Ser artilheiro do Campeonato Holandês é um galardão tão traiçoeiro que até entrou na lista de “entidades” que a Trivela fez, há algum tempo. Cabe repetir o porquê disso: para cada Marco van Basten, Dennis Bergkamp, Romário, Ronaldo ou Luis Suárez que saem da Holanda para ganharem respeito mundial, há quem tenha ficado famoso apenas dentro das fronteiras do país (Ruud Geels ou Willy van der Kuylen são goleadores admirados só nos Países Baixos), ou quem tenha se provado apenas razoável (Klaas-Jan Huntelaar, Bas Dost), ou quem tenha carbonizado a boa imagem pelas atuações abaixo da crítica em centros maiores (Mateja Kezman, Afonso Alves, Wilfried Bony). Talvez seja isso que vá acontecer com o artilheiro a sair da última rodada desta Eredivisie, neste domingo. Mas é inegável que a disputa pelo posto de goleador ganhou equilíbrio inesperado.

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Se durante boa parte da temporada Hirving Lozano pareceu destinado a ser aquele que mais colocou a bola nas redes, alguns percalços (como a suspensão de três jogos que o mexicano recebeu por uma expulsão contra o Heerenveen, no returno) e o crescimento de produção dos contendentes à artilharia resultou no cenário atual: apenas três gols separam o líder da tabela – Alireza Jahanbakhsh, do AZ, que marcou 18 vezes – dos 15 de Bryan Linssen, do Vitesse. Isso para nem falar de gente um pouco mais atrás, mas que mostrou talento ao colocar a esférica no filó adversário: aqui entra, por exemplo, David Neres e seus 14 gols, tornando o paulistano quem mais fez gols pelo Ajax na temporada inteira. O que torna tal disputa pela artilharia ainda mais peculiar é que cada competidor que buscará o posto na última rodada pode dizer que merecerá a artilharia.

Para começo de conversa, cite-se Alireza Jahanbakhsh. Se o AZ ainda pode se orgulhar da temporada que fez (em que pese o péssimo desempenho contra os grandes – confirmado com a derrota para o Ajax, domingo passado – e a derrota na final da Copa da Holanda), grande parte do mérito vai para Alireza: o iraniano mostra velocidade pela direita, técnica nas finalizações, e se tornou mais regular à medida que a Eredivisie chegava ao fim. Prova disso foram os três gols feitos contra o Vitesse, há duas rodadas, levando-o aos 18 que lhe dão a liderança da tábua de goleadores. Garantir a posição ao marcar contra o Zwolle, no jogo derradeiro do time de Alkmaar na temporada, será um prêmio ao atacante, que já mostra talento desde os tempos de NEC – e também será uma consolidação de sua importância para o Team Melli que disputará a Copa do Mundo.

Logo abaixo de Alireza, com 17 gols, dividem a segunda posição entre os artilheiros dois jogadores. Um deles quase dispensa comentários: Lozano é um dos protagonistas no título do PSV, insinuante nos avanços pela esquerda, mostrando velocidade e até certa raça, “Chucky” certamente será um dos alvos para contratações em Eindhoven (alvo até mais ressaltado, dependendo do que faça na Copa do Mundo, virtual titular do México que será). No entanto, exatamente ao fazer seu 17º gol – semana passada, no 3 a 3 contra o ADO Den Haag -, Lozano teve um susto: caiu de mau jeito dentro do gol, após o cabeceio para as redes, e sentiu dores na clavícula, saindo de campo poucos minutos depois. A lesão foi leve e sua convocação certa para o Mundial não corre riscos, mas talvez ele seja poupado na despedida dos Boeren, contra o Groningen. O azar de Lozano seria a possível sorte de outro com 17 gols: Bjorn Johnsen, do ADO Den Haag, que logo será esmiuçado.

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Com 16 gols, também sonhando com a última rodada, estão três nomes. Um deles é Steven Berghuis: dos raros pontos positivos na temporada decepcionante do Feyenoord, o atacante destoou da própria equipe em que atua. Assim como Alireza, a regularidade foi o ponto forte do ponta-direita do Stadionclub: Berghuis não sofreu com lesões como Nicolai Jorgensen ou Sam Larsson, tornou-se fundamental na equipe de Giovanni van Bronckhorst (coisa que Jens Toornstra não conseguiu ser). Por isso, sempre que a oportunidade se apresentou, o camisa 19 estava a postos para marcar. E pode muito bem fazê-lo neste domingo, contra o Heerenveen, fora de casa.

Todavia, a história mais respeitável entre os candidatos à artilharia vem de outro com 16 gols: Fran Sol. O espanhol pode ser considerado o protagonista de uma das histórias mais tocantes da temporada europeia. O atacante do Willem II já começara bem a temporada, mas teve descoberto um tumor nos testículos, em outubro. Precisou desfalcar a equipe de Tilburg por alguns jogos, recebeu apoio da torcida, teve a aliviante notícia de que o tumor era benigno, voltou aos campos… e seguiu marcando gols – com destaque para o antológico 5 a 0 no PSV, em que pespegou três nas redes dos Eindhovenaren. Se os Tricolores estão livres da repescagem/do rebaixamento, Fran Sol é o grande responsável por isso dentro de campo – e por tudo que passou na temporada, já é um ídolo do clube. Ser o goleador do campeonato, com o Willem II pegando o rebaixado Twente, seria um prêmio merecido.

Ainda há Wout Weghorst. Outro a marcar 16 gols, Weghorst compensa o nível técnico mediano com um porte físico respeitável e um senso de posicionamento bom o suficiente para transformá-lo no “homem-gol” do AZ, junto a Alireza. Porém, superou todos esses, na rodada passada, um aparente azarão. Que pode influir na outra grande história da última rodada, além da artilharia: a disputa pelas duas últimas vagas, na repescagem que rende um lugar na segunda fase preliminar da Liga Europa, disputada entre quinto e oitavo lugares da Eredivisie. Por ela se esforçarão Heerenveen (7º lugar, com 46 pontos), Zwolle (8º, com 44) e ADO Den Haag (9º, também com 44). O Zwolle foi considerada uma das equipes de estilo mais agradável no campeonato, pela ofensividade, mas o terrível desempenho no returno – segundo pior time, só à frente do rebaixado Twente – fez com que os “Dedos Azuis” ficassem seriamente a perigo de perderem um lugar que parecia certo nos play-offs pela vaga continental.

Sorte do Den Haag. Que além de mostrar mais solidez, vê o crescimento de Bjorn Johnsen na mais própria das horas. Não que o atacante norueguês de ascendência norte-americana já não se destacasse: se Nasser El Khayati armava as jogadas, era Johnsen quem as finalizava. Mas isso ganhou um novo patamar na rodada passada: o atacante fez os três gols do time de Haia, no empate com o PSV. E foi dividir a vice-artilharia com Hirving Lozano. Além de dividir com ele, Alireza, Fran Sol, Berghuis e Weghorst o sonho de ser o goleador da Eredivisie ao final das 34 rodadas – para, a partir daí, tentar provar o talento em estágios mais avançados.