesão aconteceu durante a vitória sobre o Figueirense, por 2 a 0, que deixou o Fluminense a dez pontos de vantagem do quinto colocado Palmeiras, a cinco rodadas do fim. Apenas por um desastre não se classificaria à Libertadores, mas poucos haviam notado o tamanho da importância do atacante para o time. Afastado por um mês, Falcão viu o Flu sofrer quatro derrotas seguidas: Vasco, Atlético Mineiro, Fortaleza e Juventude. O Palmeiras encostou. Estava apenas um ponto atrás. O jogo do Palestra Itália não seria apenas vingança. Também seria uma final. A sua primeira como jogador de futebol de campo.

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Isso se Abel Braga decidisse escalá-lo. Fazia menos de um mês que se machucara contra o Figueirense e teria que atuar no sacrifício. Falcão não quis saber. Precisava dar uma resposta a Leão, por aqueles meses no São Paulo e pelas declarações na semana da decisão. Disse que sua contratação pelo São Paulo havia sido “meramente uma ação de marketing” e colocou a boa fase pelo Fluminense na conta do baixo nível técnico do Campeonato Brasileiro, aliado a uma certa dose de sorte.

Abel consentiu. Falcão começou no banco de reservas. Nem precisou cruzar com Leão porque o treinador do Palmeiras estava suspenso e assistia à partida em um dos prédios adjacentes ao Palestra Itália. Estava focado. Vibrou com o gol de Tuta que abriu o placar, mas o Palmeiras rapidamente empatou com Washington. Arouca acertou um chute espetacular da intermediária, e o Fluminense estava à frente novamente. Empurrado pela torcida que lotava o Parque Antártica, Juninho fez 2 a 2 e Correa virou em um gol espírita, aos 35 minutos do segundo tempo. Abel olhou para Falcão. Palavras não foram necessárias.

Falcão entrou em campo no lugar de Beto e no primeiro toque na bola deixou Adriano Magrão na cara do gol. Defesa de Marcos. Dominou pela esquerda e tentou passar por Gamarra, mas a velocidade do experiente zagueiro estava em dia. Desarmado com um carrinho. Tentou novamente passar pelo paraguaio, sem sucesso. Foi quando finalmente se tocou. Gamarra não era muito alto. Para um zagueiro profissional, tinha altura no máximo mediana. Não precisaria nem de muita força. Partiu novamente para cima dele, mas desta vez prendeu a bola entre os calcanhares e apresentou a sua marca registrada no futsal para o futebol profissional, o drible que apenas ele executava com tanta eficiência e que havia sido deixado de lado nessa trajetória pelos gramados. Chapelou Gamarra com uma lambreta, dominou a bola com o peito do pé esquerdo e, sem deixá-la cair, fuzilou Marcos com um chute cruzado.

Nem sabia se o jogo estava próximo de acabar ou não. Correu em direção ao prédio no qual sabia que Emerson Leão estava, tirou a camisa, escorregou de joelhos e começou a bater no peito, apesar de haver metade da torcida do Palmeiras entre ele e o seu ex-treinador. Levou um ou outro copo de água na cabeça por causa da comemoração, mas não ligou. Principalmente porque, na saída de bola, o árbitro Heber Roberto Lopes apitou o final de jogo. O Fluminense estava na Libertadores, graças a Falcão.

Seu contrato foi renovado por mais uma temporada. Foi poupado em muitas partidas do Campeonato Carioca para estar voando na Libertadores. O Fluminense caiu no difícil grupo 7, ao lado de Atlético Nacional, Cerro Porteño e Rosário Central. O clube carioca conseguiu a classificação com duas vitórias – curiosamente ambas contra o Atlético Nacional, líder do grupo -, três empates e uma derrota. Falcão foi o destaque, com três dos nove gols do time naquela campanha.

O chaveamento colocou o São Paulo no caminho do Fluminense, e as duas partidas foram bastante equilibradas. A classificação caminhava para a prorrogação até os 40 minutos do segundo tempo do jogo de volta, quando Júnior escapou pela esquerda. Falcão tentou acompanhá-lo, mas chegou um pouco atrasado no bote. Acertou a bola e depois trombou com o lateral. Pênalti. Rogério Ceni cobrou, o São Paulo passou.

De herói a vilão, em pouquíssimo tempo. O futebol de Falcão estava muito bem cotado, e o técnico Carlos Alberto Parreira pensava em levá-lo para a Copa do Mundo da Alemanha, um reserva de luxo para o quarteto mágico que certamente traria o hexacampeonato para o Brasil. Como perder com Ronaldinho, Kaká, Adriano e Ronaldo entre os onze titulares e Robinho e Falcão na reserva? Mas a torcida do Fluminense ainda remoía o pênalti que causou a eliminação da Libertadores. O clima estava péssimo, principalmente depois que foi visto jogando futevôlei com Romário e Renato Gaúcho em Ipanema quando deveria estar treinando.

Celso Barros apareceu com uma proposta do Villarreal. Manuel Pellegrini queria um craque para substituir Riquelme, quase em depressão após ter perdido um pênalti contra o Arsenal que levaria a semifinal da Champions League à prorrogação. O argentino havia pensado em ficar mais uma temporada na Espanha, mas decidiu voltar imediatamente para a Argentina. O Submarino Amarelo pagou € 12 milhões por Falcão, que acabou se tornando uma das piores contratações da história do clube.

Ele não se adaptou ao futebol espanhol, nem se entendeu com Pellegrini. Foi titular apenas três vezes em La Liga, entrou em mais um punhado de jogos no segundo tempo e se deu por satisfeito. Pediu para rescindir o contrato de três anos que assinara e pelo menos contou com a benevolência do chileno. O sentimento era de dever cumprido: havia disputado um Campeonato Brasileiro, feito gols decisivos, jogado a Libertadores e provado a sua capacidade de atuar no futebol de campo. Era o bastante. Por que buscar mais? Nunca seria o que foi naqueles tacos de madeira, ginásios lotados e diante de gols muito menores. Sua casa era o salão e estava na hora de voltar para ela.

As malas estavam prontas para o Brasil e a passagem estava comprada quando o celular tocou. Desta vez, era Joan Laporta, presidente do Barcelona, munido de uma proposta milionária para que defendesse o time de futsal do clube catalão. Queria voltar para a sua terra, mas se lembrou da outra vez em que mudou os seus planos depois de um telefonema. Sentiu novamente aquele comichão de um desafio novo e aceitou. Passou quatro anos jogando de azul-grená e conquistou todas as ligas nacionais e Copas do Rei que disputou, além de duas Copas da Uefa. Deixou o país como o Johan Cruyff do futsal e retornou, enfim, para onde sempre foi e será considerado o Pelé da modalidade.