FORTALEZA - “Posso me organizar primeiro?”. Edson Quebra-Coco havia acabado de se transformar em Edson Wagner Carneiro Viana, e o seu pedido foi muito mais uma necessidade do que um capricho. Passou as últimas duas horas quebrando cocos e precisava recuperar o fôlego. Com a cabeça, os dentes, o peito do pé, chutando, pisando e inclusive com os glúteos. Enfim, de todas as formas que ele conseguiu inventar e executar.

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A apresentação de Edson, um dos muitos artistas de rua no calçadão da Avenida Beira-Mar, em Fortaleza, é muito intensa. Não sei se você já tentou quebrar um coco sem uma machete, um machadinho ou uma bazuca, mas é virtualmente impossível. Requer força, técnica e experiência, e ele tem tudo isso. Reproduz esse número há 22 anos, faz musculação um dia sim, um dia não, e sabe exatamente aonde bater para vencer o coco. “A parte da estrela do coco não dá para quebrar. Você tem que pegar em uma parte específica”, explica.

Edson aprendeu qual a parte certa de bater no coco em um circo que se apresentava perto da casa dele. Assistiu ao show e ficou encantado com os aplausos da plateia. Também queria ser festejado por centenas de pessoas, experimentar aquela alegria. Conversou com o dono, admitiu que não sabia fazer nada, além de andar sobre vidros, e foi aceito. Aprendeu outros truques como entortar barras de ferro e puxar carros com a boca.

Hoje, porém, Edson apenas quebra cocos. Reúne uma roda de pessoas em sua volta e as entretém com brincadeiras e força bruta, resultado da musculação e da prática das artes marciais, que começou aos 13 anos. As piadas causam alguma impaciência. Bem ao estilo João Kléber, enrola demais entre os atos. Só que não é para prender audiência ou apenas para ser chato. Serve para recuperar o fôlego e concentrar as energias para a ação seguinte.

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Gosta das crianças, intimidadas pela potência daquele homem completamente careca, baixo, musculoso, tatuado, vestido com uma calça de combate e uma regata. Parece um militar, talvez rescaldo dos três anos que passou servindo o exército em Fortaleza. Não teria durado muito mais porque reserva a violência apenas aos cocos. “Eu brinco para as pessoas não acharem que eu sou violento”, diz. “Sempre com muito respeito”.

Esse sentimento genuíno, até um pouco infantil, de não ser visto como um bruto junta-se à simpatia com a qual cumprimenta e conversa com todos. Ajuda a formar a personalidade de um homem simples, temente a Deus e de coração mole. A voz fraqueja quando explica as tatuagens. Tem um coqueiro, uma caricatura do Quebra-Coco, um leão e o periquito que teve por dois anos. Um dia foi subir em um pé de goiaba e quando voltou encontrou apenas as penas. Suspeita de um gavião. “Ele me chamava de quebra-coco, eu vacilei, eu vacilei”, repetia.

A culpa pela morte da ave é tão grande quanto o orgulho por ganhar a vida do jeito dele. Afirma diversas vezes durante a apresentação que o importante é trabalhar, como cada um conseguir. Ganha em média R$ 150 por dia com o seu show. No mesmo dia em que conversou com a Trivela, tinha aparecido no programa da Ana Maria Braga, chamou a atenção e faturou R$ 200. Mas a grande bolada veio quando ganhou R$ 15 mil no Programa do Faustão, ao vencer o “Se Vira nos 30”. Foi o suficiente para ele comprar uma casa. “Se eu não tivesse feito isso, tivesse gastado o dinheiro com bobagem, estaria morando de aluguel”, afirma. “Eu agradeço tudo a Deus, só com Deus para aguentar isso que eu faço”.

Veja os truques de Edson, começando com os glúteos:

Os pés:

E a boca: